Oriente Médio em convulsão

Forças iranianas capturam dois navios no Estreito de Ormuz

Lanchas rápidas da Guarda Revolucionária disparam e interceptam dois porta-contêineres. Casa Branca minimiza incidente e nega violação do cessar-fogo. Teerã descarta reabrir canal marítimo até Washington suspender bloqueio naval

Moradores de Teerã caminham diante de outdoor com a frase "O Estreito de Ormuz permanece fechado", na Praça da Revolução  -  (crédito: Atta Kenare/AFP)
Moradores de Teerã caminham diante de outdoor com a frase "O Estreito de Ormuz permanece fechado", na Praça da Revolução - (crédito: Atta Kenare/AFP)

Poucas horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliar novamente o ultimato e exigir de Teerã uma proposta unificada de cessar-fogo, o regime iraniano disparou contra três navios porta-contêineres e capturou dois deles quando tentavam cruzar o Estreito de Ormuz. O canal marítimo por onde passam 20% do petróleo e do gás produzidos em todo o mundo foi fechado pelo Irã. Lanchas rápidas do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) interceptaram os cargueiros MSC-Francesca, que teria ligação com Israel, e Epaminondas. As embarcações foram escoltadas até a costa iraniana, sob a acusação de violarem protocolos de segurança e de alterarem sistemas de navegação.

A Marinha do IRGC informou que as autoridades do Irã inspecionariam a carga, os documentos e o histórico dos dois navios. UKMTO, agência de segurança marítima do Reino Unido, anunciou que uma das lanchas abriu fogo contra um cargueiro na costa de Omã. Disparos também teriam sido feitos contra ao menos uma embarcação na costa do Irã. Por sua vez, o presidente do Parlamento iraniano, Mohamad Bagher Ghalibaf, descartou reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os EUA prosseguirem com o bloqueio aos portos do país persa. 

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A Casa Branca não demorou para pôr panos quentes na interceptação dos navios. A porta-voz Karoline Leavitt negou que o incidente tenha representado uma violação do cessar-fogo. "Não, porque não eram navios americanos, não eram navios israelenses. Eram dois barcos internacionais", declarou Leavitt à emissora Fox News. "Esses dois navios foram capturados por lanchas rápidas. O Irã passou de ter a Marinha mais letal do Oriente Médio para agora agir como um bando de piratas. Eles não têm controle sobre o estreito. Isso é pirataria, o que estamos vendo em ação. O bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos continua sendo incrivelmente eficaz", acrescentou. Leavitt esclareceu que Trump não estabeleceu um novo prazo para o Irã apresentar um plano de paz. "Em última instância, o calendário será determinado pelo comandante em chefe", disse.  

O Estreito de Ormuz é alvo de bloqueios dos dois lados. Washington tenta impedir a navegação de embarcações que saiam ou rumem aos portos iranianos. Por sua vez, Teerã adverte que os barcos são obrigados a solicitar autorização para sair ou entrar do Golfo Pérsico atraves de Ormuz. 

Direito marítimo

Ex-juiz-advogado geral (JAG) da Marinha dos Estados Unidos e professor de direito da Emory University (em Atlanta, nos EUA), Mark Nevitt afirmou ao Correio que o bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz e a interceptação da embarcações neutras violam as leis da guerra naval e o direito marítimo. "A decisão de atacar navios aumenta, de forma dramática, as tensões na região. Também mina a possibilidade de um acordo entre Irã e EUA a curto prazo", explicou. De acordo com ele, a Casa Branca, provavelmente, considera a apreensão de navios como uma medida de aplicação da lei, não como um ato de guerra. "Mas não está claro para mim qual era exatamente o escopo do cessar-fogo", emendou o estudioso. 

Em entrevista ao The New York Post, Trump afirmou esperar um segundo ciclo de negociações entre Estados Unidos e Irã, em Islamabad (capital do Paquistão), a partir de amanhã. "É possível!", respondeu o republicano ao jornal, por meio de mensagem de texto, quando foi questionado sobre fontes no Paquistão que afirmavam que se espera novo diálogo entre 36 e 72 horas. 

EU ACHO...

