Oriente Médio

Israel desafia cessar-fogo com o Irã e aliança com os EUA

Trump e negociador-chefe iraniano assinam memorando de entendimento para pôr fim à guerra. Primeiro-ministro Benjamin Netanyahu descarta retirada de tropas do sul do Líbano e garante que salvou seu país da "destruição nuclear"

Considerado um passo anterior ao acordo de cessar-fogo, o memorando de entendimento para pôr fim à guerra no Oriente Médio foi assinado eletronicamente pelo presidente Donald Trump, e pelo vice, JD Vance,  no lado dos Estados Unidos; e pelo negociador-chefe Mohammad Bagher Ghalibaf, pelo lado do Irã. Além de uma série de brechas, e apesar da promessa de reabertura do Estreito de Ormuz em 19 de junho, a ofensiva diplomática esbarra na resistência de Israel.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou que as tropas israelenses permanecerão no Líbano, na Faixa de Gaza e na Síria "pelo tempo que for necessário". "O mais importante é que salvamos o Estado de Israel da ameaça de destruição nuclear", afirmou o premiê. "E o que isso significaria? Significaria que milhões de cidadãos israelenses — vocês, que me ouvem agora —, todos vocês teriam estado em terrível perigo de morte em massa... E afastamos de nós, por anos, esse perigo de aniquilação da população de Israel. Com acordo ou sem acordo, o Irã não terá armas nucleares", assegurou Netanyahu. 

No sul do Líbano, onde as Forças de Defesa de Israel (IDF) lutam contra o movimento fundamentalista xiita Hezbollah, um drone israelense explodiu um carro perto da cidade de Nabatieh e matou o motorista. A facção islâmica afirmou que usou drones e foguetes para impedir o avanço de tropas israelenses em dois tanques Merkava e uma escavadeira na mesma região. Assim que a notícia sobre a assinatura do memorando de entendimento se espalhou, libaneses refugiados em outras áreas começaram a voltar para suas casas, apesar de o governo do país ter advertido os cidadãos a suspenderem o regresso até segunda ordem. 

Trump usou a própria plataforma Truth Social para comemorar o retorno da navegação no Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto da produção de petróleo do planeta. "Os navios começam a se mover, muitos carregados de petróleo, para fora do Estreito de Ormuz. Eles estão seguindo pela 'rodovia do sul', que é totalmente segura e preservada."

"Muito aquém"

Para especialistas consultados pelo Correio, o memorando de entendimento decepciona e foi criado para que Trump reforce seu capital político com a ideia de triunfo na guerra contra o Irã. "Estou muito feliz em dizer que está assinado, o acordo está totalmente assinado", disse o republicano ao conversar com o presidente da França, Emmanuel Macron, durante a cúpula do G7. Trump anunciou que os termos do memorando serão divulgados até sexta-feira, data da provável assinatura do acordo de cessar-fogo, em Berna, na presença de autoridades do Paquistão, responsável por mediar  as negociações. 

Professor de relações internacionais da Universidade de Nova York, Alon Ben-Meir explicou que o memorando de entendimento estabelece um cessar-fogo de 60 dias e deixa todos os temas principais para serem negociados durante essa janela. "Está muito aquém de qualquer resolução significativa. A afrmação de Trump de que a reabertura do Estreito de Ormuz constitui uma grande conquista é enganosa. O Estreito estava aberto antes do conflito; então, reabri-lo não representa ganho importante. Parece uma tentativa de projetar vitória em um cenário onde pouco foi conquistado", declarou. 

Segundo Ben-Meir, tanto os EUA quanto Israel saíram enfraquecidos. "Os temas mais espinhosos, especialmente o programa nuclear do Irã e seu estoque de urânio enriquecido, permanecem em solução. Por outro lado, o Irã parece encorajado. Isso porque Teerã não se comprometeu a reduzir seu apoio aos  aliados regionais — Hezbollah, Hamas e houthis — e chegou a exigir que Israel interrompa suas operações no Líbano. Em suma, a situação atual aponta para o Irã emergindo em uma posição estratégica mais forte do que os Estados Unidos ou Israel", advertiu o especialista em Oriente Médio. 

Eytan Gilboa —  professor de ciência política da Universidade Bar-Illan (em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv) — classifica o memorando de entendimento como um documento frágil. "Há mais de duas décadas, o Irã mente e engana sobre seu programa de armas nucleares, afirmando que não buscava tais armas. Se isso fosse verdade, como explicariam o enriquecimento de urânio a 60%? Para fins pacíficos, bastava enriquecer a 3,67%. Presumimos que continuarão a enganar e, portanto, o prazo de 60 dias acordado para concluir as negociações sobre as armas nucleares provavelmente fracassará", afirmou. O especialista israelense também disse que não ficou claro como o memorando de entendimento levará ao fim dos ataques do Hezbollah contra o Estado judeu. 

