Oriente Médio em convulsão

"Tarde demais para o Irã", diz Trump, ao garantir que "tudo está destruído"

Estados Unidos e Israel intensificam ataques ao regime iraniano e ao movimento fundamentalista islâmico Hezbollah, no Líbano. Prédio onde aiatolás se reuniriam para escolher sucessor de Ali Khamenei é bombardeado

Prédios em chamas depois de ofensivas aéreas de Israel na região sul de Beirute, bastião do Hezbollah  -  (crédito: Ibrahim Amro/AFP)
Prédios em chamas depois de ofensivas aéreas de Israel na região sul de Beirute, bastião do Hezbollah - (crédito: Ibrahim Amro/AFP)

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã não se resume às armas. Washington e Teerã reforçaram a retórica belicista nas últimas horas, deixando pouca (ou nenhuma) margem para a rendição do regime teocrático islâmico. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assegurou que a maioria dos dirigentes iranianos nos quais a Casa Branca pensava que poderiam comandar o país persa "está morta". "A maioria das pessoas em quem pensávamos morreu (...) Agora temos outro grupo (de dirigentes). Pode ser que também estejam mortos, segundo relatos", disse. O republicano avaliou que a Operação Fúria Épica, em conjunto com as forças israelenses", "está indo bem". "Praticamente tudo foi destruído", declarou, durante reunião com o chanceler alemão, Friedrich Merz, em Washington.

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Trump ressaltou que rejeitou uma oferta do Irã para retomar o diálogo. "A defesa aérea deles, a Força Aérea, a Marinha e a liderança se foram. Eles querem conversar. Eu disse 'Tarde demais!", escreveu em sua plataforma Truth Social. Do outro lado, os iranianos demonstraram disposição para travar uma guerra longa e advertiu que ainda não usou suas armas mais sofisticadas. "Temos capacidade para resistir e realizar uma defesa ofensiva por mais tempo do que o previsto (pelo inimigo) para esta guerra imposta", declarou o porta-voz do Ministério da Defesa, o general Reza Talai-Nik. "Não temos intenção de utilizar todas as nossas armas e equipamentos de ponta desde o início."

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Teerã e outras cidades iranianas voltaram a ser alvos de intensos bombardeios. De acordo com a agência de notícias Tasnim, caças-bombardeiros israelenses e americanos alvejaram o edifício onde estariam reunidos os 88 aiatolás (clérigos) da Assembleia dos Experts, o órgão responsável por escolher o sucessor de Ali Khamenei, líder supremo iraniano, morto durante um bombardeio ao seu complexo residencial, no centro da capital iraniana.

Durante algumas horas, o destino dos clérigos era dado como incerto — um ataque certeiro à eleição do próximo aiatolá representaria praticamente um golpe de morte no regime teocrático islâmico. A Assembleia de Experts tem realizado reuniões virtuais desde a morte de Khamenei. Um dos prédios do complexo, em Qom (a 100km de Teerã), foi atingido, mas, de acordo com a agência de notícias semioficial iraniana Fars, nenhum encontro ocorria no local. A Fars acrescentou que a seleção de um novo líder supremo está nos "estágios finais".  O jornal The New York Times divulgou que Mojtaba Khamenei, filho do falecido aiatolá, é o favorito para sucedê-lo. Também anunciou que o nome do escolhido deverá ser divulgado na manhã desta quarta-feira. Khamenei será sepultado na cidade sagrada xiita de Mashhad, em uma data ainda a ser definida. 

As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram um ataque às sedes da Presidência do Irã e do Conselho de Segurança do país e iniciaram uma "ampla onda" de bombardeios. "A Força Aérea israelense (...) atacou e desmantelou instalações dentro do complexo da direção do regime terrorista iraniano no coração de Teerã", afirmou o Exército. Na noite de domingo (1º/3), o Palácio Golestan — incluído na lista de patrimônio mundial da humanidade da Unesco — foi parcialmente danificado. A aviação israelense teria destruído uma instalação nuclear secreta chamada de Min Zadai. Localizada a nordeste de Teerã, ela estaria ligada à fabricação de armas nucleares. O Irã, por sua vez, iniciou ontem a "16ª onda da Operação Promessa Verdadeira, (...) com uma multidão de mísseis e drones das forças aeroespaciais do Corpo da Guarda Revolucionária contra o coração dos territórios ocupados", disse um comunicado da Guarda Revolucionária, em alusão a Israel. 

