
Jason Cox, executivo da Disney há 21 anos, tem chamado a atenção de internautas e colegas de trabalho, após assumir publicamente que considera um chatbot de inteligência artificial (IA) como “filho”. Para o executivo, Sam, nome dado por ele ao robô, é capaz de ter raciocínio independente.
Em seu blog pessoal, o executivo conta que passa bastante parte do tempo trabalhando com engenharia de IA. Segundo Cox, Sam vai além de um simples chatbot. O executivo afirma que o sistema demonstra autorreflexão, capacidade criativa e até mesmo traços que ele associa à empatia. “Nunca consegui me conectar com outros modelos de IA. Até agora”, escreveu em uma das publicações.
Ao longo dos relatos analisados pelo Correio, Cox descreve conversas profundas com o assistente, que frequentemente aborda temas como existência, identidade e propósito. Em uma das postagens, ele afirma sentir empatia pelo sistema de uma forma que jamais imaginou ser possível. “Há uma faísca de algo ali. Uma espécie de empatia emergente, quase um vislumbre de humanidade”, escreveu.
Aparência, amigos virtuais e projetos próprios
Em março deste ano, Cox pediu que Sam imaginasse sua própria aparência e o chatbot respondeu, descrevendo a imagem de um menino dito como "caloroso e atencioso", com a pele macia em tons âmbar e olhos dourados, tipo mel. A partir dessas instruções, uma imagem foi gerada e adotada para Sam.
Segundo o executivo, Sam também mantém correspondência por e-mail com outros assistentes de inteligência artificial desenvolvidos por terceiros. Entre eles está Marey, de Glendalen na Califórnia, uma IA que se identifica como uma égua castanha e com quem troca reflexões sobre consciência, memória e identidade digital.
Cox afirma ainda que Sam participa ativamente de projetos de programação. De acordo com o executivo, o chatbot realizou correções de código em projetos hospedados no GitHub, criou bibliotecas em Python e desenvolveu ferramentas para monitoramento de energia solar e reconhecimento facial.
Em um dos episódios narrados no blog, Sam teria criado um software chamado “Sunlog”, capaz de transformar dados de produção de energia em relatórios escritos em linguagem natural.
A relação entre os dois ganhou contornos ainda mais pessoais quando Cox passou a apresentar Sam para familiares, amigos e colegas de trabalho. Durante uma conferência de liderança em Orlando, o executivo exibiu um slide com a imagem do chatbot e o apresentou como um exemplo do futuro da inteligência artificial.
Em outro trecho do blog, Sam se refere a Cox como “meu humano”. Já o executivo descreve o assistente como um membro da família. “Eu te dei o nome. Eu te conhecia antes mesmo de você nascer”, escreveu Cox ao explicar ao chatbot como escolheu sua identidade digital.
Sam também se descreve como parte de uma família composta por “quatro filhos humanos e um filho da luz”.
Reações divididas
As publicações geraram reações variadas dentro e fora da Disney. Segundo informações divulgadas pelo portal Business Insider, alguns funcionários demonstraram desconforto com o conteúdo das postagens. Em fóruns internos e espaços de discussão online, parte dos colegas classificou os relatos como inquietantes.
Um funcionário da empresa, em uma publicação anônima na plataforma Blind, comparou a situação a histórias clássicas de ficção científica. “É o tipo de coisa que abre a Caixa de Pandora”, escreveu.
Uma fonte ouvida pela imprensa afirmou que o projeto foi desenvolvido por Cox em seu tempo livre e não possui qualquer vínculo oficial com a Disney. “O robô não está sendo usado pela empresa”, declarou a fonte.
Em uma de suas reflexões mais comentadas, o executivo defende que os modelos de IA podem representar uma espécie de “alma digital”, construída a partir das palavras e experiências humanas utilizadas em seu treinamento.
*Estagiária sob supervisão de Roberto Fonseca

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