Mark Nevitt, ex-juiz-advogado geral (JAG) da Marinha dos EUA e professor de direito da Emory University
Mark Nevitt, ex-juiz-advogado geral (JAG) da Marinha dos EUA e professor de direito da Emory University (foto: Sameer A. Khan)

"O impacto econômico do fechamento do Estreito de Ormuz é dramático: 20% do petróleo mundial transitam pelo canal. O Irã transforma o Estreito de Ormuz em arma para conseguir um acordo com os EUA. Não vejo como isso seja possível, a menos que o Irã concorde em abrir o Estreito."

Mark Nevitt, ex-juiz-advogado geral (JAG) da Marinha dos EUA e professor de direito da Emory University

O antiamericanismo exposto em murais

Moradores de Teerã caminham diante de outdoor com a frase "O Estreito de Ormuz permanece fechado", na Praça da Revolução
Moradores de Teerã caminham diante de outdoor com a frase "O Estreito de Ormuz permanece fechado", na Praça da Revolução (foto: Atta Kenare/AFP)

Desde o início da guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos, murais coloridos surgiram em Teerã e outras grandes cidades, carregados de simbolismo e temas de resistência e desafio. Murais são há muito tempo uma característica marcante da paisagem urbana do Irã, especialmente na capital, onde, localizados em praças centrais, refletem a mensagem política e a política externa do Estado. Desde a revolução de 1979, que estabeleceu a República Islâmica, esse tipo de imagem tem servido como meio de refletir a ideologia e a memória coletiva. Nos últimos dias, um mural em Teerã retratou um porta-aviões americano carregando caixões cobertos com bandeiras dos Estados Unidos, cercado por pequenas embarcações com bandeiras iranianas e um helicóptero. A imagem evoca o domínio marítimo do Irã, onde as Forças Armadas iranianas mantêm o bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz. Outro mural retrata um homem com os braços erguidos, ambos envoltos na bandeira iraniana, formando um coração com as mãos. Outro mural mostra militares iranianos segurando uma rede de pesca que prende aviões e navios de guerra. 

Líbano e Israel voltam à mesa

Israel e o movimento xiita Hezbollah voltaram nesta quarta-feira (22/4) a trocar ataques no sul do Líbano, na véspera da segunda rodada de negociações diretas entre as partes em Washington, sob mediação do Departamento de Estado. Embora não tenha autoridade sobre a milícia pró-Irã, o presidente libanês, Joseph Aoun, antecipou que sua representante, a embaixadora nos EUA, Nada Moawad, foi orientada a defender a prorrogação do cessar-fogo firmado na semana passada — sem participação do Hezbollah —, com vencimento neste domingo (26/4).

"Faço um apelo ao governo do Líbano: trabalhemos juntos contra o Estado terrorista que o Hezbollah construiu no seu território", afirmou o chanceler israelense, Gideon Saar. Ele se referiu ao interlocutor como um "Estado falido", pela impotência demonstrada para se impor como poder único no país, mas ressaltou a "decisão histórica" do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de "negociar diretamente com o Líbano, depois de mais de 40 anos".

Os combates diretos entre tropas, bem como a troca de bombardeios e ataques com mísseis e drones, decretaram o fim de um cessar-fogo firmado diretamente entre Israel e o Hezbollah no fim de 2024, após uma troca de hostilidades relacionada à ofensiva militar israelense contra o território palestino da Faixa de Gaza. A trégua se manteve até o início de março último, quando o movimento xiita abriu fogo contra o vizinho em resposta à morte em bombardeio do líder espiritual do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.

Desde então, as autoridades libaneses registram a morte de 2.400 pessoas nos ataques israelenses, além do deslocamento de 1,2 milhão de habitantes para a capital, Beirute. Israel anuncia a determinação de ocupar com tropas uma faixa de 8km de profundidade ao longo de toda a fronteira, a título de estabelecer uma "zona de segurança" para manter os povoados do norte do país a salvo de foguetes disparados pelo Hezbollah.

 

  • O cargueiro MSC Francesca, em foto feita no Porto da Filadélfia, nos Estados Unidos
    O cargueiro MSC Francesca, em foto feita no Porto da Filadélfia, nos Estados Unidos Foto: Porto da Filadélfia/X
  • Mark Nevitt, ex-juiz-advogado geral (JAG) da Marinha dos EUA e professor de direito da Emory University
    Mark Nevitt, ex-juiz-advogado geral (JAG) da Marinha dos EUA e professor de direito da Emory University Foto: Sameer A. Khan
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postado em 23/04/2026 05:50
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