Entrevista exclusiva / Major Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF)

"Irã é ameaça existencial" afirma porta-voz das IDF ao Correio

Porta-voz das Forças de Defesa de Israel em língua portuguesa, o major Rafael Rozenszajn nasceu no Rio, jogou pelo Flamengo e veio ao Brasil para apresentar a perspectiva israelense sobre os conflitos no Oriente Médio

Major Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) -  (crédito: Arquivo pessoal )
Major Rafael Rozenszajn, porta-voz das Forças de Defesa de Israel (IDF) - (crédito: Arquivo pessoal )

Ele nasceu no Rio de Janeiro, jogou vôlei pelo Fluminense e futebol pelo Flamengo e mudou-se para Israel mais de duas décadas atrás. Advogado especialista em direito internacional, mestre em direito público pela Northwestern University (em Chicago), o major da reserva Rafael Rozenszajn, 43 anos, é o primeiro porta-voz oficial das Forças de Defesa de Israel (IDF) em língua portuguesa e oficial da reserva. Autor de A guerra das narrativas  (Editoral Citadel); fluente em português, hebraico e inglês, Rozenszajn retornou ao Brasil com uma missão específica: apresentar à sociedade brasileira a perspectiva israelense sobre os conflitos em curso — "com rigor, transparência e respeito ao nível do debate que o público brasileiro merece", explicou. "O Brasil é um dos países mais importantes do mundo para nós, não apenas pelo peso demográfico e pela presença expressiva da comunidade judaica, mas pela centralidade que ocupa no debate público global", afirmou. O major brasileiro das IDF falou ao Correio sobre a guerra contra o Irã e o movimento fundamentalista xiita libanês Hezbollah, a insegurança no norte de Israel e o perigo de um levante civil no Líbano. 

O Irã representa que tipo de ameaça para Israel?

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O Irã representa uma ameaça existencial, multidimensional e exportável. Não é apenas a questão nuclear, embora ela seja a mais grave em termos de potencial de escalada. O regime iraniano financia, arma e treina organizações terroristas em múltiplas frentes — o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano, milícias no Iraque e na Síria. Além disso, o regime mantém milhares de misseis balísticos direcionados a Israel. Essa arquitetura foi construída ao longo de décadas com um objetivo declarado: a eliminação do Estado de Israel. A Operação Rugido do Leão representou um avanço operacional histórico, neutralizando capacidades militares e infraestrutura do Corpo da Guarda da Revolução Islâmica (CGRI) de forma sem precedentes. Mas somos realistas: o problema iraniano não se resolve em uma única operação. O que muda é a equação estratégica. O Irã sabe agora que Israel tem capacidade e determinação para agir além de suas fronteiras imediatas. As Forças de Defesa de Israel (IDF) permanecem em estreita coordenação com seus contrapartes americanos diante da ameaça comum representada pelo regime iraniano. Isso altera os cálculos de forma permanente.

E como Israel deve atuar para que o Irã desista do programa nuclear e deixe de ser essa ameaça?

Infelizmente, não posso entrar em detalhes sobre os próximos passos militares de Israel para alcançar os objetivos necessários para cancelar essa ameaça existencial futuro de Israel.

Em relação à operação no Líbano, qual é a receita para reduzir a sensação de insegurança de moradores do norte de Israel e da Alta Galileia?

Essa pergunta me toca de maneira muito pessoal, porque estamos falando de comunidades reais, de famílias que há mais de um ano vivem entre sirenes e abrigos. Desde março deste ano, o Hezbollah disparou mais de 8.700 projéteis ao longo da fronteira Israel-Líbano. Desde outubro de 2023, foram mais de 14 mil projéteis lançados contra o território israelense. Isso não é uma abstração; é o cotidiano de centenas de milhares de israelenses. A resposta de curto prazo é operacional: as IDF mantêm presença na Área de Defesa Avançada precisamente para proteger essas comunidades, e temos investido de forma intensa no enfrentamento à ameaça dos drones explosivos, incluindo a criação de um comando específico no Norte e equipes de inteligência dedicadas a revisar tecnologia e estratégia do inimigo. Mas a resposta estrutural é mais ampla: o Hezbollah precisa ser desarmado ao sul do Rio Litani, conforme exige a comunidade internacional de forma unânime. Enquanto a organização mantiver infraestrutura, operativos e armamentos nessa região, nenhuma solução será duradoura. A segurança no norte de Israel é, em última análise, uma questão de implementação do direito internacional — e de vontade política da comunidade das nações.

De que forma vê o risco de uma nova guerra civil no Líbano?

Há sinais de que parte da população libanesa passou a enxergar o Hezbollah não apenas como uma ameaça para Israel, mas também como um fator de instabilidade para o próprio Líbano. Esse entendimento tem sido observado em diferentes setores da sociedade e em manifestações de autoridades libanesas que defendem o fortalecimento do Estado e a redução da influência de grupos armados no país. Existe um interesse crescente dentro do Líbano em enfraquecer e desmantelar a estrutura militar do Hezbollah. Como exemplo recente, soldados que atuam no sul do Líbano encontraram, na semana passada, uma mensagem deixada por um morador cristão de uma aldeia da região agradecendo às tropas israelenses pelas ações contra a organização. Episódios como esse refletem a percepção de parte da população de que a presença e as atividades do Hezbollah representam riscos não apenas para Israel, mas também para a segurança, a estabilidade política e o desenvolvimento do próprio Líbano.

Como avalia o antissemitismo no Brasil e no mundo?

O antissemitismo contemporâneo é sofisticado o suficiente para, muitas vezes, não se apresentar como tal. Ele se disfarça de crítica política, de solidariedade a causas legítimas, de linguagem dos direitos humanos. Há uma diferença fundamental entre criticar Israel — o que é legítimo e necessário, como em qualquer democracia — e transformar Israel no repositório de todos os males do mundo, negando-lhe o direito à existência que se concede a qualquer outro Estado. Quando essa linha é cruzada, estamos diante de algo que transcende a crítica política. No Brasil, observamos um crescimento preocupante de episódios de intolerância, especialmente nas redes sociais, frequentemente alimentados por narrativas importadas sem verificação factual. É importante dizer com clareza: o antissemitismo não protege os palestinos. Ele degrada o debate e impede soluções reais. Sociedades que confundem análise crítica com ódio sistêmico perdem, antes de tudo, a capacidade de pensar com precisão sobre conflitos complexos.

Qual é a sua ligação com o Brasil?

Nasci no Rio de Janeiro, então minha ligação com o Brasil não é apenas afetiva — é constitutiva. O Rio está em mim de uma forma que nenhuma distância apaga. Cresci lá, me formei como pessoa lá. Joguei vôlei pelo Fluminense e fui atleta de futebol no Flamengo — cheguei a jogar com o Adriano Imperador e com o Felipe Melo, entre outros nomes que se tornaram referência no esporte brasileiro. O esporte me ensinou disciplina, trabalho em equipe, resiliência. Valores que carrego até hoje, na vida militar e no trabalho jurídico. Imigrei para Israel há mais de 20 anos, mas o Brasil nunca deixou de ser parte de quem eu sou. Essa raiz carioca, essa fluência natural com a cultura e com o povo brasileiro, é o que me permitiu exercer com autenticidade o papel de primeiro porta-voz oficial das Forças de Defesa de Israel em língua portuguesa. Não falo para o Brasil de fora. Falo como alguém que conhece esse país por dentro — e que tem profundo respeito pelo nível de debate que a sociedade brasileira é capaz de sustentar.

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postado em 12/06/2026 05:58
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