América do Sul

Solidariedade e esperança nas buscas após terremoto na Colômbia

Mais de 72 horas depois do tremor de magnitude 7.4 na escala Richter, moradores de cidades do eixo cafeeiro, no oeste do país, mantêm a corrente de ajuda e se unem na disposição de encontrar sobreviventes. Número de mortos passa de 270

Pessoas trocam afeto em uma
Pessoas trocam afeto em uma "cabine de abraços", três dias depois do terremoto de magniude 7.4, em Cali - (crédito: Raul Arboleda/AFP)

Solidariedade. Ela está em vários pontos de Cali e em outras cidades afetadas pelo terremoto de magnitude 7.4 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9) que levou morte e destruição à região ocidental da Colômbia. No bairro de Capri, em Cali, uma cabine improvisada chama a atenção. "Abraços aqui", afirma a mensagem, escrita a giz e com duas setas apontando para baixo, em uma placa presa aos troncos de duas árvores. Sob ela, Andres Solomon abre os braços e acolhe estranhos com palavras de conforto e de ânimo. Vez ou outra, chora junto. Passadas 72 horas do tremor, as chances de encontrar sobreviventes reduziram drasticamente. Até o fechamento desta edição, o terremoto tinha deixado 273 mortos, 3.824 feridos e 377 desaparecidos. 

Moradora de Cali, a comunicadora social Alejandra Tovar, 46 anos, afirmou ao Correio que, desde os primeiros minutos depois do sismo de 10 de agosto, moradores de Cali saíram às ruas para ajudar os desabrigados. "Cada cidadão de Cali, sem pensar duas vezes, começou a auxiliar. Muitos distribuíram água, luvas e medicamentos. Homens e mulheres saíram, em suas motos e carros, ou caminharam até os locais mais críticos para retirar os escombros, sem qualquer tipo de proteção", disse. "O governo de Abelardo de la Espriella não autorizou a ajuda de alguns países. Foram as pessoas, gente comum mesmo, que ajudaram, a partir de mobilizações nas redes sociais X e Facebook e nos grupos de WhatsApp." 

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Segundo Alejandra, milhares de moradores trabalham sem parar na resposta à tragédia. "Muitos estão sem dormir, sem repousar. Nas ruas, pude observar muitas pessoas comprando água, Gatorade, energéticos. Tem sido muito emocionante testemunhar a massiva solidariedade por aqui. Não interessa de que partido político, se são ricos ou pobres, a única coisa que importa é poder ajudar de alguma forma", acrescentou. 

Às 9h42 desta quinta-feira (13/8) pelo horário local (11h42 em Brasília), a terra voltou a tremer em San José del Palmar, no departamento de Chocó — o mesmo epicentro do terremoto de segunda-feira (10/8). Sismólogos colombianos avaliaram a magnitude em 4.2 na escala Richter. Ao todo, 146 réplicas tinham sido registradas até a noite de ontem, apenas duas com magnitude maior do que 4.0. Os abalos secundários atrapalham o trabalho dos socorristas. 

"O melhor de nós"

Também em Cali, a estudante de administração de empresas Yami Reyes, 41 anos, contou ter ficado impressionada com a mobilização dos compatriotas. "As pessoas pararam de fazer o que normalmente fazem e saíram para ajudar o próximo. Elas estão concentradas em auxiliar, seja com comida, seja na remoção dos escombros", contou ao Correio. "Somos muitos humanos. Em meio ao medo e à dor, ver como o povo de Cali se une, ajuda estranhos e contribui com o que pode, mostra que, em tempos difíceis, o melhor de nós vem à tona."

Na cidade, máquinas pesadas começaram a remexer os escombros nos lugares onde os socorristas descartam sobreviventes. Valeria Cardona, 26, procurava por dois primos, que estariam sob os escombros. "Temos suspeitas sobre a localização deles, mas não há sinais de vida", explicou à agência France-Presse (AFP). "A esperança é a última que morre, mas estamos angustiados com uma notícia que não queremos receber."

Em Pereira, a 208km a nordeste de Cali, Diego Sandoval, um voluntário de 22 anos, descartava reduzir o ritmo das buscas. "Não se perde a esperança (...) Acho que as pessoas têm força de vontade para resistir vários dias lá embaixo", disse à AFP. Ali perto, pessoas disseram ter escutado o que seriam barulhos vindos de um elevador de um prédio que colapsou.

O adeus de Salomón a Lenny comove o país

A cunhada de Lenny Fernández coloca o cão Salomón sobre o caixão da tutora, em Cali
A cunhada de Lenny Fernández coloca o cão Salomón sobre o caixão da tutora, em Cali (foto: Álbum de família)

O enterro de Lenny Fernández, 38 anos, emocionou os colombianos. A advogada, que morreu em Cali, foi encontrada pelos socorristas agarrada ao cão de estimação, Salomón. Durante todo o tempo, a colombiana manteve o animal junto a ela, o que teria garantido que ele sobrevivesse. Ao ser colocado sobre o caixão, Salomón chorou diante do corpo da tutora, em Pasto, sua terra natal, a 374km de Cali. Yami Reyes e Lenny frequentavam a mesma igreja pentecostal de Cali, onde cantavam, juntas, no grupo de louvor. "Lenny era uma mulher linda por fora, mas ainda mais por dentro; Deus se refletia literalmente em sua vida. Ela era fiel a Deus e o amava acima de tudo", contou Yami ao Correio. "Seu cachorrinho Salomón era seu companheiro, seu copiloto, literalmente, ele nunca o deixava sozinho", acrescentou a amiga, que não pôde viajar a Pasto e assistiu ao funeral pela internet. 

 

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postado em 14/08/2026 05:00
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