Pilhas de escombros praticamente intocados se espalham pelo estado de La Guaira, a 30km de Caracas. Com o esgotamento da janela de 72 horas depois do duplo terremoto — em que as chances de vida para os soterrados são maiores —, socorristas fazem o que podem ante a precarização da infraestrutura de salvamento. Muitos voluntários, protegidos apenas por máscaras, usam as próprias mãos para procurar por sobreviventes. Aos 18 anos, Sadrad Rondón Bolívar passa parte do dia remexendo os destroços dos prédios ou arrecadando insumos para desabrigados. "Trabalhamos apenas com as mãos. Ontem (sábado), nos facilitaram mais voluntários e máscaras, mas não temos ferramentas. Os bombeiros não fazem o serviço de remoção de escombros. Somos nós, os civis, que fazemos esse tipo de trabalho", afirmou ao Correio o rapaz, que vive em Caracas e se dirigiu à cidade costeira de Macuto, em La Guaira, para somar esforços na resposta à tragédia.
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Na tarde deste domingo (28/6), moradores da região de Tanaguarena, também em La Guaira, obrigaram militares a pegarem em pás e picaretas e trabalhar sobre um prédio desabado. "O país precisa de vocês. Baixe sua arma, largue as balas", gritou, indignado, um homem a um militar, testemunharam jornalistas da agência France-Presse (AFP). O universitário Pedro José Mayz Infante, 25, viajou 90km de Santa Teresa del Tuy, no estado de Miranda, até Playa Grande, em La Guaira, na sexta-feira, antes da militarização da área. Além de ajudar a vasculhar os escombros, ele fez o papel de intérprete para socorristas estrangeiros e documentou os resgates. "Muitas pessoas estão trabalhando sem nada. Sem ferramentas, sem implementos, absolutamente nada. Sabemos como está a situação do país. Não há máscaras, capacetes, picaretas ou pás", desabafou à reportagem. "Trabalhamos apenas com a força bruta."
Javier Isac Alcántara Mosqueda, empresário de Caracas, contou ao Correio que várias pessoas têm se disponibilizado a ajudar nas buscas. "Tenho meu próprio negócio e saquei muito dinheiro para poder auxiliar. Em três dias, as pessoas fizeram mais coisas do que o governo, contribuindo nos hospitais e nos centros de apoio", disse. "E, sim, é verdade, estamos levantando os escombros com as mãos. Eu não tinho luvas, óculos ou botas. Vim com roupa normal. Minha camisa e meus sapatos rasgaram, mas isso não importa. Estamos nos dando as mãos e mostrando nossa própria força. Pudemos salvar algumas pessoas, e isso é o que importa."
"Não temos o apoio para tirar nossos familiares, nós mesmos não conseguimos", desabafou à AFP Héctor Aguilera, de 60 anos. Quatro de seus familiares ficaram soterrados sob um prédio que desabou. Foram recuperados dois corpos sem vida. Os cadáveres são amontados em oito necrotérios improvisados, inclusive no estacionamento do Instituto Médico Legal.
De volta à luz
Belkys Barreto, 60 anos, resgatada depois de 86 horas sob os escombros. Moisés, 11, trazido de volta à superfície após ficar mais de 72 horas enterrado a 3m do solo. Além deles, um homem e seu filho adolescente foram liberados dos escombros em La Guaira. Exaustos e em choque, foram salvos do amontado de concretos por equipes de resgate da França e dos EUA. O menino foi retirado primeiro, com o corpo coberto de poeira, sangue no joelho e a mão enfaixada. Ele e o pai estavam com o tórax e as pernas expostos, cobertos por um pedaço de tecido. Os resgates trouxeram alguma esperança aos familiares de desaparecidos, que, segundo a ONU, passariam de 50 mil. A presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, anunciou que 33 pessoas foram salvas ontem.
Yubisay Carrasco esperava por notícias da ex-cunhada e de outros cinco conhecidos, que até o fechamento desta edição estavam soterrados em um prédio vizinho ao centro comercial Costa do Sol, em Caraballeda, no estado de La Guaira. "Agora há pouco, socorristas dos Estados Unidos trouxeram um cão farejador, depois de sentirem algum tipo de movimento sob o concreto. Eles viviam no quarto andar. Nos primeiros dias, havia pessoas gritando por ajuda debaixo dos escombros", relatou ao Correio, com a voz cansada.
No início da noite, o governo atualizou os números sobre o duplo terremoto de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter: pelo menos 1.450 mortos, 3.150 feridos e 189 prédios colapsados. O papa Leão XIV expressou sua solidariedade com os venezuelanos e sua gratidão com os socorristas durante uma mensagem em espanhol.
UNIDOS PELA DOR
"Para mim, foi muito difícil trabalhar sem qualquer ferramenta. Além disso, o odor da putrefação... Cheguei a Playa Grande no terceiro dia. Muitos corpos estavam em decomposição. As altas temperaturas de La Guaira também acelera esse processo. Vários animais de estimação também apareciam mortos, com esgotamento ou asfixiados."
Pedro José Mayz Infante, 25 anos, voluntário em Playa Grande (La Guaira)
"O mais difícil, para mim, foi retirar pessoas mortas dos escombros. Mas, também, confortar aquelas que perderam sua casa, sua família. Além de fisicamente, é preciso estarmos também mentalmente preparados. Também foi complicado salvar feridos e acabar descobrindo que eram conhecidos nossos."
Javier Isac Alcántara Mosqueda, 20 anos, empresário de Caracas, voluntário em Macuto (La Guaira)
"É duro presenciar tanto sofrimento do meu povo e ver corpos em decomposição. Como venezuelano e apaixonado pelo meu país, temos enfrentado tudo isso e colocado a cara à prova. Não tenho máquinas nem ferramentas, mas temos conseguido resgatar pessoas com as mãos."
Sadrad Rondón Bolívar, 18 anos, morador de Caracas, voluntário em Macuto (La Guaira)
