Comportamento

Misoginia entre adolescentes é desafio na sala de aula

Jovens chamados de redpill humilham garotas, desprezam o gênero feminino e causam constrangimentos nas escolas. Especialistas advertem sobre necessidade de ação dos responsáveis e de controle nas redes sociais

ilustração redpill -  (crédito: Pacífico )
ilustração redpill - (crédito: Pacífico )

Nos últimos anos, as escolas passaram a enfrentar um desafio relacionado à questão de gênero. Enquanto as meninas da geração Z estão abertas e suscetíveis às transformações do mundo, os meninos se revelam mais conservadores do que as gerações anteriores. Na internet, os movimentos que propagam o ódio pelas mulheres e incentivam o discurso de dominação masculina, conhecidos como "masculinista" e redpill, ganharam força. E o principal público são meninos adolescentes.

O termo redpill foi apropriado por comunidades masculinas que acreditam na inferioridade das mulheres e no papel tradicional dos homens na sociedade. Para os integrantes desse movimento, o feminismo é uma maneira de prejudicar os homens. Eles reforçam a ideia de "macho-alfa" e de uma hierarquia social dentro da própria comunidade, como o termo "betinha", que representa um homem submisso e inseguro.

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A psicóloga Débora Gonçalves, especialista em terapia cognitivo-comportamental, ressalta que a adolescência é um momento de descoberta, em que o jovem começa a compreender melhor as relações de amizade, os grupos sociais e as diferenças de opinião.

"Esse tipo de conteúdo pode atrair alguns adolescentes porque a adolescência é uma fase em que o convívio social passa a ganhar um significado muito maior. Conteúdos como o redpill podem parecer atraentes porque oferecem explicações prontas sobre como interpretar determinados comportamentos e relações. Para quem ainda está aprendendo sobre essas experiências, isso pode transmitir uma sensação de segurança, como se existissem regras claras para compreender situações que, na realidade, são muito mais complexas", explica.

Naturalização

A psicóloga lembra que a naturalização de discursos machistas contribui para a construção de estereótipos negativos. "Quando esse tipo de discurso passa a fazer parte das conversas e brincadeiras, comportamentos desrespeitosos podem começar a ser vistos como normais. Com isso, meninos e meninas deixam de conhecer uns aos outros pelas características de cada um e passam a fazer generalizações e a reproduzir estereótipos, o que dificulta o diálogo e a convivência", analisa.

A pedagoga Gabrielle Moreira diz que é cada vez mais frequente entre os adolescentes comportamentos misóginos explícitos, antes eram sutis."Esses comportamentos são reproduzidos com mais frequência e até com naturalidade pelos adolescentes, muitas vezes influenciados pelo que consomem nas redes sociais e em comunidades on-line", alerta. "Tenho observado que muitos adolescentes fazem referência ao chamado movimento redpill, tratam as meninas como descartáveis e 'usáveis'" ou como se devessem algo aos meninos."

Esse tipo de linguagem revela impactos profundos e muitas vezes silenciosos no comportamento e nas atitudes de meninas adolescentes. De acordo com Chirli Viveiros Cardoso da Trindade, diretora da Escola Magistral, em Brasília, as meninas estão abandonando atividades por medo dos meninos.

Cotidiano

"Algumas meninas deixam de participar das aulas por medo de serem ridicularizadas. Outras evitam apresentar trabalhos, expor opiniões ou assumir posições de liderança por medo ou por se colocar no lugar de inferioridade. E fica evidente o aumento da insegurança, da ansiedade, da baixa autoestima e, em alguns casos, do isolamento social. Quando uma jovem sente que precisa medir constantemente sua roupa, sua fala, seu corpo ou sua inteligência para ser aceita, ela deixa de ocupar espaços que também lhe pertencem. A escola precisa ser um ambiente onde cada estudante se sinta seguro para aprender, crescer e desenvolver sua identidade", revela a diretora.

