
Foi na "catequese eloquente feita de pedras, cores e luz" — como ele próprio nomeou a Basílica da Sagrada Família, em Barcelona — que o papa Leão XIV rendeu homenagem à obra maior do arquiteto modernista Antoni Gaudí (1852-1926). Depois de celebrar uma missa e visitar a cripta de Gaudí, no centenário da morte do catalão, o líder da Igreja Católica abençoou a Torre de Jesus Cristo, encerrando 144 anos de construção de um dos maiores monumentos religiosos do planeta.
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"Esta igreja é um edifício único, constituído por muitas pedras. Uma casa que cresce continuamente ao longo dos anos, seguindo um mesmo projeto. Todos nós somos as pedras vivas desta obra, que tem Cristo como fundamento e ápice, princípio e fim. Muito mais do que um monumento, a Basílica da Sagrada Família continua a ser hoje uma obra em construção, que nos lembra como a vida cristã é sempre um caminho, porque se trata de um projeto que é levado a cabo por Deus", afirmou Leão XIV.
Segundo ele, na condição de "arquiteto ardente de fé", o "venerável" Antoni Gaudí "concebeu estes espaços com o desejo de narrar os mistérios da vida do Senhor". "Com Gaudí, de quem recordamos o centenário da morte, lembramos e agradecemos a todos os promotores e benfeitores, os artistas e trabalhadores que cooperam na construção de uma obra prima da arquitetura, que é também uma catequese eloquente feita de pedras, cores e luz", destacou Leão XIV.
Durante a homilia pronunciada na basílica, onde o sol filtrado pelos vitrais brilhava entre as colunas, o pontífice também fez um alerta em favor da paz mundial. "Não podemos acreditar em Jesus e promover a guerra. Não podemos acreditar em Jesus e matar o inocente. Não podemos crer em Jesus e abandonar quem sofre, quem chora, quem foge da miséria", disse. Uma crítica velada ao presidente Donald Trump, que voltaria a atacar o Irã poucas horas depois.
Também na homilia, Robert Prevost — nome de batismo de Leão XIV — fez uma alusão à cruz da Torre de Jesus Cristo. "Esta cruz brilha de dia, refletindo a luz do sol, e brilha de noite, iluminando a cidade como um farol aberto ao Mediterrâneo", afirmou. Dentro da Basílica da Sagrada Família e em sua esplanada, cerca de 9 mil espanhóis e turistas participaram da missa e assistiram ao papa aspergir água benta em direção à Torre de Jesus Cristo, concluída em fevereiro e que alcança os 172,5m de altura.
Com a obra finalizada, a Sagrada Família, ainda inacabada, tornou-se a igreja mais alta do mundo. Depois da bênção à Torre de Jesus Cristo, fogos de artifício transformaram o céu ao redor da basílica em uma profusão de luzes e cores. O espetáculo pirotécnico foi seguido por outro show à parte: drones formaram o rosto de Gaudí ao lado de sua obra prima.
Detentos
"Foi algo memorável", disse à agência France-Presse (AFP) Isabel Magallón, administradora de 60 anos. "Queria estar no ato. Duvidei pela massificação e por tudo, mas estou contente", acrescentou. "Por toda a nossa vida, a Sagrada Família esteve em construção e o fato de agora (o papa) vir é como pôr um ponto final", comentou María José Sedano, uma advogada de 30 anos. Pela manhã, Leão XIV visitou a prisão de Brians, a 40km de Barcelona, onde disse aos detentos que "o passado não condena o futuro". O líder católico recebeu presentes e foi abraçado por um dos presos. Mais tarde, chegou de helicóptero à espetacular Abadia de Montserrat, na montanha de mesmo nome.
Para encerrar a viagem à Espanha, o papa visitará as Ilhas Canárias, nesta quinta-feira. Neste arquipélago no Atlântico, situado em frente à África, via de entrada na Europa para migrantes irregulares, o pontífice insistirá em outra mensagem: a acolhida aos imigrantes.
Renzo, o menino de 6 anos que emocionou o papa
Frente a frente, o líder de 1,4 bilhão de católicos e um menino. A inocência da criança e a profundidade das perguntas dirigidas a Leão XIV emocionaram o papa. Por vezes, o semblante de Robert Prevost deixou estampar a surpresa diante das questões que exigiam respostas complexas, e os olhos do pontífice ficaram marejados. Morador de Barcelona, o argentino Renzo Pons Mendoza, de seis anos, escreveu uma carta para Leão XIV e teve a oportunidade de ler a mensagem, durante visita de Prevost à Igreja de Santo Agostinho.
"Você gosta de futebol? Queria ser papa desde pequeno? Por que papai e mamãe estão preocupados? Por que meu papai tem tantos trabalhos? Por que há pessoas que enfrentam coisas ruins e outras não? De quem é a culpa? Por que tantas pessoas vivem nas ruas? Ninguém as vê? Ninguém as ajuda? Como podemos ajudar, se o mundo é tão grande? Deus quer que haja pobres e ricos? Por que há tantos avós sozinhos se são tão importantes? É preciso perdoar sempre?", questiona a criança na carta, encerrada com "Um forte abraço, Renzo".
À segunda pergunta, Leão XIV deixou escapar uma confissão, que viralizou nos sites de notícias e nas redes sociais. Ele revelou que jamais sonhou em ser papa. "Nem quando jovem, nem quando velho, nunca pensei. Mas, se o Senhor o chama, deve dizer que 'sim'", explicou. E acrescentou: "Certo, nunca pensei em ser papa, mas em entregar minha vida a Deus". Leão XIV respondeu à dúvida sobre os avós com a lembrança de que são eles que cuidam dos netos quando os pais estão no trabalho. "Com ajuda e com dedicação, auxiliam as crianças a conhecerem o amor a Deus e ao próximo", declarou. E fez um pedido: "Tenhamos nossa coração aberto a todos eles; e ainda que não sejam nossos avós, não permitamos que sintam-se sozinhos nem desprotegidos. Se não queremos a solidão para nós, tampouco devemos permiti-la para os outros".
Fã incondicional do atacante argentino Lionel Messi, Renzo escutou do papa sobre o futebol, à véspera do início da Copa do Mundo. "Com os seminaristas, quando estive em Trujillo (Peru), jogava futebol. Na defesa, se quiser saber; não era um grande artilheiro", brincou Leão XIV. Como o Peru não foi classificado para o Mundial, Prevost confidenciou que torcerá para os Estados Unidos. "O futebol também nos ajuda a lembrar algo muito importante: que a vida não é uma corrida para ser vivida de forma solitária. É algo que se joga em equipe, e é preciso aprender a correr juntos", concluiu.

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