Oriente Médio

ONG acusa Israel de apoiar limpeza étnica na Cisjordânia ocupada

Relatório da Human Rights Watch aponta escalada sem precedentes nos ataques de colonos judeus e denuncia papel ativo das autoridades na promoção da violência. Autora de documento fala ao Correio e cobra reação da comunidade internacional

Plantação de oliveiras e prédios em Ramat Shlomo, assentamento judaico em área de Jerusalém Oriental anexada por Israel  -  (crédito: Ahmad Gharabli/AFP)
Plantação de oliveiras e prédios em Ramat Shlomo, assentamento judaico em área de Jerusalém Oriental anexada por Israel - (crédito: Ahmad Gharabli/AFP)

Desde janeiro de 2023, ataques de colonos judeus contra palestinos da Cisjordânia ocupada levaram ao deslocamento total ou parcial de 107 comunidades. Os colonos responsáveis por essas ações operam com o suporte financeiro, material e jurídico do Estado de Israel. É o que revela um relatório da organização não governamental Human Rights Watch (HRW). O estudo alerta que dezenas de comunidades correm o risco de desaparecer.

No dia em que a HRW apresentava o documento ao mundo, a casa do palestino-americano Loui Abu Ridi, 46 anos, seguia sob cerco de colonos judeus no vilarejo de Qusra (leia nesta página). A HRW investigou os ataques em sete comunidades da Cisjordânia: Al-Mughayyir, Mikhmas e Taybeh, perto de Ramallah; Jalud e Qaryut, na região de Nablus; e Khirbet Humsa e Muarrajat do Leste, no Vale do Jordão. Segundo a ONG, muitas vezes, colonos armados agiram em conjunto com as Forças de Defesa de Israel (IDF) — que não intervieram —, ao atacarem moradores e imóveis. 

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Em entrevista ao Correio, Sarah Sanbar — pesquisadora interina sobre Israel e Palestina da HRW e autora do relatório — afirmou que 2026 já é o ano com o maior número de ataques de colonos judeus. "Infelizmente, o número continua a crescer — média de 6,6 ataques todos os dias. Estamos falando de um tipo de violência que não envolve de 'maçãs podres' ou delinquentes juvenis, como Benjamin Netanyahu referiu-se aos colonos judeus. São grupos organizados, apoiados pelo Estado de Israel", afirmou. "O governo fornece financiamento, armas e cobertura legal para cometerem ataques contra palestinos na impunidade."

Máximo e mínimo

De acordo com Sanbar, os colonos judeus compartilham a mesma meta do Estado de Israel: o máximo de terras e o mínimo de palestinos. "A Human Rights Watch está particularmente preocupada com a tensão crescente. As pessoas que entrevistamos disseram, repetidamente, que a sensação é de que não se trata de 'se', mas de 'quando' surgirá alguma faísca capaz de incendiar o que, cada vez mais, se transforma em um barril de pólvora de tensões", advertiu.

A pesquisadora da HRW admitiu que o padrão do que é considerado uma conduta aceitável nas hostilidades sempre foi muito mais baixo para os palestinos do que para outros povos. "O (massacre de) 7 de outubro apagou essa linha. Além disso, há um medo e uma preocupação muito reais entre os palestinos da Cisjordânia de que o governo israelense esteja buscando qualquer pretexto para fazer o que fez em Gaza", observou. "Instamos os Estados a agirem, inclusive proibindo o comércio com assentamentos, suspendendo transferência de armas  para Israel e sancionando tanto colonos violentos quanto autoridades envolvidas e responsáveis por graves abusos contínuos contra os palestinos."

Em relatórios anteriores, a HRW concluiu que Israel tem cometido crimes de limpeza étnica nos territórios palestinos. "O que o governo israelense está fazendo — segundo suas próprias palavras — é seguir uma política de 'máximo de terra, mínimo de palestinos'. O objetivo é tomar o máximo possível de terras palestinas, esvaziá-las de seus habitantes originais (o povo palestino) e incorporá-las a Israel", reiterou Sanbar. Ela vê a violência dos colonos como elemento central.

"Há duas maneiras pelas quais o governo israelense tenta alcançar seu objetivo de obter o máximo de terra com o mínimo de palestinos. A primeira é usar a violência dos colonos como ferramenta para expulsar os palestinos de suas terras e apropriar-se delas. E a segunda ocorre quando o Estado declara áreas como terras estatais e constrói assentamentos ilegais."

França, Itália, Reino Unido e Alemanha pediram que Israel ponha fim à expansão dos assentamentos na Cisjordânia e condenaram um enorme projeto de colonização. A nota diz respeito à licitação para a construção de 1.200 casas em uma área entre Jerusalém e o assentamento israelense de Maale Adumim. O projeto E1 aumentaria a separação entre a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, anexada por Israel e de população predominantemente palestina. 

EU ACHO... 

