
Em seu 16º dia, a guerra ameaça a infraestrutura energética do Golfo Pérsico. Um ataque conjunto dos EUA e de Israel incendiou o South Pars-North Dome, o maior campo de gás natural do mundo, situado em Asaluyeh (sul do Irã), na província de Bushehr. A instalação fornece cerca de 70% do gás natural nacional do Irã. A ofensiva levou a críticas inéditas dos Emirados Árabes Unidos, de Omã e da Arábia Saudita, por temerem o impacto no comércio global da commodity ante uma retaliação iraniana. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, alertou sobre o risco global representado por bombardeios a infraestruturas energéticas. "Isso complicará a situação e pode ter consequências incontroláveis, cujo alcance pode abranger o mundo inteiro", advertiu Pezeshkian na rede social X.
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Por sua vez, o presidente do Parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibar, anunciou que, a partir de agora, "vigora a lei do olho por olho e começa um novo nível de confrontação". Teerã não ficou somente na retórica. Quatro mísseis iranianos foram interceptados pelo Catar, mas outro caiu sobre a Cidade Industrial de Ras Laffan, provocando um incêndio no complexo de produção de gás natural liquefeito. A Guarda Revolucionária Iraniana acenou com a "destruição" da indústria de energia de vizinhos regionais do Irã. "Advertimos mais uma vez que cometeram um grave erro ao atacar a infraestrutura energética da República Islâmica, cuja resposta está em curso. Se isso voltar a acontecer, os ataques contra sua infraestrutura energética e a de seus aliados não cessarão até que seja completamente destruída, e nossa resposta será muito mais severa do que os ataques desta noites", anunciou, em comunicado.
O Khatam Al Anbiya ("Selo dos Profetas"), um conglomerado ligado ao Exército iraniano, anunciou que "atacará seriamente a origem da agressão e considerará atingir a infraestrutura de combustível, energia e gás" dos países de onde os ataques israelo-americanos foram lançados. Pouco antes do bombardeio a Ras Laffan, a televisão estatal iraniana colocou uma refinaria e uma companhia petroquímica da Arábia Saudita, três complexos energéticos do Catar e um campo de gás dos Emirados Árabes Unidos na lista de "alvos legítimos". Por meio de um comunicado do Ministério das Relações Exteriores, o Catar expressou "firme condenação e denúncia do brutal ataque iraniano" e classificou a agressão "como uma escalada perigosa, uma flagrante violação de sua soberania e uma ameaça direta à sua segurança nacional". O governo catariano expulsou os adidos militares e de segurança do Irã e lhes deu um prazo de 24 horas para que abandonem o emirado.
Horas depois de matarem Ali Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, as Forças de Defesa de Israel (IDF) eliminaram Esmail Khatib, ministro de Inteligência do regime teocrático islâmico, em um bombardeio noturno. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o seu titular da Defesa, Israel Katz, autorizaram os militares a assassinarem "qualquer alto funcionário iraniano para o qual o cerco de Inteligência e operacional tenha sido fechado, sem necessidade de aprovação adicional". Nova mensagem atribuída ao aiatolá Mojtaba Khamenei, líder supremo iraniano, promete vingar a morte de Larijani. "Os anti-islamitas deveriam saber que derramar esse sangue aos pés da árvore do sistema islâmico somente o fortalece, e, claro, cada sangue tem um preço que os assassinos criminosos dos mártires devem pagar em breve", afirmou, no texto divulgado pela agência semioficial iraniana Tasnim.
Pela primeira vez, Israel alvejou o norte do território do Irã. No Líbano, a aviação israelense bombardeou o sul de Beirute, região considerada um reduto do movimento fundamentalista islâmico Hezbollah. O Ministério da Saúde libanês informou 14 mortes no país, 12 na capital e duas em Sidon. Na madrugada de ontem, um míssil de fragmentação iraniano atingiu um prédio em Ramat Gan, no subúrbio de Tel Aviv, matando um casal de israelenses.
Confusão
Pós-doutor em estudos de defesa, o cientista político iraniano Farhad Rezaei avalia que, ao ameaçar as instalações energéticas do Golfo Pérsico, o regime dos aiatolás está "confuso" e "incapaz de tomar decisões estratégicas racionais". "Atacar países vizinhos faz pouco sentido, pois apenas os incentiva a apoiar mais ativamente os bombardeios israelenses e americanos, podendo levar a retaliações contra a infraestrutura de petróleo e gás do Irã", disse ao Correio. "Isso também isolaria o regime politicamente. Temos observado dinâmicas semelhantes, recentemente, incluindo os esforços para aprovar uma resolução no Conselho de Segurança da ONU condenando o Irã, depois de ataques a países da região."
Em relação aos assassinatos de líderes iranianos, Rezaei vê uma semelhança com a estratégia utilizada contra os movimentos fundamentalistas islâmicos Hezbollah (Líbano) e Hamas (Faixa de Gaza). "Ao alvejar e eliminar a alta liderança, Israel enfraqueceu essas organizações a ponto de sua eficácia operacional ter sido severamente reduzida", analisou. Para o estudioso iraniano, além de reduzir a ameaça externa do regime, a eliminação de Larijani, de Khatib e de outros dirigentes pode enfraquecer a capacidade de repressão da agitação interna. "Se eu fosse um comandante dentro do aparato de segurança interna ou da milícia Basij, questionaria seriamente se vale a pena continuar, em uma função do risco de ser alvo de ataques e morto", comentou Rezaei.
EU ACHO...
"O assassinato de figuras-chave do regime representa um golpe significativo para a liderança iraniana. Se tais operações continuarem, poderão minar seriamente o regime, potencialmente forçando-o a se render ou a fazer concessões em seus programas nucleares e de mísseis balísticos, bem como em seu apoio ao terrorismo na região."
Farhad Rezaei, cientista político iraniano e pós-doutor em estudos de defesa

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