
O anúncio foi publicado às 15h09 desta terça-feira (21/4) pelo horário de Washington (17h09 no horário de Brasília) por Donald Trump em sua plataforma Truth Social. "Considerando que o governo do Irã está seriamente fragmentado, o que não surpreende, e a pedido do marechal de campo Asim Munir e do primeiro-ministro Shehbaz Sharif, do Paquistão, fomos solicitados a suspender nosso ataque ao Irã até que seus líderes e representantes apresentem uma proposta unificada", escreveu o presidente dos Estados Unidos. O republicano também revelou que ordenou às Forças Armadas dos EUA que mantenham o bloqueio naval ao Estreito de Ormuz e permaneçam de prontidão. Pela sexta vez, desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, Trump ampliou o ultimato a Teerã. "Estenderei o cessar-fogo até que sua proposta seja apresentada e as discussões sejam concluídas, de uma forma ou de outra", concluiu, na mensagem desta terça-feira.
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Os sinais de indisposição ao diálogo pareciam evidentes entre os dois lados. J.D. Vance, vice de Trump, suspendeu a viagem a Islamabad, capital paquistanesa, onde comandaria a delegação americana na nova rodada de negociações. Esmaeil Baqaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, criticou a postura dos EUA. "O motivo desta situação é que estamos enfrentando mensagens contraditórias, comportamentos contraditórios e ações inaceitáveis por parte dos Estados Unidos", declarou. A Guarda Revolucionária Iraniana ameaçou destruir a produção de petróleo de países do Golfo Pérsico, caso Trump decidisse retomar a guerra. "Nossos vizinhos do sul devem saber que, se sua geografia e instalações forem usadas por inimigos para atacar a nação iraniana, podem dar adeus à produção de petróleo no Oriente Médio", afirmou Majid Mousavi, comandante da Força Aeroespacial da Guarda Revolucionária, citado pela agência de notícias Fars.
Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP), lembrou ao Correio que o Irã havia sinalizado que não participaria da rodada de negociações em Islamabad. "O vice de Trump não queria gastar capital político para se associar a uma negociação fracassada. No fim das contas, uma negociação somente ocorre com os dois lados. Tanto os Estados Unidos e o Irã tinham razões para não ir a Islamabad", afirmou. De acordo com o estudioso, o Irã sustenta que Trump não consegue cumprir acordos e adota uma volatilidade, ao não fixar-se em uma opinião sobre temas específicos.
Lehmann avalia que o fechamento do Estreito de Ormuz provoca um problema para a economia mundial e para os Estados Unidos, tendendo a exercer pressão política sobre Trump. "Existem 'bons argumentos' para que Irã e EUA não terminem as negociações com um acordo", advertiu o professor da USP. Ele questiona o que os americanos ganharam com a guerra contra os iranianos. "Se Trump terminasse o confronto agora, como ele venderia os resultados dessa guerra para a população de seu país? Os americanos mortos? O preço da gasolina? Tudo isso valeu a pena por que e para quê? Politicamente, Trump está numa situação mais difícil do que o regime iraniano, que não precisa se preocupar com a própria população", acrescentou.
Novo formato
Por sua vez, Cristina Soreanu Pecequilo — professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) — considera exagero usar o termo "definitivo" para acordo de cessar-fogo defendido por Trump. "Podem ocorrer avanços diplomáticos, mesmo que em uma eventual nova rodada tenhamos uma retomada de bombardeios ou algum tensionamento adicional. Parece-me que os dois lados precisam chegar a um termo em comum. As coisas parecem caminhar para um novo formato de negociações. O novo formato pode ser o de reforçar a diplomacia com mais interlocutores iranianos, talvez menos ligados ao regime anterior", explicou ao Correio. Ela disse não ver um Trump desmoralizado com o novo adiamento. "Isso pode até ser entendido como uma vitória relativa, à medida que poderia comprovar sua tese de que o regime dos aiatolás está enfraquecido e que existem disputas internas no país."
Segundo Pecequilo, existe o perigo de um conflito recorrente, apesar dos custos altos para Trump. "Os interesses de Israel no Irã, no Líbano, na Faixa de Gaza e no entorno nem sempre convergem sobre os mesmos termos observou", comentou. A professora da Unifesp não descarta que Trump reduza as exigências a Teerã. "Qualquer aspecto nas relações entre EUA e Irã que demonstre fraqueza não será aceito pelo presidente republicano. Por isso, prevejo um processo de acomodação mútua", disse. Pecequilo avisa que uma concessão muito dura ou qualquer coisa que sinalize derrota será refutada por Trump.
Para Habib Malik — professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute) —, o principal entrave para um acordo é o bloqueio naval imposto ao Irã pelos EUA. "Os iranianos querem que a medida seja suspensa, como pré-condição para as conversações, mas Trump não está disposto nem a considerar tal possibilidade", explicou à reportagem, por e-mail.
