Tragédia na Colômbia

Socorristas lutam contra o tempo para buscar vítimas de terremoto

Equipes de resgate trabalham sobre os escombros de construções destruídas pelo terremoto de segunda-feira. Presidente visita áreas atingidas e anuncia medidas para ajudar desabrigados. Mortos passam de 250. Mais de 4 mil pessoas estariam desaparecidas

Socorristas e voluntários buscam por sobreviventes sob os escombros de prédio, em Pereira -  (crédito: Jaime Saldarriaga/AFP)
Socorristas e voluntários buscam por sobreviventes sob os escombros de prédio, em Pereira - (crédito: Jaime Saldarriaga/AFP)

Sobre as pilhas de concretos dos prédios que desmoronaram durante o terremoto de magnitude 7.4 na escala Richter (aberta, raramente chega a 9), equipes de socorristas se apressam nas buscas por sobreviventes em diferentes cidades da região ocidental da Colômbia. Até o fechamento desta edição, 254 corpos tinham sido retirados dos escombros e o número de feridos chegava a 1.677. Segundo as autoridades civis, pelo menos 4 mil pessoas estão desaparecidas. Ao todo, 243 construções desabaram. 

O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, visitou Pereira e Manizales, duas das cidades mais afetadas pelo desastre, e anunciou novas medidas de resposta à catástrofe. O líder ultraconservador anunciou que, pelos próximos três meses, o governo federal assumirá o custeio dos serviços públicos para as pessoas atingidas. Também vai subsidiar os aluguéis daqueles que perderam  suas casas. O objetivo, segundo ele, é "que todos encontrem alívio em meio dessa tragédia". "Nós nos levantaremos, como os colombianos sempre fizeram, sob uma única bandeira", disse ele.

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Presidente Abelardo de la Espriella (C) conversa com socorristas durante visita à cidade de Pereira
Presidente Abelardo de la Espriella (C) conversa com socorristas durante visita à cidade de Pereira (foto: Presidência da Colômbia/AFP)

O governo também declarará, nas próximas horas, emergência econômica e social — o mecanismo visa acelerar a liberação de verbas e escapar da burocracia. O governo poderá emitir decretos com força de lei. Na segunda-feira (10/8), poucas horas depois do sismo, De la Espriella decretou desastre nacional e instalou postos de comando unificados em Bogotá, Cali, Armenia e Quibdó (capital do departamento de Chocó). 

Pereira, cidade de 480 mil habitantes situada no chamado Eixo Cafeeiro, contabilizava 72 mortes. O morador Sebastián Villalba — gerente do complexo de lazer Parque Consotá — disse ao Correio que muitas áreas do município foram severamente afetadas. "Em outras zonas, a tranquilidade começa a ser retomada. As consequências do terremoto se evidenciam por toda a cidade", comentou.

Mulher caminha diante de edifício em ruínas, na mesma cidade: destruição generalizada
Mulher caminha diante de edifício em ruínas, na mesma cidade: destruição generalizada (foto: Jaime Saldarriaga/AFP)

Por sua vez, Raúl Murillo Betancur, gerente do Bioparque Ukmari, também em Pereira, além dos mortos, 54 pessoas estão desaparecidas e mais de 100 ficaram feridas. "O panorama por aqui é desolador. Dezoito estruturas colapsaram. As equipes de resgate de várias partes da Colômbia e de outros países começaram a chegar. Há muitos prejuízos econômicos no comércio. As autoridades decretaram toque de recolher e restringiram a circulação de carros para evitar saques", afirmou à reportagem. Ele lembrou que o terremoto coincidiu com um mês festivo, em que Pereira completará 263 anos, em 30 de agosto. "O prefeito declarou emergência e calamidade pública e cancelou todas as celebrações. Todas as pessoas estão mobilizadas, levando comida e donativos para albergues. Pereira está de luto."

Na mesma cidade, o escritor Jorge Hernan Hoyos contou ao Correio que cães alertaram sobre o terremoto, pouco antes de a terra sacudir com força. "O sismo durou 15 segundos. O teto, as cadeiras e objetos pequenos foram ao chão. As pessoas se refugiaram em uma escola do bairro San Nicolás por acreditarem que a construção era sólida", afirmou. Ele destacou a solidariedade, que tomou conta do município, o mais castigado. "O vizinho que não falava comigo havia cinco anos me emprestou seu rádio; a senhora que vende empanadas ofereceu café quente e beijos. As pessoas daqui são muito solidárias. Os cidadãos sempre se mobilizam para colaborar, e essa não será a última vez em que todos nos ajudamos."

