
As imagens de vídeo que viralizaram nas redes sociais evidenciaram a manhã de horror no oeste da Colômbia. De uma colina, Cali — a terceira maior cidade do país — era tomada por colunas de poeira que se erguiam no horizonte, um indício de prédios colapsados. Em Pereira, o município mais castigado, um casal tenta se proteger, no meio da rua, quando um edifício vem abaixo. No aeroporto, as pessoas se abraçavam às colunas, enquanto pedaços do teto desabavam. Em Manizales, a 53km a nordeste, a torre da principal igreja tombou, sob olhares incrédulos de moradores. O terremoto de magnitude 7,4 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) levou morte e destruição ao chamado "eixo cafeeiro" do país. Até o fechamento desta edição, o abalo, cujo epicentro foi localizado a 5km de San José del Palmar e a 110km de profundidade, tinha deixado pelo menos 132 mortes, 570 feridos e dezenas de prédios e casas transformados em ruínas.
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Três dias depois de tomar posse, o presidente ultraconservador Abelardo de la Espriella reagiu rapidamente à tragédia, decretou "situação de caráter de desastre nacional" e enviou um recado aos colombianos atingidos diretamente pelo tremor: "Vocês não estão sozinhos". Em Bogotá, ele se reuniu com assessores e passou a coordenar o atendimento à emergência. Também anunciou a criação de quatro postos de comando unificado, nas cidades de Bogotá, Cali, Armenia e Quibdó (capital de Chocó).
"Frente à adversidade que hoje golpeia o nosso povo, o Estado não vacilará nem hesitará. Esse governo assume, com determinação, pleno empenho e absoluta dedicação, o cuidado integral das vítimas e a reconstrução das áreas afetadas. Por isso, declarei estado de emergência nacional, mobilizando os recursos institucionais necessários para responder adequadamente", declarou. O ministro do Interior, Rodrigo Lara, viajou a Pereira para coordenar as ações.
O terremoto forçou a paralisação de seis aeroportos no oeste da Colômbia. "Foram registrados danos nos aeroportos de Pereira, Manizales, Quibdó, Armenia, Cartago e Buenaventura. Por segurança, as operações aéreas nesses terminais permanecem suspensas até que sejam avaliados os danos", informou a Aeronáutica Civil da Colômbia. De la Espriella apresentou um balanço provisório: 61 edifícios colapsados, 18 unidades de saúde danificadas, 52 instituições de ensino afetadas e 18 vias danificadas.
O prefeito de Pereira, Mauricio Salazar, confirmou que há "muitas pessoas feridas" e outras "presas em escombros". Ele classificou a situação da capital do departamento de Risaralda como "crítica".
Solidariedade
No início da tarde, o Brasil prestou solidariedade à Colômbia. Em nota publicada na rede social X, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que recebeu "com preocupação" a notícia do terremoto. Em nome do povo brasileiro, manifesto minha solidariedade ao povo colombiano, especialmente às famílias das vítimas e todos os afetados pelos tremores. O Brasil permanece à disposição da Colômbia para prestar o apoio necessário", escreveu Lula, ao deixar de lado divergências ideológicas com De la Espriella. Por sua vez, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou US$ 15 milhões em ajuda.
Morador de Manizales, Juan Esteban Londoño estava dormindo quando sentiu o tremor. "A minha casa movia-se de um lado para outro. Televisões, computadores, móveis, tudo começou a mexer. Foi um movimento muito forte. Eu e mais quatro familiares saímos correndo, de pijamas. Há mais de duas décadas não víamos um sismo de tanta magnitude. Começamos a ver os estragos causados pelo terremoto. A Catedral Basílica de Manizales, uma das mais altas da América Latina, perdeu uma de suas colunas. No último relatório da prefeitura, constavam quatro mortes e 19 estruturas colapsadas. Estamos em choque, pois é uma cidade que raramente enfrenta esse tipo de desastre natural", relatou ao Correio. Londoño deu uma volta pelo município e se deparou com muita ansiedade. "As pessoas queriam entrar em suas casas para retirar pertences, outras se apressavam para buscar sobreviventes."
