Reino Unido

Starmer renuncia como premiê britânico e abre espaço para Burnham

Sob pressão do Partido Trabalhista, em meio a escândalos e com a economia estagnada, primeiro-ministro anuncia que deixará o comando do país. Ex-prefeito de Manchester, membro da ala à esquerda da legenda, é cotado para a sucessão

O caminho para 10 Downing Street — residência e escritório do premiê do Reino Unido — está traçado para Andy Burnham, ex-prefeito da região metropolitana de Manchester e pertencente à ala esquerda do Partido Trabalhista. No poder desde 5 de julho de 2024, Keir Starmer, 63 anos, renunciou aos cargos de líder dos trabalhistas e premiê, enquanto Burnham, 56, prestou juramento no Parlamento de Westminster, uma das condições para se tornar chefe de governo.

Visivelmente emocionado, Starmer discursou diante de Downing Street. "A pergunta que meu partido faz é se estou na melhor posição para liderá-lo na próxima eleição geral. Ouvi a resposta da minha bancada parlamentar a essa pergunta e aceito a resposta com serenidade. Todas as decisões que tomei tiveram como objetivo colocar em primeiro lugar o país que amo: é por isso que renunciarei à liderança do Partido Trabalhista", disse o quinto premiê em sete anos. 

"Quando eu deixar o cargo mais importante do país, dedicarei mais tempo à função mais importante: ser o melhor marido possível para minha esposa fantástica, Vic (...) e ser o melhor pai possível para meus filhos lindos, que são meu orgulho e minha alegria", acrescentou Starmer. Ele prometeu colaborar para uma transição de poder ordeira e oferecer ao sucessor "apoio inequívoco e completo". Até a definição de seu sucessor, o premiê demissionário continua no cargo. 

Oli Scarff/AFP - Andy Burnham fala a simpatizantes em Makersfiel, no noroeste do país: favorito no partido

Burnham classificou a decisão de Starmer como "o início de uma transição" e colocou-se à disposição nesse processo. "O país espera estabilidade, seriedade e um foco contínuo nas questões que mais importam, e é isso que ele terá", declarou. A saída de Starmer foi apressada por uma série de escândalos, pela gestão econômica controversa e pelo desempenho pífio do Partido Trabalhista nas eleições reginonais de maio. Uma das indicações de que Burnham será o escolhido foi a sinalização de apoio do ex-ministro da Saúde Wes Streeting, membro da ala mais à direita dos trabalhistas. "Podemos ajudá-lo a impulsionar a mudança que nosso partido e nosso país precisam", escreveu na rede social X. A previsão é de que somente em 9 de julho o Comitê Executivo Nacional do Partido Trabalhista anuncie a abertura das candidaturas para as eleições internas. 

Conexão

Professor de política da Queen Mary University of London, Tim Bale aposta que Burnham será o próximo premiê britânico. "Ele tem a habilidade de se conectar com o eleitor, de reunir uma boa equipe e de unir os interesses públicos e privados, para promover o crescimento econômico", explicou ao Correio. "É um bom sinal, embora reste saber se ele pode transferir para o país as habilidades que o tornaram tão bem-sucedido como prefeito de Manchester."

Segundo Anthony C. Glees, professor emérito da Universidade de Buckingham, Starmer era um advogado  de direito administrativo sem carisma, que jamais criou conexão com o eleitorado britânico. "Ele cometeu  erros evitáveis, praticamente desde o primeiro dia, aceitando ternos e até óculos de um doador rico. Demitiu gente a torto e a direito. A derrota nas eleições de maio foi seu Waterloo", disse ao Correio, ao comparar Starmer com Napoleão Bonaparte durante a batalha histórica.

Gless admitiu que o contexto mais profundo para a transição no Reino Unido é o Brexit — a saída do país da União Europeia (UE), em 31 de janeiro de 2020. "Isso tornou a Grã-Bretanha ingovernável. Por uma simples razão: o Brexit danificou a ecomia do Reino Unido, causando perdas entre 2,5% e 6% a 8% no no Produto internio Bruto (PIB). "Mesmo uma perda de 2,5% equivale a cerca de 60 bilhões de libras — um deficit enorme que poderia ter sido investido em defesa ou saúde. No entanto, não acredito que o Reino Unido vá algum dia voltar a integrar a UE", afirmou. O impacto negativo na economia seria a explicação para que o país tivesse seis premiês desde o voto pelo Brexit. "O divórcio da UE também dividiu a população, em particular os escoceses e os galeses, cujos governos defendem o retorno ao bloco", acrescentou.

Glees concorda que Burnham tem carisma e acredita que ele precisará agir para mudar os fundamentos da democracia britânica: mais governos regionais e maior descentralização de poder. "Caso contrário, o Reino Unido se fragmentará em regiões que não conseguem mais trabalhar em conjunto."

Alerta vermelho pela onda de calor

Se a temperatura política no Reino Unido está alta, o clima não fica atrás. O calor sufocante que atinge o oeste da Europa deve durar até o fim de semana. O fenômeno lembra a onda de calor de agosto de 2003, que matou mais de 70 mil pessoas em duas semanas. As autoridades britânicas decretaram um raro "alerta vermelho" para amanhã e quinta-feira no sul do país. O tempo quente pode indicar "risco à vida, mesmo para a população saudável", indicaram. 

A previsão é de que as temperaturas ultrapassem os 37 graus Celsius, podendo atingir até 40 graus em áreas a sudeste e sudoeste de Londres e no leste da Inglaterra. "O calor será acompanhado de alta umidade, exacerbando o potencial para impactos na saúde e no desconforto, com noites muito mornas e úmidas reduzindo a habilitantes das pessoas de se recuperarem", afirmaram meteorologistas consultados pelo tabloide britânico The Guardian

Segundo um estudo científico, sem as mudanças climáticas as temperaturas atuais seriam entre 2°C e 4°C mais baixas. "O padrão meteorológico que está na origem desta onda de calor não tem nada de extraordinário. O extraordinário é que as mudanças climáticas acrescentaram até 4°C às temperaturas em algumas regiões da Europa Ocidental", afirmou Davide Faranda, diretor de pesquisa em ciências climáticas do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) da França.

No país, duas crianças, de 2 e de 4 anos, foram encontradas mortas dentro de um carro, em Carpentras (sudeste). As temperaturas previstas para osciavam entre 36 e 43 graus Celsius. O serviço meteorológico Météo France decretou alerta vermelho, seu nível máximo, em metade do país.

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