Oriente Médio em convulsão

Bombardeio israelense mata Ali Larijani, o homem forte de Teerã

Ataque aéreo tira de cena Ali Larijani, principal autoridade de segurança e afilhado político do ex-líder supremo Ali Khamenei, também morto em bombardeio. Guarda Revolucionária se afirma como coluna vertebral do regime islâmico

 Ataque contra Teerã atinge posto de controle da milícia Basij: Israel alega ter eliminado o comandante da unidade -  (crédito: AFP)
Ataque contra Teerã atinge posto de controle da milícia Basij: Israel alega ter eliminado o comandante da unidade - (crédito: AFP)

O governo do Irã confirmou a morte, em ataque aéreo israelense, do chefe do Conselho Supremo de Segurança, Ali Larijani, figura de proa do regime islâmico desde a guerra contra o Iraque (1980-1988) e um dos estrategistas da resistência aos ataques coordenados lançados contra o país por Israel e Estados Unidos, desde 28 de fevereiro. Homem de confiança do aiatolá Ali Khamenei, que foi o líder supremo até ser morto em bombardeio, nos primeiros dias da guerra, Larijani tinha ascendência direta sobre a Guarda Revolucionária, espinha dorsal do regime islâmico por quase meio século.

"As almas puras dos mártires acolheram a alma purificada do servo justo de Deus, o mártir doutor Ali Larijani", declarou o conselho. O filho e o guarda-costas do dirigente também morreram no ataque. "Após toda uma vida de luta pelo progresso do Irã e da Revolução Islâmica, finalmente (ele) alcançou a aspiração de toda a vida: respondeu ao chamado divino e alcançou com honra a doce graça do martírio na trincheira do serviço", diz o comunicado.

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O governo israelense, que havia antecipado a notícia, anunciou também ter "eliminado" o general Gholamreza Soleimani, chefe da milícia Basij, composta de voluntários e destinada, em grande medida, em assegurar o controle da sociedade e o respeito às normas do regime — em particular, a observação pelas mulheres dos códigos de vestimenta. Ambos foram apontados por Israel como peças-chaves do "aparato repressivo central" do Irã.

 Ataque contra Teerã atinge posto de controle da milícia Basij: Israel alegar ter eliminado o comandante da unidade
Ataque contra Teerã atinge posto de controle da milícia Basij: Israel alega ter eliminado o comandante da unidade (foto: AFP)

Impacto

Com a guerra entrando no 19º dia, e a persistência dos ataque iranianos não apenas contra Israel, mas contra alvos dos EUA e de seus aliados árabes na região, a eliminação física dos altos escalões não dá sinais de ter debilitado efetivamente o regime islâmico. "O Irã se preparou por anos para essa guerra, inclusive com a continuidade da cadeia de comando e planejamento" disse ao Correio o cientista político Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. "É importante entender que o regime iraniano não é igual ao venezuelano: tem muito mais coerência ideológica e religiosa", observa.

Na avaliação do estudioso, o vazio aberto pela perda de algumas das figuras de maior expressão, inclusive entre a opinião pública, reforça o peso específico da Guarda Revolucionária, formada nos primeiros anos da Revolução Islâmica e consolidada na guerra de oito anos contra o Iraque de Saddam Hussein — que, na época, teve apoio tácito ou explícito do Ocidente e mesmo da hoje extinta União Soviética, sem falar no mundo árabe, onde a única exceção foi a Síria. "Neste momento, ao que tudo indica, a Guarda Revolucionária é que tem o peso nas decisões", diz Ruzit.

Ele lembra que Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo morto por Israel, foi escolhido para sucedê-lo sem ter atingido o grau religioso de aiatolá ("sinal de Deus"), ao qual foi elevado simultaneamente. "Isso indica que a necessidade de manutenção do regime superou as visões clericais", aponta. O professor da ESPM pondera que a Guarda Revolucionária, embora formalmente submetida ao líder supremo, ganhou ao longo das décadas "muito peso econômico e político, além de ser o braço armado que sustenta o regime". "Enquanto Ali Khamenei estava no poder, tinha a autoridade moral e religiosa para comandar. Já seu filho, não a tem", conclui.

