
O escritor peruano Mario Vargas Llosa (1936-2025), laureado com o Nobel de Literatura em 2010, disse certa vez que "a política faz aflorar o pior dos seres humanos". Neste domingo (7/6), 27,1 milhões de eleitores (1,1 milhão no exterior) vão às urnas com a esperança de que o filho mais ilustre do Peru estava errado. O segundo turno das eleições presidenciais será uma disputa de extremos. De um lado, a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori e herdeira de um dos clãs mais poderosos do Peru. De outro, Roberto Sánchez, 57 anos, candidato da esquerda radical e representante dos pobres e dos camponeses.
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O cenário: uma das democracias mais frágeis da América Latina — ao longo da última década, o Peru foi comandado por oito presidentes. O candidato vitorioso hoje terá uma missão pela frente: sobreviver a um Congresso que tem o histórico de derrubar chefes de Estado.
No encerramento da campanha, na última quinta-feira (4/6), Keiko Fujimori, 51 anos, pediu o voto dos peruanos "para evitar o caos e o retrocesso. "Queremos um governo que nos traga paz, que restaure a ordem! Queremos um governo de confiança... Não vou decepcioná-los", prometeu a administradora de empresas, que tenta chegar à Casa de Pizarro, sede do Executivo, pela quarta vez consecutiva.
Com o tradicional chapéu de camponês — presente do ex-presidente Pedro Castillo, preso por tentar um autogolpe de Estado —, Sánchez não poupou ataques à adversária. "Abaixo a 'mulher da máfia', abaixo o fujimorismo!", gritou do alto do palanque. Se perder as eleições, o esquerdista poderá ficar em apuros perante a Justiça, que decidiu enviá-lo a julgamento por suposta declaração falsa de financiamento de seu partido há cerca de seis anos. Se vencer, gozará de imunidade prevista pela Constituição.
Professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima), Eduardo Dargent afirmou ao Correio que Roberto Sánchez fez movimentos mais consistentes para conquistar indecisos, nas últimas semanas. "Keiko Fujimori tem se focado na ideia de que o país está mais propenso à direita, ante a necessidade de combater o crime ou a instabilidade econômica supostamente projetada pelo adversário. Creio que o reforço de certos medos que envolvem o fujimorismo — não somente no passado, mas também na influência sobre o Congresso — e a atuação ruim de Keiko nos debates tornam a disputa aberta", observou.
Dargent reconhece, no entanto, que a filha de Alberto Fujimori conta com uma base de 10% do eleitorado, algo significativo para o país. "Os temas apresentados durante a campanha estão bem adequados ao fujimorismo, principalmente a segurança e a polarização no Peru e na América Latina. No entanto, Keiko se parece mais com os típicos candidatos pró-Estados Unidos, o que soou mal para ela, pois nunca conseguiu sair dos setores de Lima", avaliou. O estudioso admite que o antifujimorismo reveste-se de uma roupagem do passado. "Muitos dos peruanos mais jovens conhecem o novo fujimorismo, mas não têm recordações da transição, dos anos 1990 ou de Alberto Fujimori. Keiko teve uma melhor campanha no primeiro turno, ao abordar a desordem e a criminalidade."
Instabilidade
Segundo Dargent, o Peru tem se acostumado a derrubar presidentes e normalizar essa tendência. Ele admite que o fenômeno provoca grande instabilidade no Poder Executivo. "Desta vez, vejo que Keiko tem mais condições de experimentar estabilidade no cargo, com capacidade de armar vetos no Congresso e evitar a chamada vacância. Nesse sentido, Sánchez mostra-se mais vulnerável. Fujimori teria uma maior tranquilidade para governar", prevê. Além da falta de estabilidade de presidentes no cargo, o Peru enfrenta rotatividade de ministros e subordinação de um enfraquecido Tribunal Constitucional ao Congresso. Ainda de acordo com Dargent, a próxima liderança eleita terá os desafios de controlar a tendência de "predação" do Legislativo, recuperar a confiança dos cidadãos e fazer uma aliança com os congressistas para conquistar estabilidade.
Colega de Dargent na universidade, a cientista política Paula Távara Pineda disse ao Correio que as últimas pesquisas apontam uma leve vantagem para Roberto Sánchez. Ela lembrou que os grupos empresariais promoveram a candidatura de Keiko, mas o candidato da esquerda performou melhor, com a formação de alianças e a demonstração de uma maior capacidade de convocar a população. "Roberto Sánchez foi bem-sucedido em ativar um movimento muito forte no Peru, o antifujimorismo", destacou Pineda.
A analista crê em maior estabilidade política nos próximos anos. "Isso porque cada um dos candidatos tem apoio suficiente para evitar uma vacância presidencial imediata. Por aqui, tudo muda rapidamente", disse Pineda. Ela não descarta uma noite de domingo turbulenta. "A pergunta é se não irão denunciar fraude, caso o resultado seja desfavorável para Fujimori e como isso pode impactar no ânimo do cidadão e no debate legislativo. Pineda explicou que o novo ocupante da Casa de Pizarro precisará lidar com a crise de insegurança e firmar acordos com o Congresso que lhes permitam gerir as políticas públicas e afastar uma ameaça permanente sobre o Executivo.
EU ACHO...
"Se Keiko Fujimori tivesse desempenhado uma melhor campanha para o segundo turno, provavelmente, ganharia. Acho que o resultado das eleições de hoje será apertado. Se ela tivesse feito uma campanha capaz de provar que poderia limitar suas piores tendências, ela teria mais sorte. É possúvel que Roberto Sánchez vença hoje."
Eduardo Dargent, professor de ciência política da Pontifícia Universidad Católica del Perú (em Lima)
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