
Novas acusações apresentadas pela Justiça britânica ampliaram os processos enfrentados pelos influenciadores Andrew e Tristan Tate, presos desde sexta-feira (17/7) na Flórida enquanto tentam impedir sua extradição ao Reino Unido.
Documentos judiciais obtidos pela CNN após levantamento do sigilo, na segunda-feira (20/7), detalham relatos de vítimas que descrevem estupros, estrangulamentos e outras formas de violência sexual e física atribuídas aos irmãos.
Os autos divulgados descrevem denúncias feitas por mulheres às autoridades do Reino Unido, que relataram episódios de violência física e sexual atribuídos aos dois irmãos. Entre as acusações estão estrangulamentos durante as agressões, em alguns casos até a perda da consciência das vítimas, além de estupros.
Os irmãos compareceram na segunda-feira (20) a uma audiência em um tribunal federal de Miami e voltaram a negar todas as acusações. A defesa informou que pretende contestar o pedido de extradição, e um dos advogados chegou a pedir publicamente que o governo do presidente Donald Trump intervenha no caso.
Conhecidos inicialmente por participarem de programas de televisão no Reino Unido, Andrew e Tristan Tate ganharam projeção internacional ao produzir conteúdos cada vez mais misóginos nas redes sociais, acumulando milhões de seguidores ao mesmo tempo em que passaram a responder a processos criminais em diferentes países.
Andrew Tate, apoiador declarado de Donald Trump e autodeclarado misógino, construiu sua imagem pública promovendo discursos ligados à chamada "masculinidade tóxica".
Ele se tornou uma das principais figuras da chamada "manosphere", ou "machoesfera" em tradução livre, termo usado para definir uma comunidade virtual formada por influenciadores e produtores de conteúdo predominantemente masculinos, frequentemente associados à extrema direita e à disseminação de discursos misóginos.
A prisão nos Estados Unidos representa mais um capítulo de uma longa disputa judicial envolvendo diferentes países.
Novas acusações elevem total de processos
Embora ambos já respondessem no Reino Unido por acusações de estupro e tráfico humano, os novos processos surgiram após a polícia britânica investigar relatos apresentados por outras quatro vítimas. Com isso, Andrew e Tristan Tate somam agora 59 acusações criminais.
No caso de Andrew Tate, os documentos revelam denúncias envolvendo duas mulheres.
Segundo o processo, uma delas trabalhava com conteúdo adulto sensual, realizando transmissões ao vivo pela internet para assinantes pagantes. A vítima afirmou que, durante um ataque ocorrido em sua casa, em Bedford, na Inglaterra, em 2015, Andrew a colocou em um golpe de estrangulamento até que ela perdesse a consciência antes de estuprá-la.
A segunda mulher afirmou ter conhecido Andrew Tate por meio de um aplicativo de relacionamento e mantido uma relação sexual consensual com ele em 2014.
Posteriormente, durante outro encontro na residência dela, em Manchester, ela relatou que foi imobilizada durante o ato sexual, ficou sem conseguir respirar e temeu pela própria vida. Segundo o documento, a vítima declarou que acreditava que ele não iria parar e que poderia matá-la.
Com as novas acusações, Andrew Tate passa a responder por mais sete acusações de estupro, três de tráfico sexual, três de agressão e outras 19 relacionadas à posse e produção de "imagens indecentes envolvendo crianças e pornografia extrema".
- Leia também: Irmãos Tate são presos nos EUA enquanto novas acusações no Reino Unido elevam total para 59
Ao todo, ele agora responde a 42 acusações, entre elas estupro, tráfico de pessoas, agressão e crimes envolvendo material de abuso sexual infantil, conforme informaram o Serviço de Procuradoria da Coroa (Crown Prosecution Service), espécie de Ministério Público inglês, e a Polícia de Bedfordshire.
Já Tristan Tate foi denunciado por supostamente estuprar repetidamente uma mulher com quem manteve um relacionamento amoroso de longa duração entre 2012 e 2013.
Segundo as autoridades britânicas, ele a estrangulava até fazê-la perder a consciência e, em diversas ocasiões, a agrediu com um cinto, provocando "hematomas e vergões graves" pelo corpo. Em um dos episódios, ainda de acordo com a investigação, ele teria desferido um golpe que deixou a vítima com um olho roxo.
Tristan responde agora a mais duas acusações de estupro, uma de agressão sexual e três por facilitar o deslocamento de vítimas para fins de exploração. Com isso, passa a enfrentar 17 acusações criminais, incluindo estupro, agressão sexual e tráfico de pessoas.
Os promotores afirmam que os investigadores britânicos reuniram depoimentos de testemunhas, mensagens eletrônicas e fotografias que, segundo eles, corroboram os relatos das vítimas. Os irmãos já haviam negado anteriormente qualquer irregularidade.
Por que os irmãos foram presos nos EUA?
Andrew e Tristan Tate foram presos na Romênia em 2022, onde respondem por acusações de tráfico humano e de formação de organização criminosa para explorar sexualmente mulheres.
