Igreja católica

Novo documento do Vaticano fala de inclusão e critica 'cura gay'

Relatório conta com depoimentos de pessoas LGBTQIA+ que encontraram acolhimento na igreja, após anos de exclusão

O Vaticano divulgou, na terça-feira (5/5), um documento oficial em que critica abertamente práticas conhecidas como terapia da conversão, a “cura gay”, e reconhece o papel da igreja católica nas dificuldades enfrentadas pela comunidade LGBTQIA +. Produzido por um grupo de trabalho do Sínodo dos Bispos, o relatório "Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas emergentes” foi feito a partir do depoimento de fiéis.

"Desejamos destacar o seguinte: a solidão, a angústia e o estigma que acompanham as pessoas com atração pelo mesmo sexo e suas famílias, não apenas na sociedade, mas também dentro da Igreja; isso muitas vezes está ligado à tentação de se esconder em uma 'vida dupla'", diz o documento.

Relatos inéditos

Essa é a primeira vez que um documento do Vaticano trata diretamente da orientação sexual de fiéis a partir de depoimentos e que reconhece os erros cometidos pela própria igreja em relação ao tema.

Em um dos depoimentos, um fiel não identificado descreve o processo de aceitação como um homem homossexual e católico. Ele afirma que não vê a própria sexualidade como uma “perversão, um distúrbio ou um fato”, mas sim “um presente de Deus”. 

"Ser gay me torna mais empático, atencioso, apaixonado por justiça e criativo. Claro, também tenho meus defeitos, inseguranças e pecados, mas estes não têm relação com minha orientação sexual", relata. 

O homem também lembra casos de homofobia e transfobia no meio religioso e critica a postura da igreja de "reduzir as pessoas transgênero e suas experiências a uma 'ideologia'".

Terapias de conversão

O relatório aponta que ainda há avanços a serem feitos pela igreja em relação à diálogos sobre diversidade e práticas pastorais que busquem o acolhimento à comunidade LGBTQIA +. 

Um segundo fiel relata o convívio com o marido enquanto católico. "Minha sexualidade não define minha vida, mas é parte intrínseca de mim; sem reconhecê-la, não posso ser completo", salienta.

Ele também descreve que já foi aconselhado a se casar com uma mulher, como forma de negação da própria sexualidade. "Senti-me ofendido: era uma sugestão para prejudicar uma mulher, roubando-lhe a chance de ser completamente amada e desejada, tudo para cumprir uma expectativa social", declara.

O homem afirma que reconhecer que o “verdadeiro pecado” era a “falta de confiança no desejo de Cristo de uma vida plena” para ele foi decisivo em sua experiência.  "Jesus nos quer íntegros, não quebrados ou escondidos", aponta.

Novos paradigmas

O documento causou preocupação em setores mais conservadores do catolicismo, que temem possíveis questionamentos em relação à doutrina. Já os setores progressistas da igreja, comemoraram. 

Nos últimos anos, desde o papa Francisco, o Vaticano tem apresentado mudanças no discurso para com os fiéis LGBTQIA +. Em 2025, um  documento oficial da Conferência Episcopal Italiana orientou seminários a permitirem a ordenação de homens gays como padres, desde que sejam celibatários. 

Já em 2023, o Vaticano também permitiu que padres abençoem casais do mesmo sexo e pessoas no segundo casamento. O papa Leão XIV acenou positivamente para as políticas de inclusão iniciadas pelo pontífice anterior.

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