Direitos humanos

Imigrantes caçados pelos Estados Unidos em plena Copa do Mundo

O temido serviço anti-imigração, o ICE, retoma a ofensiva contra estrangeiros em meio à atenção atraída pelo futebol e captura 10 mil no intervalo de cinco dias. Partidários de Donald Trump aplaudem, mas especialistas veem arranhão na imagem externa do país

Com a Copa do Mundo no centro das atenções dirigidas para os Estados Unidos, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, mais conhecido pela temida sigla ICE, reforçou a caçada aos estrangeiros em situação irregular, aproveitando a concentração deles nas imediações de estádios ou mesmo nos locais onde torcedores se reúnem para acompanhar as partidas das seleções de seus países de origem. Em um intervalo de cinco dias, segundo fontes e relatórios internos a que teve acesso o jornal The New York Times, os agentes anti-imigração fizeram mais de 10 mil detenções sumárias — uma média de 2 mil por dia, ainda abaixo da meta de 3 mil determinada no ano passado, o primeiro desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

"Desde o primeiro dia (do mandato), o Departamento de Segurança Interna (DHS, pela sigla em inglês) vem cumprindo a promessa do presidente Donald Trump ao povo americano de prender e deportar estrangeiros ilegais, incluindo assassinos, estupradores, pedófilos, interantes de gangues e terroristas", disse, em pronunciamento, um porta-voz do organismo, ao qual o ICE é subordinado. Mas, seguindo a orientação do secretário Markwayne Mullin, que no início do ano substituiu Kristi Noem à frente do DHS, as operações recentes vêm sendo conduzidas com discrição que faltou em seguidos incidentes que resultaram na morte de cidadãos norte-americanos, com uma onda de protestos em diversas cidades. Mullin colocou no comando do ICE um aliado próximo, Lance Schroyer, policial estadual sem antecedentes em órgãos federais.

A nova ofensiva ganhou aplausos de Mike Howell, que lidera um bloco de grupos anti-imigração sob o nome de Coalizão pela Deportação em Massa. Ele, no entanto, pediu "mais transparência" quanto aos resultados das operações. "São tantos números divulgados para a imprensa, com estimativas e especulações, que as pessoas ficam alheias a isso, esperando a publicação de dados que estariam sendo retidos", afirmou Howell.

Imagem arranhada

"A atuação do ICE tem afetado a imagem externa dos EUA e mostra que o país está com carta branca da Fifa para fazer o que quiser. Ela nem sequer agiu para garantir dos direitos de quem tinha ingresso comprado", observa Roberto Goulart Menezes, professor titular do Instituto de Relações Internacionais (Irel) da UnB. Internamente, ao contrário, ele vê o retorno do ICE, ainda que discreto, como um reforço para "as estatísticas de Trump, que quer livrar o país de todo tipo de 'forasteiro', como ele diz". Menezes lembra que o ICE está prendendo "os que já estavam nos EUA e foram assistir a alguma partida, embora diversas associações de defesa de imigrantes tinham alertado para que eles evitassem esses locais, por conta da tecnologia de reconhecimento facial instalada nos estádios e das revistas rigorosas no entorno".

O professor do Irel pondera que a ofensiva contra os imigrantes, durante a Copa, não é surpresa. "Estava desenhado que os EUA impediriam parte dos torcedores estrangeiros de chegar ao país", diz. "Mas sabemos que, desde janeiro de 2025, é um grande risco ir para lá, seja a trabalho, para estudar ou para turismo. Mesmo os que têm visto, podem não ser alvo do ICE, mas não estão a salvo de arbitrariedades." Na avaliação do estudioso, a atenção mundial atraída pelos jogos da Copa não chega a colocar em segundo plano a ação do ICE. "Eles tentam utilizar isso para ampliar a ofensiva, mas os que se opõem seguem protestando."

PALAVRA DE ESPECIALISTA

Liderança em xeque

A imagem dos EUA está bastante afetada por toda a presidência de Trump, com a guerra tarifária, o afastamento das organizações internacionais, a guerra no Irã e o próprio funcionamento da democracia. Ele é um presidente que incentivou a tentativa de ruptura institucional, um golpe de Estado, e foi reeleito nessas condições. O próprio funcionamento da democracia está bastante comprometido. Ele vem atacando o Congresso, tomando medidas sem consultá-lo, atacando a Suprema Corte, a liberdade de imprensa.

O grande problema é que, desde que se tornaram hegemônicos, após a 2ª Guerra, os EUA usaram essa imagem como instrumento de manutenção da liderança internacional. Quando ela fica afetada, como atualmente, eles perdem esse instrumento, o chamado soft power, o poder brando, que é liderança pelo exemplo, não da imposição de força, que é o único instrumento que o Trump tem tentado — sem grande sucesso.

Arquivo Pessoal - Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB)

A Copa, é uma faca de dois gumes. Da mesma forma que a população mundial presta mais atenção nos jogos, isso não é bem verdade nos EUA, as pessoas estão vivendo o dia a dia. Diferentemente do Brasil, Copa não parece servir como uma distração que permitiria ao Trump tomar ações mais radicais. Na verdade, a mídia internacional está mais presente, e isso tende a fazer com que ele seja mais criticado. Não é o diferencial, mas é um fator a mais. (SQ)

JULIANO CORTINHAS, professor de relações internacionais da UnB

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