EU ACHO...
"Se eu fosse da liderança iraniana no momento, eu me sentiria razoavelmente confortável, pois teria poder e influência. Se os Estados Unidos mantiverem o bloqueio naval, o Irã terá problemas em algum momento, porque não conseguirá vender seu petróleo."
Kai Enno Lehmann, professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo (USP)
"É possível que uma nova rodada de negociações e um eventual cessar-fogo não tragam a recuperação da popularidade de Trump. O fato de ele ter acionado mais reservas estratégicas de energia dentro dos EUA dá um sinal de preocupação com essa agenda."
Cristina Soreanu Pecequilo, professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)
"Estão surgindo relatos de disputas dentro da liderança iraniana entre as alas linha-dura ideológica e pragmática. Todas as indicações sugerem que a guerra entre os Estados Unidos e o Irã está longe de terminar e que algumas questões militares importantes ainda precisam ser resolvidas, antes que o momento seja propício para negociações significativas."
Habib Malik, professor aposentado de história da Universidade Libanesa Americana (em Beirute)
POPULARIDADE EM QUEDA
Donald Trump amarga a mais baixa taxa de popularidade desde 20 de janeiro de 2025, quando teve início o segundo mandato do republicano à frente da Casa Branca. Pesquisa feita pela agência de notícias Reuters e pelo instituto Ipsos mostra que apenas 36% dos americanos aprovam o seu governo. A taxa de desaprovação chega a 62%, segundo o levantamento, que consultou 4.557 pessoas entre 14 e 20 de abril.
Diálogo entre combates no Líbano
A 48 horas de uma nova rodada de negociações com o governo de Beirute, Israel voltou nesta terça-feira (21/4) a atacar o sul do Líbano, em resposta a disparos de foguetes do movimento xiita Hezbollah contra localidades do norte israelense. Sem a participação do grupo pró-iraniano, emissários dos dois países reuniram-se nos EUA e acertaram um cessar-fogo de 10 dias, com vencimento no próximo domingo. O acordo não impediu, porém, novos combates e trocas de ataques entre o Hezbollah e tropas israelenses que ocupam uma faixa de 10km além da fronteira. Desde a retomada das hostilidades, no início de março, autoridades libanesas contabilizavam 2.454 mortos e mais de 7 mil feridos. Israel registrava a morte de 13 soldados e menos de dez civis.
O Exército de Israel declarou ter atingido um lançador de foguetes do Hezbollah após disparos contra suas tropas no sul do Líbano. "Há pouco, a organização terrorista atacou parou vários foguetes contra soldados das que operavam ao sul da Linha de Defesa Avançada, na região de Rab Thalathin", informou um comunicado militar. A "linha de defesa" citada corresponde à faixa de território ocupada potr Israel desde o reinício dos combates, que pôs fim a um cessar-fogo acertado no fim de 2024.
O Departamento de Estado dos EUA confirmou para amanhã uma segunda rodada de conversações entre emissários dos dois países, como desdobramento da reunião mantida há uma semana entre os respectivos embaixadores em Washington. Os EUA dão boas-vindas a esse engajamento produtivo, e continuará a facilitar discussões diretas e de boa-fé entre os dois governos", disse um porta-voz da diplomacia norte-americana.
O governo libanês se vê entre pressões cruzadas para estabelecer uma trégua mais segura e durável, depois de um mês de bombardeios que causaram danos extensos nos subúrbios do sul da capital e no sul e leste do país, redutos da comunidade xiita e do Hezbollah. Além dos mortos e feridos, a ofensiva israelense provocou o deslocamento de mais de 1 milhão de moradores das áreas atingidas para Beirute. O movimento ameaça tensionar as relações entre as comunidades religiosas do país, que se equilibram sobre uma paz instável desde o fim da guerra civil que dilacerou o país entre 1975 e 1990.
Acusado pelos adversários de "capitular" frente a Israel, o presidente Jpseph Aoun, um cristão maronita, defendeu a opção diplomática. "As negociações não são sinal de fraqueza nem um recuo ou uma concessão", disse a uma emissora de TV. "Elas correspondem a uma decisão vinda de nossa firme convicção quanto aos direitos de nosso povo e à nossa responsabilidade de proteger o país."
O Hezbollah, de sua parte, equipara a atual ofensiva israelense com a ocupação mantida no sul do país entre 1982 e 2000. "Rejeitamos qualquer negociação fútil com a entidade ocupante", disse o secretário-geral do movimento, o xeque Naim Qassem. "Ninguém tem o direito de levar o Líbano nessa direção sem um consenso interno entre as comunidades que compõem o país — e esse consenso não foi construído."

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