Gabrielle Moreira acrescenta que o comportamento misógino dos meninos está em atos simples, como a recusa em sentar ao lado de meninas, desqualificar as opiniões femininas e insistir em piadas com conteúdo ofensivo e sexual.

"O mais preocupante é que esses comportamentos começam desde a infância, o que reforça a importância de intervenções precoces. As crianças aprendem muito por meio das brincadeiras, das relações e dos exemplos dos adultos. Depois, conforme crescem, essas vivências devem ser acompanhadas de conversas abertas sobre respeito, empatia, igualdade e resolução de conflitos. O objetivo não é colocar meninos e meninas em lados opostos, mas formar jovens capazes de construir relações saudáveis e respeitosas", analisa.

Funções

Para Chirli Trindade, há adolescentes que não compreendem o poder daquele discurso, mesmo assim precisam ser responsabilizados. "Na maioria das vezes, não estamos diante de adolescentes 'violentos', mas de futuros jovens em formação que reproduzem discursos aos quais foram expostos, principalmente no ambiente digital. Não diminui sua responsabilidade, mas nos lembra que educar continua sendo mais eficaz do que simplesmente punir", diz.

Segundo a diretora, a escola tem um papel fundamental na orientação da família. "A primeira orientação é não tratar isso como algo sem importância. Levar esse tema como 'o que foi apenas uma brincadeirinha' porque ele ouviu isso de alguém", orienta. "Os pais muitas vezes não querem admitir que isso ou aquilo partiu do seu filho", completa.

Para Chirli Trindade, a melhor forma de combater esses discursos é por meio do diálogo, buscando compreender a origem desse pensamento, evitando exclusivamente medidas punitivas. "Expressões preconceituosas não devem ser normalizadas. Ao mesmo tempo, é importante evitar respostas apenas punitivas. Perguntar de onde aquela ideia surgiu, o que ela significa e por que foi considerada engraçada costuma abrir espaço para uma conversa muito mais educativa. Os filhos aprendem muito observando os adultos", sugere.

Outra maneira de enfrentar esse problema é por intermédio da educação digital e estimulando o senso crítico. "Acredito que a educação digital é uma das maiores urgências da atualidade. Não basta ensinar matemática e português. Precisamos ensinar nossos jovens a interpretar informações, identificar discursos de ódio, questionar narrativas e fazer escolhas conscientes", avalia a diretora, que teme a ausência de análise.

Discursos

Especialista em perspectiva de gênero e direito antidiscriminatório, a professora Daiana Sousa, do Centro Universitário Uniceplac, elenca pelo menos cinco aspectos que considera desafiadores no combate ao discurso misógino na internet. São eles: identificar os autores, preservar provas digitais responsabilizar perfis anônimos e acompanhar a rapidez com que esses conteúdos circulam, ao mesmo tempo em que preserva a liberdade de expressão.

Daiana Sousa diz que as leis existentes no país são suficientes para enfrentar a violência de gênero, inclusive no ambiente digital, mas a dificuldade está na "efetiva aplicação" e no investimento em educação digital e igualdade de gênero. A professora reitera que as plataformas podem ser responsabilizadas nos casos em que descumprem as obrigações legais.

Embora muitos desses comportamentos tenham início nas redes sociais, as consequências podem ultrapassar o ambiente virtual e resultar em responsabilização na Justiça. Segundo a especialista, adolescentes que praticam ofensas, ameaças, perseguição, incitação à violência ou ataques direcionados a meninas podem responder por seus atos, tanto na esfera cível quanto na socioeducativa. No entanto, ela expõe que o simples pertencimento a um grupo ou corrente de pensamento não é crime.

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"Quando um adolescente pratica uma conduta que seria crime se cometida por um adulto, ele responde por ato infracional, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Em vez de penas, podem ser aplicadas medidas socioeducativas, que buscam responsabilizar e educar o adolescente, especialmente em casos de violência de gênero", diz.

*Estagiária sob a supervisão de Rosana Hessel

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postado em 20/07/2026 03:59
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