Na época, eles ficaram impedidos de deixar o país. No entanto, após as autoridades romenas suspenderem essa restrição de viagem no ano passado, os irmãos embarcaram em um jato particular com destino à Flórida.
Mesmo autorizados a viajar, continuam submetidos às condições impostas pela Justiça romena e retornam mensalmente ao país para comparecer às audiências, segundo o advogado Joseph McBride.
O pedido de extradição apresentado pelo Reino Unido decorre de outra investigação conduzida pelo Ministério Público britânico, baseada em denúncias feitas por sete mulheres sobre crimes que teriam ocorrido entre 2010 e 2017 no leste da Inglaterra.
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Andrew e Tristan, que possuem dupla cidadania estadunidense e britânica, foram presos pelo Serviço de Delegados Federais dos Estados Unidos (U.S. Marshals Service) em 18 de julho, quando seguiam para um evento de boxe em Miami.
A defesa pediu que ambos respondam ao processo em liberdade enquanto o caso é analisado. Apesar de reafirmar a inocência dos irmãos, McBride afirmou que as acusações são "politicamente motivadas".
Além do processo de extradição, autoridades da Flórida abriram uma investigação criminal própria contra os dois.
Como funciona a extradição
Estados Unidos e Reino Unido mantêm um tratado bilateral de extradição, por meio do qual ambos os países concordam em entregar pessoas procuradas pela Justiça da outra nação.
Uma versão mais rígida desse acordo entrou em vigor em 2007 e, desde então, o Departamento de Estado americano aprovou praticamente todos os pedidos de extradição apresentados pelo Reino Unido.
O procedimento prevê inicialmente uma audiência perante um juiz federal americano, responsável por verificar se os requisitos previstos no tratado foram cumpridos. A decisão final, entretanto, cabe ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que possui poder discricionário para autorizar ou negar a extradição.
Os irmãos ainda podem apresentar recursos e outras medidas judiciais para tentar impedir a entrega às autoridades britânicas.
O Departamento de Justiça confirmou que as prisões ocorreram "em conformidade com os tratados e os acordos de cooperação entre as autoridades responsáveis pelas extradições". Segundo uma fonte ouvida pela CNN, a operação foi autorizada pelos chefes da Divisão Criminal do órgão.
Joseph McBride argumentou, porém, que o pedido britânico interfere tanto no processo em andamento na Romênia quanto nas investigações abertas na Flórida.
"Existe um acordo de longa data entre os governos do Reino Unido e da Romênia segundo o qual o Reino Unido não pediria a extradição enquanto os processos romenos estivessem pendentes. Esses processos continuam em andamento. Esse acordo existe porque nenhum país pode atropelar a soberania judicial de outro por conveniência política."
Segundo especialistas consultados pela CNN, a situação seria diferente apenas se a Romênia se manifestasse oficialmente ao governo americano. Mas, caso isso não aconteça, não há motivo para que um tribunal americano acolha o argumento da defesa, já que os trâmites na Flórida pertencem à jurisdição doméstica dos Estados Unidos e eventuais ajustes poderão ser resolvidos internamente.
Em 2024, a Justiça romena decidiu que os irmãos deverão ser extraditados ao Reino Unido somente depois da conclusão do processo criminal em andamento no país. Ainda assim, qualquer entendimento firmado entre autoridades romenas e britânicas não produz efeitos jurídicos sobre os Estados Unidos, que não participaram desse acordo.
McBride também sustentou que o caso se enquadraria na exceção para "crimes políticos" prevista no tratado de extradição entre Estados Unidos e Reino Unido, ao alegar que as acusações possuem motivação política.
"Creio que Marco Rubio e o restante do governo Trump não são simpatizantes do comunismo. Eles também não apoiam processar pessoas por exercerem a liberdade de expressão. Então acredito que, por uma questão de princípio e pelas razões que levaram esse governo ao poder, eles não desejariam ver dois cidadãos livres enviados para um país onde serão presos por motivos políticos."
Até segunda-feira, segundo um alto funcionário do Departamento de Estado, Rubio ainda não havia conversado com os irmãos nem com seus advogados, e o governo americano "não tinha planos de agir" para barrar o pedido de extradição.
Duas fontes ouvidas anteriormente pela emissora também afirmaram que Donald Trump não deve intervir no caso. Ainda assim, aliados dos irmãos vêm procurando pessoas próximas ao presidente na tentativa de organizar uma campanha pública em defesa deles.
Próximos passos
Até a tarde de segunda-feira (20), Andrew e Tristan Tate permaneciam presos.
Durante a audiência, o juiz ressaltou que o procedimento não corresponde a um julgamento criminal e que o processo formal de extradição ainda está em fase inicial.
Nas próximas semanas, um juiz distrital dos Estados Unidos decidirá se os irmãos cumprem todos os requisitos legais para serem extraditados ao Reino Unido.
Os próximos momentos decisivos serão a análise de um eventual pedido de liberdade sob fiança e a forma como será conduzida a audiência de extradição.
Os especialistas acrescentaram que pedidos de extradição envolvendo pessoas de grande notoriedade costumam levar mais tempo para serem concluídos, sobretudo quando a defesa investe intensamente em disputas judiciais.

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