corrida presidencial

Revanche à vista nas urnas da Colômbia

Primeiro esquerdista a governar o país, Gustavo Petro emplaca o correligionário Iván Cepeda como favorito no primeiro turno da disputa pela sucessão. Pesquisas apontam para um tira-teima com a direita

Exército patrulha estrada na região do Cauca, assolada pela ressurgência da guerrilha de esquerda: surto de violência pode dar votos à oposição de direita -  (crédito: Joaquín Sarmiento/AFP)
Exército patrulha estrada na região do Cauca, assolada pela ressurgência da guerrilha de esquerda: surto de violência pode dar votos à oposição de direita - (crédito: Joaquín Sarmiento/AFP)

As últimas pesquisas de opinião sobre a eleição presidencial deste domingo (31/5), na Colômbia, apontam para uma revanche da disputa de quatro anos atrás, vencida por Gustavo Petro, ex-guerrilheiro e primeiro político de esquerda a governar o país em dois séculos de vida independente e republicana. Impedido por lei de disputar novo mandato, mas surfando em índices sólidos de aprovação Petro emplacou no topo das intenções de voto seu candidato e correligionário, o senador Iván Cepeda. Tudo indica que ele enfrentará em segundo turno, dentro de três semanas, um candidato de direita.

Cepeda, 63 anos, filho do também senador Manuel Cepeda, dirigente comunista assassinado em 1994 por esquadrões paramilitares de extrema direita, apareceu nas últimas sondagens na liderança, com 37% a 44% das preferências entre os 41 milhões de eleitores. No cenário mais favorável, poderia até ser eleito em primeiro turno. Mas no quadro mais acirrado, aparece em empate técnico com Abelardo de la Espriella, advogado milionário que se lançou na corrida pela Casa de Nariño como alguém "de fora" da política tradicional. Seu melhor desempenho ronda os 36%, e as simulações de segundo turno convergem no principal: o candidato governista aparece com vantagem nunca superior a dois pontos percentuais.

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Como possível surpresa, ou incógnita para um desempate, a terceira colocada é Paloma Valencia, apadrinhada do ex-presidente direitista Álvaro Uribe. Cotada de início para enfrentar em segundo turno o escolhido de Petro, ela perdeu terreno para De la Espriella e, a julgar pelos números mais recentes, seus eleitores terão pela frente a opção entre somar os votos ao rival ou assistir a mais quatro anos de governo da esquerda. O Pacto Histórico, coligação de centro-esquerda à qual pertencem o presidente e seu candidato, saiu das eleições legislativas de março como a principal força política do novo Congresso.

Recaída

No pano de fundo, ao longo de toda a campanha, ganhou corpo e peso um fator que coloca em risco o projeto da esquerda de emendar um segundo mandato presidencial de quatro anos: o país vive a onda de violência política mais acentuada desde o acordo de paz que resultou na desmobilização, há dez anos, das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), principal guerrilha de esquerda, atuante por meio século. Nas últimas semanas, facções dissidentes que se rebelaram contra o acordo protagonizaram uma série de atentados, em diferentes regiões, além de confrontos com grupos rivais e remanescentes da outra formação guerrilheira histórica, o Exército de Libertação Nacional (ELN).

"A escalada de violência tende a deslocar parte do eleitorado para candidaturas que prometem ordem, controle territorial e endurecimento contra grupos armados, algo que já vimos aqui no Brasil", disse ao Correio o professor de relações internacionais Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM. "A política de 'paz total' de Petro abriu caminhos, mas entregou resultados limitados e foi alvo de duras críticas e uma quase intervenção norte-americana. O saldo é ambíguo", analisa. "Em regiões afetadas por deslocamentos, extorsões, recrutamento forçado e ataques, a percepção de insegurança pode pesar mais do que temas econômicos ou sociais."

Diego Vera, titular da mesma cadeira na Pontifícia Universidade Javeriana, de Bogotá, reforça o diagnóstico. "Nos quatro anos de governo de Petro, em comparação com a gestão anterior, aumentaram as áreas de cultivo de coca, os sequestros e extorsões, os atos de terrorismo", enumerou, em entrevista à reportagem. "O mais dramático é a expansão dos grupos armados ilegais", completa o estudioso colombiano. "Hoje, sua presença é detectada em mais de 340 municípios, e os efetivos poderiam somar mais de 27 mil, entre combatentes e redes civis de apoio, segundo investigações como a da Fundação Ideias para a Paz."

Roberto Uebel vê implicações imediatas do resultado final para a vizinhança sul-americana, que experimenta há alguns anos a contramaré dos avanços colecionados pela esquerda desde a virada do século. "Para o Brasil, uma vitória do candidato apoiado por Petro preservaria maior convergência política com Lula em temas como integração sul-americana, paz, meio ambiente, Amazônia e crítica à militarização da segurança regional", observa. "Uma vitória da direita mudaria o eixo colombiano, aproximando Bogotá de agendas mais alinhadas a Washington, com Trump 2.0, e ao campo conservador". Nesse contexto, "Lula ficaria como uma voz ainda mais solitária na América Latina".

 

Três perguntas para 

Diego Vera, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá

Qual é o significado político da eleição de hoje para a Colômbia, passada uma década dos acordos de paz com as Farc?
A polarização se acentuou na última década, não apenas pelas posturas confrontadas em torno dos acordos de paz de 2016-2018. O segundo turno de 2022 expôs a desafeição de milhões de cidadãos com os partidos políticos e as elites tradicionais, e abriu caminho para um populismo de esquerda como contraponto ao de direita. Ficaram mais difíceis o consenso "por cima" e o diálogo entre setores da sociedade com interesses próprios em conflito. A convulsão social de 2019-2021, acentuada pela pandemia e mal gerida pelo então presidente, Iván Duque, reabriu feridas em um país historicamente fraturado, e elas foram exacerbadas pelos extremos ideológicos.

Em que medida a recente escalada de violência, que envolve remanescentes das guerrilhas, pode influenciar os eleitores ainda indecisos?
A deterioração da segurança pública deve ter impacto eleitoral, mas pode não ser suficiente para frear o continuísmo do projeto populista progressista. Gustavo Petro e seu candidato, Iván Cepeda, compartilham o fracasso do projeto de Paz Total. Usaram o falso dilema entre segurança humana e segurança nacional, que são interdependentes, e buscaram desmilitarizar, prematuramente, os territórios sob controle de grupos armados ilegais ou disputados entre eles. Debilitaram a capacidade operacional das Forças Armadas, politizaram o sistema de inteligência, suspenderam ordens de captura e extradição dos líderes de facções criminosas e acabaram dando fôlego a elas.

Qual seria um caminho eficaz para neutralizar o crime organizado?
É difícil neutralizar um fenômeno tão complexo e multidimensional. Nenhuma solução simples funcionará: nem a militarização do combate aos cultivos ilegais, nem a alternativa da legalização pura e simples do consumo. A "guerra às drogas" levou ao extremo a o aspecto de segurança, com efeitos residuais para os Estados frágeis e os cidadãos desarmados. O "efeito hidra", com a substituição fácil de líderes mortos ou capturados, e o "efeito global", com a dispersão e relocalização das estruturas, mostram os limites desse enfoque. (Silvio Queiroz)

 

 

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postado em 31/05/2026 05:00
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