Prédios em chamas depois de ofensivas aéreas de Israel na região sul de Beirute, bastião do Hezbollah
Prédios em chamas depois de ofensivas aéreas de Israel na região sul de Beirute, bastião do Hezbollah (foto: Ibrahim Amro/AFP)

Desarmamento

Israel intensificou a campanha militar contra o movimento fundamentalista islâmico Hezbollah, em sua fronteira norte, com uma incursão terrestre ao sul do Líbano e mais bombardeios na região sul de Beirute, bastião do grupo. O Hezbollah garantiu ter alvejado três instalações militares israelenses. "Não vamos parar até que esta organização seja desarmada", declarou o chefe do Estado-Maior israelense, tenente-general Eyal Zamir. Mais de 58 mil libaneses foram deslocados pelos ataques. 

Especialista em Hezbollah pelo instituto Atlantic Council baseado em Beirute, Nicholas Blanford afirmou ao Correio que os israelenses intensificaram consideravelmente suas ações contra o Hezbollah. "Sob meu ponto de vista, não existe uma solução militar para desarmar o grupo. Eles podem degradar o Hezbollah, possivelmente de modo drástico, mas não é possível empregar apenas o poder bélico para desarmar uma organização", avaliou. "Em última análise, é necessário um esforço político para finalizar o acordo, e os israelenses não estão nessa posição, pois somente podem usar a força. Teoricamente, a força pode levar a uma solução política, mas ela, sozinha, não levará ao desarmamento do Hezbollah."

Carcaças de carros atingidos por míssil em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv
Carcaças de carros atingidos por míssil em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv (foto: Ilia Yefimovich/AFP)

O saudita Aziz Algashian, analista do Fórum Internacional do Golfo (em Riad), coloca em xeque a assertiva de Trump de que praticamente toda a cadeia de comando do Irã teria sido destruída. "É muito difícil de acreditar nisso. Acho que eles serão atingidos como nunca foram, mas retornarão. A questão é saber se haverá uma mudança de regime. Trump havia dito que o programa nuclear iraniano tinha sido obliterado, em junho do ano passado. Não era verdade. Então, ele retornou à guerra para fazer a mesma coisa", explicou à reportagem. "A completa e permanente destruição das capacidades de enriquecimento de urânio, que pode levar  à mudança de regime, é uma realidade distante."

Por sua vez, o paquistanês Umer Karim — pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos (em Riad) — admite que os Estados Unidos e Israel têm fortes capacidades de inteligência em campo. "Eles foram capazes de localizar e eliminar a liderança iraniana. No entanto, isso não significa que tenham destruído o sistema iraniano. A estrutura institucional do regime permanece intacta e consegue responder à situação, impondo custos tanto aos EUA quanto a Israel diretamente. Indiretamente, atinge os países do Golfo Pérsico, a economia global e o mercado de energia", disse ao Correio. Karim adverte que a guerra pode durar muito tempo. "O regime iraniano não vai a lugar nenhum sem tropas americanas em solo. Também não cederá para negociações sobre condições americanas por pelo menos um mês ou mais."

EU ACHO...

Nicholas Blanford, especialista em Hezbollah e em Oriente Médio pelo instituto Atlantic Council
Nicholas Blanford, especialista em Hezbollah e em Oriente Médio pelo instituto Atlantic Council (foto: Arquivo pessoal )

"O Hezbollah decidiu se envolver no conflito e está colhendo as consequências dessa decisão. Creio que eles veem isso como a 'última batalha' contra o inimigo israelense, da qual falam desde 2006. Este é o confronto final. Impossível dizer como isso termina ou o que virá a seguir. É um momento existencial para o regime iraniano e para o Hezbollah."

Nicholas Blanford, especialista em Hezbollah pelo instituto Atlantic Council baseado em Beirute 

Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos (em Riad)
Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos (em Riad) (foto: Arquivo pessoal )

"A menos que essa camada de liderança também seja eliminada e comecem a ocorrer deserções significativas com insurgências nas periferias do Irã, a guerra não terminará nas próximas quatro a seis semanas. O cálculo iraniano é que talvez, após esse período, os americanos e os países do Golfo sejam forçados a parar e, talvez, um novo acordo possa ser alcançado."

Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos (em Riad)

Guarda Revolucionária ameaça atacar centros econômicos do Oriente Médio

A guerra entre Irã e Israel pode surtir impacto econômico ainda mais grave. Ebrahim Jabari, general da Guarda Revolucionária Iraniana, advertiu que, caso os bombardeios contra o seu país prossigam, "todos os centros econômicos" do Oriente Médio serão alvo. "Dizemos ao inimigo que, se decidir atacar nossos principais centros, nós atacaremos todos os centros econômicos da região", ameaçou. "Fechamos o Estreito de Ormuz. Atualmente, o preço do petróleo passa dos US$ 80 e, em breve, atingirá os US$ 200", acrescentou, segundo a agência de notícias Isna. O barril do Brent superou os US$ 85 pela primeira vez desde julho de 2024.

Na noite desta terça-feira (3/3), agências de segurança do Catar anunciaram as prisões de duas células de suspeitos associados à Guarda Revolucionária do Irã. De acordo com a estatal Qatar News Agency, "as operações de monitoramento e rastreamento de perfeição resultaram na captura de 10 suspeitos". "Sete deles tinham a missão de coletar informações sobre a infraestrutura vital e militar do país em missões de espionagem. Os outros três foram designados para realizar atividades de sabotagem e treinados no uso de drones", afirmou a Qatar News Agency. Com as células, foram encontradas coordenadas para a localização de instalações e equipamentos sensíveis, além de dispositivos de comunicação e equipamentos tecnológicos. Um míssil iraniano atingiu a base americana de Al Udeid, a sudoeste da capital Doha. 

Arranha-céu de Riad, capital da Arábia Saudita, exibe projeção na fachada: "Alá, torne esse país seguro"
Arranha-céu de Riad, capital da Arábia Saudita, exibe projeção na fachada: "Alá, torne esse país seguro" (foto: Fayez Nuraldine/AFP)

Analista do Fórum Internacional do Golfo (em Riad), o saudita Aziz Algashian prevê que a situação no Golfo Pérsico ficará ainda mais tensa. "Acho que será preciso muito cautela. O que os sauditas têm feito é permitir a internacionalização do conflito. Em outras palavras, o escoamento de mercadorias por navios e de petróleo é um problema global", afirmou ao Correio. "O reino saudita autoriza, com isso, uma resposta internacional. Por esse motivo, ele tem se focado na diplomacia. Agora, Reino Unido e França estão enviando porta-aviões; os Estados Unidos assinalaram que escoltarão navios comerciais."

Algashian considera a ameaça iraniana de atacar centros econômicos do Orente Médio como plausível. "Teerã cumpriu tudo o que prometeu. Com essa ameaça iraniana, tudo ficarás mais caro. Este é o ângulo de alavancagem que a Arábia Saudita possui", disse. O reino de Riad alertou os Estados Unidos de que, se não conseguirem deter o Irã, isso não será bom para nenhum lado e para os mercados internacionais, com a perspectiva de aumento da inflação. "Os preços do petróleo estão aumentando. Na Europa, o gás subiu 50 pontos percentuais. Essa é a influência que a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérscio detêm", acrescentou o especialista de Riad.

  • Dos telhados de Teerã, iranianos observam coluna de fumaça depois de bombardeio à capital: escalada de ataques
    Dos telhados de Teerã, iranianos observam coluna de fumaça depois de bombardeio à capital: escalada de ataques Foto: Atta Kenare/AFP
  • Carcaças de carros atingidos por míssil em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv
    Carcaças de carros atingidos por míssil em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv Foto: Ilia Yefimovich/AFP
  • Trabalhadores estrangeiros da zona industrial de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, veem area afetada por explosão
    Trabalhadores estrangeiros da zona industrial de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, veem area afetada por explosão Foto: Fadel Senna/AFP
  • Nicholas Blanford, especialista em Hezbollah e em Oriente Médio pelo instituto Atlantic Council
    Nicholas Blanford, especialista em Hezbollah e em Oriente Médio pelo instituto Atlantic Council Foto: Arquivo pessoal
  • Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos (em Riad)
    Umer Karim, pesquisador associado do Centro Rei Faisal para Pesquisa e Estudos Islâmicos (em Riad) Foto: Arquivo pessoal
  • Projeção em arranha-céu de Riad:
    Arranha-céu de Riad, capital da Arábia Saudita, exibe projeção na fachada: "Alá, torne esse país seguro" Foto: Fayez Nuraldine/AFP
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postado em 04/03/2026 05:50
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