Abbas Fakih/AFP - Carro de refugiados passa diante de prédio destruído em bombardeios, na cidade de Nabatieh, no sul do Líbano

De acordo com Gilboa, a relação entre Estados Unidos e Israel está "estremecida". No entanto, ele descarta um colapso. "Presumo que, assim que Trump descobrir a má-fé e a manipulação do Irã, a aliança será restaurada", comentou. Pesquisador sênior do Middle East Institute, especializado em política externa e segurança nacional dos Estados Unidos, Brian Katulis avalia que o acordo é melhor do que a alternativa de mais guerra. "No entanto, é improvável que mude fundamentalmente o panorama de segurança regional, o qual permanece frágil e vulnerável a múltiplos choques nas próximas semanas e meses", admitiu.

Alinhamento

Apesar do desgaste desde o início da guerra, Katulis crê que Israel e EUA seguem alinhados em relação a metas estratégicas. "Algumas vezes Netanyahu e Trump têm divergências sobre temas táticos e operacionais. Se o acordo com o Irã seguir adiante, testará a parceria, talvez até mesmo em âmbito estratégico", observou. Mas ele acha improvável que o cessar-fogo leve a uma ruptura completa. "A longo prazo, a questão palestina pode terminar a uma ruptura maior." 

Ben-Meir discorda de Katulis e entende que, nas últimas semanas, tem ficado cada vez mais evidente que Netanyahu e Trump não estão mais alinhados sobre como prosseguir com a guerra no Irã. "O premiê israelense tem insistido na continuidade da campanha militar até o desmantelamento do programa nuclear iraniano e a eliminação da capacidade de produção de mísseis balísticos. Trump, no entanto, parece ter concluído que prolongar o conflito criaria riscos ainda maiores do que benefícios. O regime iraniano permanece intacto, e sua capacidade de fechar o Estreito de Ormuz, o que prejudicou gravemente a economia mundial, tornou ainda mais urgente o fim da guerra", disse. 

Por essa motivação econômica, Ben-Meir vê a iniciativa de Trump de pressionar pela interrupção dos combates, a despeito do desejo contrário de Netanyahu. "A divergência se estende para além do Irã. O premiê israelense buscou manter a ofensiva contra o Hezbollah, mas o Irã teria condicionado o cessar-fogo à suspensão da campanha no Líbano. Nesse ponto, Trump também pressionou Netanyahu, em uma troca de palavras bastante tensa. O crescente desentendimento entre os dois líderes é mais profundo do que aparenta publicamente", admitiu.

A forte dependência de Israel em relação aos EUA — principalmente em temas de segurança e compartilhamento de informações — deixa Netanyahu com pouca margem de manobra, avalia o professor de Nova York. "Embora possa ser compelido a se alinhar com Washington em relação ao Irã, Netanyahu segue firme em sua posição sobre o Hezbollah. Ele deixou claro que Israel não se retirará do Líbano e manterá as operações, enquanto o Hezbollah persistir nos ataques."

EU ACHO...

Alfred Muller/Divulgação - Eytan Gilboa, professor de ciência política da Universidade Bar-Illan (em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv)

"Netanyahu se opôs ao acordo porque ele não acredita que o pacto será capaz de eliminar o programa nuclear iraniano. Mas o primeiro-ministro depende completamente de Donald Trump e não pode entrar em choque com ele. Tanto a coalizão de governo quanto a oposição concordam que o acordo ameaça seriamente a segurança nacional de Israel."

EYTAN GILBOA, professor de ciência política da Universidade Bar-Illan (em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv)

Arquivo pessoal - Brian Katulis, pesquisador sênior do Middle East Institute, especializado em política externa e segurança nacional dos Estados Unidos

"As ações militares de Israel no Líbano podem comprometer um possível acordo. O primeiro-ministro Netanyahu enfrenta pressões internas para manter a segurança de seu povo e pode resistir a um acordo que o impeça de atacar forças que ameacem seus cidadãos."

BRIAN KATULIS, pesquisador sênior do Middle East Institute, especializado em política externa e segurança nacional dos Estados Unidos

Arquivo pessoal - 2018. Crédito: Arquivo Pessoal. Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York.

"O objetivo central deste acordo é a reabertura do Estreito de Ormuz. Esta tem sido uma das principais prioridades de Trump, visto que o seu fechamento interrompeu gravemente o comércio global, particularmente os mercados de energia. Nos termos do acordo atual, espera-se que a navegação seja retomada. Os detalhes — como quem cobrará essas taxas no futuro e como elas serão estruturadas — permanecem indefinidos e serão negociados posteriormente."

ALON BEN-MEIR, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York  

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Abbas Fakih/AFP - Carro de refugiados passa diante de prédio destruído durante bombardeios israelenses, na cidade de Nabatieh, no sul do território libanês
Alfred Muller/Divulgação - Eytan Gilboa, professor de ciência política da Universidade Bar-Illan (em Ramat Gan, subúrbio de Tel Aviv)
Arquivo pessoal - Brian Katulis, pesquisador sênior do Middle East Institute, especializado em política externa e segurança nacional dos Estados Unidos
Arquivo pessoal - 2018. Crédito: Arquivo Pessoal. Alon Ben-Meir, professor de relações internacionais da Universidade de Nova York.