Colômbia

Jogo de risco alto nas eleições presidenciais

País chega ao segundo turno da disputa dividido entre direita e esquerda. Seja qual for, o vencedor terá pela frente o desafio de unir forças para governar com estabilidade e enfrentar a violência política

Está nas mãos de pouco mais de 41 milhões de eleitores colombianos a decisão mais crucial para a América do Sul, antes da votação que definirá o próximo presidente do Brasil, em outubro. Na reta final para o primeiro turno, há três semanas, um candidato "avulso" da extrema-direita, o advogado milionário Abelardo de la Espriella, contrariou as pesquisas de opinião e chegou à frente do senador esquerdista Iván Cepeda, apoiado pelo presidente Gustavo Petro. Neste domingo (21/6), é De la Espriella quem chega às urnas em vantagem. Mas, inclusive pela inserção política precária e pela ausência de uma base consolidada no Legislativo, sua vitória pode colocar o país em uma nova etapa de um processo político historicamente marcado pelos confrontos e pela violência (leia abaixo).

"De la Espriella pode ser considerado favorito, seja pelos resultados do primeiro turno, seja pelas pesquisas recentes, embora tenha que ter em conta que a diferença inicial não superou 700 mil votos, e ainda que as pesquisas indiquem que ela possa ter se ampliado desde então", disse, em entrevista ao Correio, o professor de relações internacionais Diego Rivera, da Pontifícia Universidade Javeriana de Bogotá. Roberto Uebel, titular da cadeira na ESPM, de São Paulo, onde coordena o Núcleo de Estudos e Negócios Americanos, relativiza as posições. "A Colômbia tem demonstrado alta volatilidade eleitoral, como em toda a América Latina. As urnas podem reservar surpresas, sobretudo se houver mudanças na participação eleitoral, na mobilização regional de última hora ou no deslocamento de votos moderados ou de indecisos", observa.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Nas últimas pesquisas, divulgadas no início da semana, o candidato da direita aparecia com vantagem de seis a oito pontos percentuais. Números semelhantes, porém invertidos, aos das sondagens que antecederam o primeiro turno — quando, no entanto, De la Espriella contrariou as projeções e chegou à frente. Desde então, o cenário se descortinou favorável a ele, inclusive pela dificuldade de Cepeda em captar votos entre o eleitorado de centro e capitalizar a vitória de seu partido, o Pacto Histórico, que saiu das eleições legislativas de março com as maiores bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado — embora sem contar, sozinho, com maioria em nenhuma das casas.

"A dificuldade de Cepeda está ligada à forte associação com o governo Petro e à percepção de continuidade de uma agenda reformista que divide o eleitorado", analisa o professor da ESPM. "Embora tenha tentado moderar o programa, retirando temas mais sensíveis, como uma Constituinte, ele ainda enfrenta resistência do centro, do empresariado e de setores que veem  com desconfiança a política de 'Paz Total' e as reformas sociais", explica Uebel, que menciona a opção do atual presidente, o primeiro esqerdista a governar o país, por uma abordagem negociada para a violência política, que bate recordes após 10 anos do processo de paz com a principal guerrilha de esquerda, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

O professor da Universidade Javeriana vê na associação com Petro as principais dificuldades enfrentadas por Cepeda, em especial na campanha para o segundo turno. "Primeiro, os erros e as tentativas de intervenção do presidente, quando fez alarmes falsos sobre fraude e classificou De la Espriella como 'candidato da máfia'", observa Rivera. "O discurso de aprofundar o modelo social baseado em reivindicações populares não agrada a classe média, que se sente ameaçada pela ampliação do Estado e por perseguições à oposição de direita e pela confrontação cos os Estados Unidos", pondera Rivera. "E o apoio de Donald Trump a De la Espriella é uma desvantagem para Cepeda."

Ambos os estudiosos apontam como incógnita, seja qual for o resultado de hoje, a relação do futuro presidente com o Legislativo. "Nenhum dos dois candidatos conta com maioria no Senado e na Câmara. Além disso, a polarização se evidencia. No Senado, o Pacto Histórico tem maioria, mas na Câmara, a maior bancada é do Centro Democrático, que aderiu a De la Espriella", diz o professor colombiano. "O problema com candidatos que se apresentam como outsiders é que não contam com a máquina legislativa necessária para seus projetos."

 

Duas perguntas para

Roberto Uebel, professor de relações internacionais e coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos da ESPM

 

Ao contrário de Gustavo Petro, seu candidato à sucessão, caso eleito, governará desde o início com base ampla parlamentar. Como isso pode influir sobre o processo político?

Cepeda não teria maioria automática, mas partiria de uma base parlamentar mais estruturada que a de Petro no início de seu governo. O Pacto Histórico tornou-se a maior força do Senado e da Câmara, o que daria maior capacidade inicial de coordenação legislativa. Ainda assim, governar exigiria negociação com liberais, verdes, conservadores e partidos regionais. Isso poderia reduzir a paralisia vista no governo Petro, mas não eliminaria os custos de coalizão nem as resistências institucionais, especialmente aquelas vinculadas aos grupos paraestatais.

