
No mesmo dia em que os Estados Unidos intensificaram a pressão sobre o regime cubano e em meio a uma crise humanitária provocada pelo bloqueio energético, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, alertou para o risco de um "banho de sangue", em caso de ataque. "As ameaças de agressão militar contra Cuba, por parte da maior potência do planeta, são conhecidas. A ameaça constitui um crime internacional. Se materializada, provocará um banho de sangue de consequências incalculáveis, além do impacto destrutivo na paz e na estabilidade regional", escreveu o chefe de Estado em seu perfil na rede social X.
Cerca de oito horas depois, o Departamento de Tesouro dos EUA sancionou várias autoridades de Havana, incluindo os ministros da Energia, da Justiça e das Comunicações; o presidente da Assembleia Nacional; comandantes do Exército Oriental e Central; e os chefes da contrainteligência militar e da Direção Geral de Inteligência. A decisão de Washington de atualizar a lista de sancionados pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros coincide com a escalada de tensão entre os EUA e Cuba.
Díaz-Canel destacou que Cuba não representa ameaça nem tem planos ou intenções agressivas contra qualquer país. Ele lembrou que a ilha caribenha tem sofrido agressões multidimensionais por parte dos EUA. "Cuba tem o direito absoluto e legítimo de se defender contra uma ofensiva bélica, um direito que não pode ser usado, lógica ou honestamente, como desculpa para impor uma guerra contra o nobre povo cubano", acrescentou o presidente. Nesta segunda-feira (18/5), o navio de bandeira panamenha Asian Katra entrou no porto de Havana com a ajuda humanitária enviada pelo governo do México. Miguel Ignacio Díaz Reynoso, embaixador mexicano em Cuba, recebeu a embarcação e anunciou que ela transportava 1.700 toneladas de suprimentos, provenientes do governo, de organizações civis de seu país e do Uruguai.
Com base em dados de inteligência, o site Axios divulgou que Cuba adquiriu mais de 300 drones militares e estuda usá-los em um ataque à base americana de Guantánamo, a navios militares dos EUA e à Flórida, localizada a 144km da ilha caribenha. Os aparelhos teriam sido comprados da China e do Irã.
Cautela
Professor aposentado de estudos internacionais da Universidade de Harvard, Jorge I. Domínguez admitiu ao Correio a possibilidade de um banho de sangue em Cuba. "Basta olharmos para o bombardeio no Irã como um exemplo, onde muitos civis morreram", afirmou. O especialista vê com cautela a notícia sobre os drones supostamente obtidos pelo regime cubano. "Pode ser uma informação falsa, para tentar justificar uma ação militar contra Cuba. Algo parecido com a fracassada justificativa do ataque ao Iraque em 2003", observou Domínguez. "No entanto, se Cuba de fato possui drones, o cálculo dos EUA não leva necessariamente uma ofensiva bélica, pois isso poderia resultar em um bombardeio a Mar-a-Lago, resort de Trump."
Para o estudioso de Harvard, as sanções a Havana eram esperadas. "Observemos bem: o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), John Ratcliffe, reuniu-se com o ministro do Interior cubano, um dos sancionados, na semana passada. As sanções não os impedem de tomar um café", ironizou Domínguez.
Por sua vez, Paolo Spadoni, professor do Departamento de Ciências Sociais da Augusta University (em Augusta, no estado americano da Geórgia), interpretou a mensagem de Díaz-Canel como "uma proclamação desesperada para tratar de prevenir o que em Havana se percebe como uma tentativa dos Estados Unidos de preparar as condições para uma intervenção militar". "A viagem de Ratcliffe a Cuba pode ter sido para anunciar um ultimato aos governantes cubanos, um aviso para que aceitem mudanças políticas e econômicas grandes, ante nenhuma outra alternativa", avaliou ao Correio.
EU ACHO...
"Não vejo como Cuba poderia enfrentar militarmente os Estados Unidos. Uma intervenção militar dos EUA na ilha poderia acontecer. Mas o problema real está na instabilidade, na violência e no êxodo migratório decorrentes de um ataque. Isso precisa ser uma preocupação muito grande para o governo Trump. A história ensina que uma mudança de regime a partir do exterior raramente costuma ser exitosa."
Paolo Spadoni,professor do Departamento de Ciências Sociais da Augusta University (em Augusta, no estado americano da Geórgia)
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