Linha dura

Matemático e filósofo de formação, Larijani foi veterano da guerra Irã-Iraque. Com a morte do fundador do regime islâmico, o aiatolá Ruhollah Khomeini, no ano seguinte ao fim do conflito, Khamenei, então presidente da República, assumiu o posto — e, com ele, Larijani subiu degraus, sempre alinhado com a facção mais conservadora do clero e do regime. Foi ministro da Cultura e diretor da rádio e televisão públicas. Presidiu o Majlis (parlamento), coordenou as negociações sobre o programa nuclear e chegou a disputar a presidência. Nos últimos anos, chefiou o poderoso Conselho Supremo de Segurança.

Desde o início da guerra contra EUA e Israel, assumiu papel muito mais visível que o do novo líder supremo, que não aparece em público desde o início do conflito. Larijani foi visto pela última vez em público na última sexta-feira, em Teerã, onde se somou a milhares de pessoas nas manifestações do Dia de Quds (nome árabe-islâmico de Jerusalém), em apoio aos palestinos em sua luta contra a ocupação israelense.

Primeira baixa no governo Trump

A guerra contra o Irã deixou, nesta terça-feira, sua primeira baixa no alto escalão do governo de Donald Trump. Joe Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo e entusiasta de primeira hora do presidente, publicou na rede social X a carta na qual pediu demissão, alegando que a Casa Branca teria tomado a decisão de atacar a República Islâmica com base em "desinformação" apresentada por "funcionários israelenses de alto escalão" e "jornalistas influentes".

"O Irã não representava uma ameaça iminente aos EUA", diz o texto. Kent, 45 anos, é veterano das forças especiais e da Agência Central de Inteligência (CIA). Perdeu a mulher, Shannon, especialista em criptologia na Marinha, morta em bombardeio na Síria, em 2019. Na carta de demissão, acusa o governo de ter iniciado o conflito "devido à pressão de Israel e de seu poderoso lobby" nos EUA, que teriam funcionado como "uma câmara de eco" para convencer o presidente de "uma mentira". O funcionário demissionário insiste em que o presidente deve "mudar de rumo".

O diretor do Centro de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent
O diretor do Centro de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent (foto: Anna Moneymaker / AFP)
 

Falando à imprensa na Casa Branca, Trump sustentou que dispunha de "provas convincentes" quanto à ameaça representada pelo programa nuclear do regime iraniano, que estaria determinado a "atacar primeiro". Afirmou que a manifestação de Kent demonstraria que "é uma boa coisa ele ter saído". A despeito da confiança depositada no diretor de contraterrorismo, ao nomeá-lo, minimizou a importância dele para o governo: "É frouxo na questão da segurança".

Kent não era uma figura de grande expressão para o público, mas tornou-se o funcionário de mais alto nível, até hoje, a criticar frontamente a decisão da Casa Branca pela guerra contra o Irã — embora não tenha acusado o presidente de ter, ele próprio, cometido um erro. De toda maneira, evocando a plataforma trumpista, o ex-diretor de contraterrorismo afirma que a ofensiva no Oriente Médio enfraquece o lema de "América em primeiro lugar", um dos carros-chefes da campanha vitoriosa pela presidência, em 2024.

  • Ataque contra Teerã atinge posto da milícia Basij: Israel alega ter eliminado o comandante da unidade, que atua na repressão interna
    Ataque contra Teerã atinge posto de controle da milícia Basij: Israel alega ter eliminado o comandante da unidade Foto: AFP
  • O chefe do Conselho Supremo de Segurança, Ali Larijani, morto 
pelas forças israelenses
    O chefe do Conselho Supremo de Segurança, Ali Larijani, morto em bombardeio Foto: Anwar Amro/AFP
  • O diretor do Centro de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent
    O diretor do Centro de Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent Foto: Anna Moneymaker / AFP
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postado em 18/03/2026 05:50
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