No dia seguinte ao discurso sobre o Estado da União, a oposição democrata afirmou que o presidente republicano, Donald Trump, está "fora da realidade". Líder da minoria no Senado, Chuck Schumer disse à emissora CNN que o titular da Casa Branca se mantém "dentro de uma bolha". "Ele sequer sabe o que o americano médio está passando", criticou. "O contraste entre os partidos (Democrata e Republicano) e o contraste entre a situação de Donald Trump e a situação atual dos Estados Unidos é gritante", acrescentou. No pronunciamento mais longo da história — 107 minutos —, Trump se vangloriou por ter supostamente levado o país a uma "guinada histórica", retratou uma economia pujante e vilanizou os democratas. "Todos os democratas, sem exceção, votaram contra esses cortes de impostos massivos, que eram realmente importantes e muito necessários", disse. "Os democratas estão destruindo o nosso país."
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Com uma inflação de 2,4% em janeiro e uma taxa de desemprego de 4,3% — contra 4% em 2025 —, Trump usou o discurso para exaltar a gestão econômica. "Vocês não viram nada ainda. Vamos melhorar cada vez mais. Esta é a Era de Ouro da América. (...) Eu herdei uma nação em crise, com uma economia estagnada, inflação a níveis recordes, uma fronteira aberta, criminalidade desenfreada em nosso país e guerras e caos por todo o mundo", declarou.
James Fallows, redator-chefe dos discursos do ex-presidente Jimmy Carter, explicou ao Correio que cerca de um terço da opinião pública norte-americana apoia Trump e, provavelmente, concorda com a imagem dele em relação aos democratas. "Acho improvável que dizer 'Eles são loucos' faça alguma diferença na opinião do restante do público. Mas teremos que esperar para ver. As eleições de meio de mandato , em novembro, geralmente são determinadas pelas condições econômicas subjacentes. No momento, as pesquisas sugerem que a maioria dos americanos não acredita que estejamos vivendo a Era de Ouro descrita por Trump", disse.
Na avaliação de Fallows, o discurso de Trump foi ruim. "As piores partes foram a duração excessiva e os esforços repetidos para dividir, em vez de unir. Além disso, a desnecessária 'pornografia da violência', ao abordar pessoas que sofreram mortes trágicas e ferimentos. Alguns familiares, presentes na plateia, chegaram a chorar", comentou. Ele também considerou negativa a decisão do republicano de conceder a Medalha Presidencial da Liberdade ao goleiro da seleção de hóquei no gelo dos EUA. "Ela geralmente vai para pessoas com uma vida inteira de realizações excepcionais, como escritores e artistas famosos, astronautas do programa espacial Apollo ou juízes da Suprema Corte."
Para Allan Lichtman, historiador político da American University (em Washington), o discurso de Trump teve pontos altos e baixos. "O ponto alto foi quando o presidente falou sobre as ações, que de fato tiveram um bom desempenho sob sua gestão. O ponto baixo foi o momento em que ele, de forma ultrajante e falsa, acusou os democratas de roubarem as eleições", disse ao Correio. "Não se supera um índice de desaprovação de 60%, o mais baixo da história para este ponto do mandato, tentando demonizar os oponentes. Isso pode agradar à sua base, mas não a outros eleitores."
Lichtman listou uma série de inverdades proferidas por Trump. "Ele disse que atraiu US$ 18 trilhões em novos investimentos e que herdou uma economia morta para salvá-la. Também afirmou que os democratas somente ganharam quando roubaram as eleições e que derrubou os preços dos medicamentos em 400%. Outra mentira foi a de que a inflação atingia níveis recordes durante o governo de Joe Biden", enumerou. O estudioso citou, ainda, o anúncio de Trump sobre o maior corte de impostos da história e a alegação de que ele teria colocado fim a oito guerras.