 

De la Espriella, por sua vez, assumiria a Presidência sem retaguarda partidária e com uma oposição parlamentar consolidada. O que se pode esperar de sua relação com o Congresso?

Pela fotografia do momento, diria que Espriella enfrentará um problema clássico de governabilidade na América Latina: forte legitimidade eleitoral, caso vença, mas baixa capilaridade partidária no Congresso. Sua bancada é pequena, e ele dependeria de acordos com partidos tradicionais e setores da direita institucional, especialmente o Centro Democrático. Isso pode produzir duas possibilidades: moderação pragmática para aprovar reformas ou tensão permanente com o Legislativo, caso ele tente governar pela pressão popular e pelo discurso antipolítica. O Congresso seria, portanto, um freio importante à sua agenda, como em outros países da região, como Chile, Argentina e o próprio Brasil. (Silvio Queiroz)

 

Dois séculos de violência

Em dois séculos de vida independente e republicana, a Colômbia conta alguns períodos esparsos de paz política, nenhum deles por muito mais que uma década. Até meados do século passado, o país viveu uma guerra civil intermitente entre facções rivais da oligarquia rural, representadas pelos partidos conservador e liberal. A partir dos anos 1960, entraram em cena as guerrilhas de esquerda e, algum tempo depois, esquadrões paramilitares de direita que passaram a combatê-las à margem das forças do Estado — embora, muitas vezes, com indícios claros de coordenação de esforços.

Foi de um desses conflitos, que ficou conhecido como a Guerra dos Mil Dias, que surgiu o atual Panamá, no início do século 20. A região, na porção mais ao sul do istmo que forma a América Central, era até então parte da Colômbia. Os Estados Unidos aproveitaram o ambiente criado pelo conflito para estabelecer, ali, uma zona especial para a construção de uma passagem interoceânica. O Canal do Panamá deu nome a um país que, por décadas, viveu como protetorado de Washington.

As guerras incessantes entre conservadores e liberais permeiam a obra de Gabriel García Márquez, em especial o clássico Cem anos de solidão. Escrito no início dos anos 1960, o romance como que prenuncia a última — e longa — temporada de luta armada, inaugurada em 1964 com a formação de duas organizações guerrilheiras de inspiração marxistas: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o Exército de Libertação Nacional (ELN).

As Farc, em particular, são cria do último espasmo de luta entre conservadores e liberais, que durou uma década e ficou conhecido como a Violência. Em 9 de abril de 1948,  caudilho liberal Jorge Eliécer Gaitán foi assassinado em Bogotá. Seus partidários tomaram as ruas da capital em uma sublevação e confrontaram por dias as tropas regulares, no episódio que entrou para a história com o nome de Bogotazo. Ao longo dos 10 anos seguintes, formaram-se guerrilhas rurais ligadas ao Partido Liberal, com participação de camponeses ligados ao Partido Comunista.

As guerrilhas foram desmobilizadas em acordo com o general Gustavo Rojas Pinilla, que assumiu o poder em 1953, por um golpe militar. Foi deposto em 1957, com parte de um acordo — o Pacto Nacional — pelo qual os dois grandes partidos acertaram alternar-se no poder por 12 anos. Em 1964, na presidência do conservador Guillermo León Valencia, o Exército atacou um assentamento de ex-guerrilheiros comunistas na região de Marquetalia, no sul do país. Os sobreviventes, liderados por Manuel Marulanda, formaram as Farc.

Em 1970, último ano do Pacto Nacional, o candidato de consenso era o conservador Misael Pastrana. No entanto, Rojas Pinilla, retornado do exílio, enfrentou a coalizão — e foi considerado vencedor. As apurações foram suspensas e, depois de meses, foi proclamado presidente o conservador Misael Pastrana. Facções radicais da Aliança Nacional Popular (Anapo), partido nacionalista formado pelo general, tomaram em armas e formaram o Movimento 19 de Abril (M-19), dedicado à guerrilha urbana.

Depois de duas décadas de ações espetaculares, como o roubo da espada de Simón Bolívar, em 1974, e a tomada do Palácio de Justiça, em 1984, o M-19 negociou sua rendição em 1991, com o governo do liberal Cesar Gaviria. O atual presidente, Gustavo Petro, está entre os ex-guerrilheiros reintegrados à vida civil. As Farc entraram em processos de paz frustrados em 1984-1986 e 1998-2002. Chegaram a um acordo de paz, por fim, em 2016, embora setores dissidentes sigam em armas. O ELN, embora tenha iniciado conversações com Petro, segue em armas. (Silvio Queiroz)

 

 

 

 

 

  • Google Discover Icon
postado em 21/06/2026 00:01 / atualizado em 21/06/2026 16:14
x