A 261km dali, a comunicadora social Alejandra Tovar se preparava para tomar o café da manhã antes de uma consulta médica às 8h. "Por volta das 7h35, eu estava na parte sul de Cáli, a terceira maior cidade da Colômbia. Comecei a sentir que a terra se movia. Descemos as escadas. Tremia um pouco forte e, um ínfimo de tempo depois, parecia que o terremoto estava parando. Mas, aí, começou a sacudir de forma muito mais intensa. Era muito difícil caminhar sobre a rua, não conseguíamos nos equilibrar", contou ao Correio. "Na avenida principal, nós e outras pessoas nos abraçávamos e corríamos. Eu me pus a chorar, e muita gente começou a gritar. O mais difícil foi quando começaram a cair pedaços de teto, ladrilhos e janelas. Os vidros das casas estouraram." Em pânico, ela entrou em contato com a mãe, por meio do WhatsApp, e pediu-lhe que saísse à rua, com os cães da família. "Cáli é uma cidade colapsada. Há pessoas presas dentro dos edifícios e sob os escombros", disse.
Funcionário da Prefeitura de Santa Rosa de Cabal, Santiago Álvarez viajava para Pereira, 15km a sudoeste, quando foi surpreendido pelo tremor. "Na rodovia, carros moviam-se como se fossem brinquedos, de um lado para outro. Os postes de luz estavam a ponto de cair. Em vários pontos da estrada, havia vários deslizamentos, e as pessoas corriam, após um alarme falso de avalanche de terra", relatou ao Correio Álvarez, que se voluntariou como brigadista.
Na cidade, a empresária Mónica Sepúlveda esperava por uma madrugada de escuridão. "Não temos energia nem internet. As pessoas daqui me contaram que o terremoto foi parecido com o de 1999, que destruiu a cidade colombiana de Armenia. Foram 38 segundos, mas sentimos como se tivesse durado meia hora. Muitos moradores tiveram crise nervosa. Meu primo trabalha na clínica central, e um andar inteiro caiu", contou ao Correio.
TRÊS PERGUNTAS PARA...
LUISA FERNANDA CASTILLO, sismóloga do Serviço Geológico Colombiano (em Bogotá)
Quais são as principais características do terremoto que atingiu a Colômbia na manhã dessa segunda-feira?
É um evento de características reconhecidas pela atividade de subdução da Placa de Nazca, na costa sul-americana, que, historicamente, no nosso país também apresentou este tipo de atividade ao longo de toda a costa pacífica. Ele foi registrado em um local onde ocorre esse tipo de sismo com certa frequência ou com certas características e com tamanhos diversos, de acordo, digamos, com a dinâmica própria desse sistema.
São comuns, no oeste do país, terremotos dessa magnitude?
Eu diria que ocorrem sismos com frequência, mas de menor magnitude. A Colômbia é um território sismicamente ativo. A magnitude não é tão usual: não vemos sismos muito grandes de forma frequente. Esses eventos são sismos que, no passado, na história sísmica do país, apresentaram-se com certas magnitudes importantes e características de profundidade similares.
A senhora poderia falar mais sobre as forças tectônicas presentes sob o território colombiano e envolvidas na dinâmica desse tremor?
A Colômbia está localizada em uma zona onde converge a dinâmica de três grandes placas tectônicas: a Placa do Caribe, ao norte; a oeste, a Placa de Nazca; e a placa continental, que á a Placa Sul-Americana. A convergência dessas três placas faz dessa dinâmica sísmica algo muito complexo. De fato, a parte situada na área onde foi o sismo no dia de hoje (ontem) é uma zona de convergência da Placa de Nazca, que subduz, ou se mete por baixo da Placa Sul-Americana, gerando esse evento. E, como consequência também da dinâmica complexa de todas estas placas, temos a Cordilheira dos Andes. Toda a nossa zona andina é produto dessa dinâmica ao longo dos milhões de anos da convergência das placas no planeta. (RC)
DEPOIMENTO / "Vi casas movendo-se"
"Nunca houve um terremoto tão forte aqui. Casas, escolas e prédios caíram. Vi como as pessoas corriam, como fugiam de casa com seus filhos. Mães corriam para as escolas, na tentativa de salvar suas crianças. Vi casas movendo-se de um lado para o outro. Foi algo tão impressionante. Crianças e adultos choravam e pediam a Deus que a terra parasse de tremer. Não temos boa conexão de celular ou internet, nem energia elétrica. Temos nos unido para procurar pessoas sob os escombros. Muitos moradores estão ajudando de alguma forma. Aqui em Quibdó, pelo menos 12 pessoas morreram e 119 ficaram feridas. No momento do tremor, as pessoas estavam em seus postos de trabalho. A tragédia poderia ter sido pior."
Jesús Antonío Pinilla Berrío, trabalhador social, morador de Quibdó (capital de Chocó)
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