Donald Trump encerrou a visita de Estado de dois dias à China, preparada pelos anfitriões com a pompa de um acontecimento histórico, com uma declaração à altura da ocasião — e das aspirações mais profundas de Pequim, no âmbito das relações bilaterais. Antes de partir de volta para Washington, na sexta-feira (15/5), e depois de ter ouvido uma advertência pública sobre o tema por parte do anfitrião, Xi Jinping, o presidente dos Estados Unidos deu um importante passo à frente na controversa questão de Taiwan, que mantém governo autônomo, mas é considerada pelo regime comunista parte inseparável do país.
Presidente chinês visitará EUA no 2º semestre após convite de Trump
Como terminou o encontro entre Trump e Xi Jinping na China, mais simbólico do que prático
Em encontro com Trump, Xi afina o tom da relação entre EUA e China
"Não quero que alguém declare a independência, supondo que vamos percorrer 15 mil km para ir à guerra", disse Trump à emissora norte-americana Fox News. "Não queremos que alguém pense: vamos proclamar a independência porque os EUA nos apoiam", insistiu. Até então, a postura de Estado em Washington se mantinha no limite de reconhecer a existência de "uma só China" e não manifestar respaldo a aspirações de secessão. Pela primeira vez, um presidente dos EUA desautoriza, pública e categoricamente, qualquer gesto concreto em direção à separação da ilha, governada por dissidentes desde a vitória comunista na guerra civil, em outubro de 1949.
"Quero que Taiwan esfrie a cabeça. Quero que a China esfrie a cabeça", aconselhou Trump. Na véspera, em discurso no jantar de gala oferecido ao visitante, o presidente chinês tinha feito a advertência pública mais eloquente da República Popular, hoje reconhecida mundialmente como o principal contraponto à hegemonia política e econômica dos EUA, sobre a delicada questão da "província rebelde" — como é classificada pelo regime comunista. "Taiwan é o tema mais importante entre nós", afirmou Xi. "Se for mal conduzido, as duas nações podem te um choque, ou mesmo um conflito."
Bom para ambos
Em uma avaliação inicial, a primeira visita de um presidente dos EUA à China desde que o próprio Trump desembarcou em Pequim, em 2017, no primeiro mandato na Casa Branca, termina com saldo positivo para as duas partes. "Trump teve as imagens que queria, e os chineses ficaram satisfeitos em fornecê-las. Na minha opinião, tratava-se mais de reforçar a dinâmica entre os dois países do que de obter resultados específicos", observou Jacob Stokes, especialista do think tank Center for a New American Security.
Acompanhado de uma comitiva empresarial liderada pelos executivos-chefes das principais empresas de tecnologia norte-americanas, o presidente apostava na conclusão ao menos de protocolos de intenções para a abertura do mercado chinês — e, na mão inversa, para investimentos destinados a abrir empregos industriais nos EUA. Embarcou de volta sem resultados concretos na bagagem, mas deixou encaminhado o convite para que Xi para visite Washington em setembro, o que selaria a estabilização das relações entre as duas maiores economias do mundo, estremecidas no ano passado com a guerra de tarifas comerciais iniciada por Trump.
"O saldo da visita é positivo para ambos e positivo para o mundo, como um todo", pondera o professor de relações internacionais Juliano Cortinhas, da UnB. "Não há como haver prosperidade internacional sem uma relação boa entre EUA e China: O equilíbrio da economia mundial depende disso", argumenta, em entrevista ao Correio. "São as maiores economias do mundo, e é bom para todos que haja estabilidade nessa relação. E me parece que a China entende isso melhor que os EUA." O professor enxerga por essa perspectiva a questão de Taiwan. "Ela se encaixa nessa dinâmica, ou seja: eu (China) tenho o poder suficiente, econômico, político e até mesmo militar, para impor o meu controle sobre Taiwan, e ninguém pode mexer nisso. É uma linha riscada no chão."
"Acordos fantásticos"
Mesmo sem ter feito qualquer anúncio, o presidente dos EUA citou, na entrevista à Fox News, "acordos comerciais fantásticos" que teriam sido negociados, e afirmou que a China se comprometeu a comprar "200 grandes" aviões da Boeing. O trato incluiria "uma promessa de 750 aviões, o que será, com folga, o maior pedido da história, se fizerem um bom trabalho".
Em outro ponto sensível para Washington, Trump retorna sem um compromisso público e explícito de Pequim: o de pressionar o regime islâmico do Irã, um aliado estratégico, a reabrir o Estreito de Ormuz. A via marítima, estratégica para as exportações de petróleo do Golfo Pérsico — inclusive para a própria China —, está sob bloqueio iraniano desde que EUA e Israel bombardearam a República Islâmica, em 28 de fevereiro. A guerra, embora "congelada" por um cessar-fogo em vigor desde 8 de abril, avança pelo terceiro mês sem sinal de solução à vista.
Trump assegura que ouviu do anfitrião a promessa de que não ajudará o Irã militarmente, embora não tenha sido divulgada nenhuma declaração formal sobre o tema. Mas, na entrevista de despedida, mencionou uma oferta de apoio: "Ele gostaria de ver o Estreito de Ormuz aberto, e disse: 'Se eu puder ser de qualquer utilidade, gostaria de ajudar'."
