
O alerta partiu de uma aliança de segurança do continente americano conhecido como "Escudo das Américas". Por meio de um comunicado conjunto, os EUA e outros 12 países — Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana e Trinidad e Tobago — denunciaram "esforços para derrubar o governo" do boliviano Rodrigo Paz.
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"Apoiamos o governo democrático de Rodrigo Paz em sua luta contra as tentativas de fazer a Bolívia retroceder", afirma o grupo criado em 13 de março pelo americano Donald Trump. "Aqueles que estão financiando esses protestos com dinheiro sujo proveniente do narcotráfico e do crime transnacional devem ser responsabilizados. (...) A lei da multidão não pode substituir a decisão que a maioria dos bolivianos tomou nas urnas de virar a página", advertem os signatários.
A Bolívia enfrenta uma convulsão social envolvendo camponeses, operários, mineradores, transportadores e professores que exigem a renúncia imediata de Rodrigo Paz, a quem culpam pela pior crise econômica em quatro décadas. Ante a expectativa da decretação do estado de exceção ainda hoje, o presidente de centro-direita responsabiliza o antecessor Evo Morales, líder cocaleiro e dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS), pelos distúrbios.
Nesta sexta-feira (5/6), Paz pediu às organizações envolvidas em bloqueios de rodovias de várias regiões da Bolívia para que não permitam ser utilizados por Morales. "Não permitam que a Constituição e a democracia sejam usadas ou violadas para que um homem (Evo Morales) e seu círculo de poder escapem da Justiça", afirmou. "Como governo, estamos absolutamente abertos ao diálogo para avançarmos, mas não para defender as causas de um homem que precisa ser julgado e que quer usar o povo boliviano como trampolim", acrescentou.
O presidente também classificou a eventual suspensão das garantias fundamentais de direitos como uma medida constitucional. "O Senado criou uma marco legal para as Forças Armadas. Esse marco legal tem que ser debatido pela Câmara dos Deputados. O estado de exceção é uma ação permitida pela Constituição", declarou Paz, segundo o jornal El Deber.
Sem evidências
Especialista em comunicação política e morador de La Paz, Manuel Mercado lembrou ao Correio que as mobilizações populares ocorridas no país nas décadas de 1980 e 1990 foram criticadas pelo Estado e por atores transnacionais pelo suposto financiamento do narcotráfico. Ele ressaltou, no entanto, que essa ligação jamais foi comprovada e vê uma tentativa de desprestigiar esses protestos. "Os bloqueios têm sido feitos, principalmente, por pessoas que vivem perto das rodovias. São moradores das regiões de El Alto e de La Paz. Eles têm formas de manter os bloqueios sem suporte logístico ou econômico", disse Mercado.
Ainda de acordo com Mercado, as negociações entre os atores envolvidos nos protestos e o Executivo seguem abertas. "Neste momento, a cidade de El Alto e setores mobilizados mantêm a demanda de renúncia de Rodrigo Paz. Isso pode levar a uma situação extrema em que o presidente lance mão de um estado de exceção, mas em um modelo totalmente diferente do que tivemos na história da Bolívia", observou. "O estado de exceção tem resultado na morte de mobilizados e na queda de governos."
Diego Ayo — pós-doutor em governo e políticas públicas e professor da Universidad Mayor de San Andrés (em La Paz) — interpreta a crise na Bolívia como "uma luta entre pobres indígenas e crioulos brancos". "A realidade étnica está posta, mas existe uma realidade econômica. Há cidadãos de El Alto que são artesãos, comerciantes e fretistas, mas também aimarás que não apoiam as mobilizações. A contradição é diversa. Desde 1985, surgiram burguesias andinas aimarás e quíchuas poderosas, associadas ao ouro e à mineração ilegal, ao cultivo da marijuana e da folha de coca", disse ao Correio.
Ele acrescentou que, ao longo de duas décadas, o Estado aproveitou os vazios territoriais que não existiam. O especialista não descarta a declaração do estado de exceção. "Há dois cenários possíveis: um bloqueio total que force a renúncia de Paz ou um acordo."
EU ACHO...
"Rodrigo Paz conseguiu algo que nenhum presidente fez em 25 anos: não atuar com o estado de sítio. Este foi um instrumento maravilhoso para a ascensão de Evo Morales ao poder. Morales não chegou ao poder por coerência ideológica, mas pelos mortos criados desde os anos 2000. Ele organizou protestos contra os presidentes Hugo Banzer e Tuto Quiroga. Em 2003, exigiu a renúncia de Carlos Mesa. Todos os movimentos sociais sumiram de 2006 a 2019 e voltaram com Jeanine Áñez e Luis Arce. Decretar um estado de exceção seria uma imensa torpeza."
Diego Ayo, pós-doutor em governo e políticas públicas
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