Esperança e fé

A 254km a noroeste, em Quibdó, o trabalhador social Jesús Antonío Pinilla Berrío disse à reportagem que, por volta das 11h desta terça-feira (11/8), uma réplica do terremoto derrubou casas que tinham ficado bastante deterioradas. "As buscas continuam, assim como a remoção de escombros e o resgate dos feridos. Apesar das altas temperaturas, seguimos procurando por sobreviventes", relatou. "Acredito que haja pessoas sob os escombros. Não escutamos vozes, mas temos fé de que algumas delas estão vivas. Também há familiares que não sabem onde seus entes queridos estão. As buscas seguem ativas."

Homem olha dentro de carro danificado por placa de concreto, também em Pereira
Homem olha dentro de carro danificado por placa de concreto, também em Pereira (foto: Jaime Saldarriaga/AF)
 

Em Cali, a terceira cidade mais importante do país, o prefeito Alejandro Eder impôs toque de recolher noturno. Voluntários e socorristas trabalham, sem pausa, nos bairros mais castigados. Ao menos 95 moradores foram encontrados sem vida na metrópole de 2,9 milhões de habitantes. "Foi uma noite muito difícil, um pesadelo", admitiu Eder à emissora de rádio Caracol, ao fazer um balanço da primeira madrugada depois do terremoto. 

Em nota enviada em nome do papa Leão XIV pelo cardeal Petro Parolin ao presidente da Conferência Episcopal da Colômbia, o líder católico afirmou que ficou "profundamente consternado ao tomar conhecimento da dolorosa notícia do terremoto que afetou gravemente várias regiões da Colômbia, causando vítimas e muitos feridos". Segundo a mensagem, o pontífice reza pelas vítimas. António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), manifestou "solidariedade ao povo e ao governo da Colômbia".

PALAVRA DE ESPECIALISTA

"Há uma reciclagem de placas tectônicas"

"O terremoto de segunda-feira teve magnitude 7.4 e ocorreu a 100km de profundidade. Por isso, ele é considerado um tremor profundo. O evento ocorrem em um contexto no qual temos a subducção da Placa de Nazca sob a Placa Sul-Americana. Podemos pensar que temos uma placa tectônica mais fria e mais densa (Placa de Nazca) que afunda sobre uma placa menos densa, a Placa Sul-Americana. Então, há uma reciclagem de placas tectônicas, em que uma afunda sobre a outra. 

Gilberto Leite Neto, pesquisador do Observatório Nacional (ON, no Rio de Janeiro) e sismólogo da Rede Sismográfica Brasileira
Gilberto Leite Neto, pesquisador do Observatório Nacional (ON, no Rio de Janeiro) e sismólogo da Rede Sismográfica Brasileira (foto: Arquivo pessoal )

Esse terremoto ocorreu dentro da placa que está se afundando, da placa subduzida. Essa região é conhecida por abriga terremotos em profundidades que vão de 50km a 200km. A Colômbia, em si, como um todo, é um país considerado sismicamente ativo, com histórico de terremotos nessa região. Então, a ocorrência de sismos não se mostra algo incomum. 

O Serviço Geológico Colombiano identificou várias réplicas associadas a esse grande terremoto. A maioria delas com magnitudes entre dois e três pontos. A maior delas com magnitude de 4.8. Um fato interessante é que ele ocorreu a uma profundidade de 100km. Isso facilita, também, que as ondas sísmicas desse evento sejam menos atenuadas. Por isso, não é incomum escutarmos relatos de pessoas muito distantes do evento que possam ter percebido os seus efeitos. É o caso de moradores de Manaus, por exemplo. Principalmente aquelas pessoas que estiverem em prédios ou em locais mais altos."

Gilberto Leite Neto, pesquisador do Observatório Nacional (ON, no Rio de Janeiro) e sismólogo da Rede Sismográfica Brasileira

 

  • Homem observa automóvel danificado por pilar, também em Pereira
    Homem olha dentro de carro danificado por placa de concreto, também em Pereira Foto: Jaime Saldarriaga/AF
  • Mulher caminha diante de edifício em ruínas, no mesmo município
    Mulher caminha diante de edifício em ruínas, na mesma cidade: destruição generalizada Foto: Jaime Saldarriaga/AFP
  • Presidente Abelardo de la Espriella (C) conversa com socorristas durante visita à cidade de Pereira
    Presidente Abelardo de la Espriella (C) conversa com socorristas durante visita à cidade de Pereira Foto: Presidência da Colômbia/AFP
  • Gilberto Leite Neto, pesquisador do Observatório Nacional (ON, no Rio de Janeiro) e sismólogo da Rede Sismográfica Brasileira
    Gilberto Leite Neto, pesquisador do Observatório Nacional (ON, no Rio de Janeiro) e sismólogo da Rede Sismográfica Brasileira Foto: Arquivo pessoal
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postado em 12/08/2026 05:00
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