
Londres* — O embaixador do Brasil no Reino Unido, Antonio Patriota, lamentou a renúncia do primeiro-ministro Keir Starmer, mas avaliou que, para a relação com o Brasil não deve haver mudança nas relações, uma vez que o partido trabalhista continuará no governo. “Starmer era bem próximo do Lula Luiz Inácio Lula da Silva. Eles tinham uma relação bem legal. O governo brasileiro e o Starmer tinham uma relação próxima.
Os dois partidos têm uma habilidade natural”, afirmou Patriota, nesta terça-feira (23/06), a jornalistas, após participar da abertura da segunda edição do Fórum de Seguros Brasil-Reino Unido, organizado pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg) em parceria com a Associação Britânica das Seguradoras (ABI), em paralelo à London Climate Action Week.
“Para relação com o Brasil, não representa uma grande mudança, é o mesmo partido continuando no governo. É um partido que tem uma relação histórica com o partido no poder no Brasil também”, afirmou Patriota. “O presidente Lula mantém, por exemplo, uma relação de muita amizade com o ex-primeiro-ministro Gordon Brown, que segundo algumas indicações poderá assumir um papel mais importante nesse novo governo. Então, a embaixada aqui está acompanhando com muito interesse”, acrescentou. Ele ressaltou ainda que Brasil e Reino Unido assinaram um acordo de parceria estratégica pelos próximos cinco anos e, além disso, o governo britânico está próximo de iniciar as negociações para um acordo de livre-comércio com o Mercosul.
Ao comentar sobre a saída de Starmer, à frente do governo britânico desde 2024, Patriota ressaltou que, como o regime de governo britânico é parlamentarista, a liderança do partido no poder pode ser questionada pelos integrantes da bancada, no caso, na Câmara dos Comuns. “E é o que está ocorrendo dentro de procedimentos que são considerados naturais, previsíveis. Houve uma vitória muito significativa do atual prefeito de Manchester, Andy Burnham,numa eleição extemporânea também, uma característica local. Um parlamentar membro da Câmara dos Comuns anunciou para permitir que ele fosse eleito por um distrito próximo a Manchester. Ele, ontem, assumiu sua posição, seu lugar na Câmara dos Comuns e, em função do apoio que ele já demonstra ter e a força com que ele conseguiu se contrapor a uma crescente pressão dos partidos de direita, ele parece contar com a maioria necessária para ser designado a primeiro-ministro”, explicou.
O embaixador lembrou que o atual Starmer já informou ao Rei Charles III que renunciaria à posição de chefe de governo. “E, aparentemente, o cenário que se desenrolará nas próximas semanas será relativamente sereno, sem muito sobressalto, porque não haverá uma competição para a substituição do atual líder do partido. Então, é o que eles chamam aqui na linguagem local uma coroação do novo titular chefe de governo, a previsão é que até 17 de julho isso possa ocorrer”, complementou.
Patriota ainda antecipou que o governo brasileiro e o britânico têm interesse em avançar nas negociações de um acordo bilateral de livre-comércio com o Mercosul, especialmente depois da saída do Reino Unido da União Europeia. “Existe uma expectativa de um eventual princípio de conversa e de formalizarmos as negociações preliminares ainda”, afirmou ele, lembrando que os acordos de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia e com o Efta, que reúne os da UE, o Efta, grupo que inclui Noruega, Suíça e Liechtenstein, estão em vigor. “Agora, fica só o Reino Unido como uma economia importante europeia, fora de um regime de livre- comércio. E eu vejo que, do lado Mercosul, existe vontade política, interesse, por essa aproximação. E tudo indica que, do lado britânico, também”, frisou. “Eu não quero antecipar os fatos, mas as indicações que nós recebemos são encorajadoras”, emendou.
Em relação à saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, Patriota reconheceu que há um debate de que houve um certo arrependimento da população geral em relação a esse movimento, pois não houve vantagens esperadas. “Hoje em dia, reconhece-se que o Reino Unido provavelmente estaria melhor economicamente se tivesse ficado dentro da União Europeia, em função de muitos fatores que não são controláveis pelo Reino Unido. A guerra na Ucrânia, as pressões que ela criou, agora essa outra guerra no Irã, por exemplo”, explicou.
De acordo com o diplomata, a semana está bastante movimentada em Londres, por conta da London Climate Action Week. “Nunca houve tanta presença brasileira nessa semana, que adquire um perfil mais elevado do que o habitual. Apesar dessa turbulência política no país, a cidade continua sendo muito aberta à cooperação internacional, cosmopolita, multiétnica”, afirmou ele, lembrando das boas relações do prefeito com o Brasil. Para o embaixador, o tema de seguros e riscos climáticos são muito importantes e as trocas de experiências entre os dois países nesse setor são estratégicas. “Londres é uma capital incontornável quando se fala de seguros. Eles estiveram na origem do desenvolvimento de toda essa capacidade das economias se protegerem contra eventos e acontecimentos não antecipados”, afirmou.
- Leia também: As dúvidas que pairam sobre o mais cotado para substituir Keir Starmer como primeiro-ministro do Reino Unido
Mercado de seguros em evidência
Na abertura do evento na capital britânica, o presidente da CNSeg, Dyogo Oliveira, também ressaltou a importância do mercado de seguros britânico. “O Reino Unido é um mercado extremamente sofisticado e com desenvolvimento de uma das principais fontes de resseguro”, destacou ele, ressaltando que a troca de experiências será o principal ponto dessa segunda edição do Fórum como da missão de executivos do mercado segurador ao Reino Unido ao longo da semana.
Eduard Folch, CEO da Allianz no Brasil, deu um exemplo claro ao comentar sobre as mudanças climáticas, porque a maioria muitas cidades de grande porte não estão preparadas para as fortes mudanças do clima recentes, e isso é o caso de Londres, que vem atravessando, nesta semana, uma onda de calor extremo. “O risco climático exige uma colaboração público-privada muito forte, porque essa colaboração é fundamental para chegar ao seguro e à proteção para toda a população”, afirmou.
No painel anterior, Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter no Brasil, ainda destacou que o mercado de seguros brasileiro ainda tem bastante potencial de reserva, especialmente, via garantias no setor de infraestrutura.
“O seguro passa a ser mais um mercado validando o progresso a passa a valer e a se alongar mais”, destacou ele, lembrando que a companhia tem uma parceria com a prefeitura de São Paulo para identificar investimentos em torno de R$ 22 bilhões para evitar riscos climáticos.
Para Ketlyn Stefanovic, diretora Jurídica e de Estratégia da Junto Seguros, ressaltou que o seguro garantia tem apresentado crescimento por conta dos leilões da área de infraestrutura, tanto que movimentou R$ 6,3 bilhões em 205, e, neste ano, a expectativa dela é de que esse mercado deve crescer para algo em torno de R$ 6,7 bilhões a R$ 7 bilhões. “Essa nova modalidade que a gente tem na lei de licitações, algumas dezenas de apólices já foram emitidas, a maioria ligada a rodovias ainda, mas acho que é uma evolução constante. A legislação veio, se espera uma regulamentação”, afirmou. Ela lembrou ainda que um passo importante para o setor é o fato de as agências reguladoras começarem a olhar para a qualidade das seguradas, tanto que começaram a classificar essas empresas por meio de rating, como foi o caso da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). “É preciso ver que a qualidade da seguradora importa”, frisou.
*A jornalista viajou a convite da CNSeg
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