Sarah Sanbar, pesquisadora interina sobre Israel e Palestina da Human Rights Watch (HRW)
Sarah Sanbar, pesquisadora interina sobre Israel e Palestina da Human Rights Watch (HRW) (foto: Arquivo pessoal )

"Ao longo da fronteira da Cisjordânia, temos visto uma escalada de violência crescente, seja na forma de ataques de colonos, como os incêndios criminosos em Hebron, seja na forma de operações militares ou de 'contraterrorismo', conduzidas em resposta ao que é, fundamentalmente, a autodefesa dos palestinos. Eles estão defendendo suas casas contra os colonos judeus, que, de acordo com a Corte Internacional de Justiça, nem mesmo deveriam estar lá."

SARAH SANBAR, pesquisadora interina sobre Israel e Palestina da Human Rights Watch (HRW)

O homem confinado em sua própria casa

Desde 9 de agosto, a família do palestino-americano Loui Abu Ridi, 46 anos, está impedida de atravessar o portão de sua casa e sair à rua. Do lado de fora dos muros do imóvel localizado no vilarejo de Qusra, na Cisjordânia ocupada, colonos judeus permanecem em postura desafiadora, usam quadriciclos para perturbar o sossego e fazem ameaças. "Aqui, em casa, somos sete pessoas. Tenho uma grande preocupação com a nossa segurança e tememos pelas nossas vidas. Os colonos têm conseguido vir e assediar a minha casa. Depois que as Forças de Defesa de Israel (IDF) e a mídia internacional saírem, o que acontecerá? As IDF fracassaram e têm sido incapazes de retirar os colonos", desabafou Loui, ao responder às perguntas do Correio por meio de um vídeo. Loui retornou dos Estados Unidos à casa na última segunda-feira (17/8). 

De acordo com ele, a situação atual é "estressante, devastadora e aterrorizante". "Nossa família recebeu suprimentos das Nações Unidas antes de eu chegar de viagem dos EUA. Mas os alimentos estão escasseando. Nos últimos três dias, temos solicitado a familiares que vivem em Qusra que nos forneçam suprimentos", contou Loui.

Loui Abu Ridi (D) compartilha refeição noturna com familiares, em sua residência sitiada, na cidade de Qusra
Loui Abu Ridi (D) compartilha refeição noturna com familiares, em sua residência sitiada, na cidade de Qusra (foto: Ilia Yefimovich/AFP)

O palestino-americano explicou que as IDF não tem ajudado a reverter essa situação. "Os soldados também impõem um cerco a nós. Não nos permitem que nos movimentemos livremente. Os colonos têm vindo e cercado a nossa casa, e as IDF nada fazem sobre isso. Eles nos informaram que estão aqui para a nossa proteção e para a remoção dos colonos. Mas não é isso o que está acontecendo no terreno. Na segunda-feira, os colonos vieram e apertaram as mãos de soldados. Isso é devastador. Eles estão aqui, mas não fazem o seu trabalho", afirmou Loui. 

Na quarta-feira (19/8), Loui Abu Ridi colocou uma bandeira dos Estados Unidos na sacada da casa. Ele disse esperar que o governo de Donald Trump ponha fim ao cerco em Qusra. "Esperamos poder nos deslocar livremente entre as casas. Também queremos que os EUA movam os colonos permanentemete dessa área." Prefeito de Qusra, Abdelazim Wadim disse ao Correio que o cerco contínuo à região de Ras Al Ain, onde está a casa de Loui, chegou ontem ao 12º dia. "Os colonos estão jogando os móveis de uma das casas pelas janelas. O imóvel foi esvaziado e está sendo ocupado por parte dos soldados. Assim como houve 11 mártires na cidade de Alqusur, quando as casas foram invadidas. Meu irmão e meu sobrinho estão entre os mortos. O plano dos colonos é expulsar os palestinos de suas casas para então ocupá-las." (RC)

Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, mostra local onde são construídas forcas para palestinos
Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, mostra local onde são construídas forcas para palestinos (foto: X/Reprodução)

Ben-Gvir mostra "centro de enforcamento de palestinos"

Três dias depois de defender que Israel mate entre 30 e 40 moradores da Faixa de Gaza a cada noite, o ministro da Segurança Nacional israelense, Itamar Ben-Gvir, divulgou vídeo no qual mostra um complexo de forcas onde pretende executar palestinos condenados por crimes de terrorismo. "Prometi piorar as condições dos terroristas nas prisões — e cumprimos", disse Ben-Gvir no vídeo. "Prometi aprovar a lei da pena de morte para terroristas — e aprovamos. E agora, o corredor da morte e as instalações para enforcamento também estão começando a tomar forma." O local do complexo de forcas não foi identificado, e a imagem de um prédio ao fundo aparece borrada. 

  • Sarah Sanbar, pesquisadora interina sobre Israel e Palestina da Human Rights Watch (HRW)
    Sarah Sanbar, pesquisadora interina sobre Israel e Palestina da Human Rights Watch (HRW) Foto: Arquivo pessoal
  • Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, mostra local onde são construídas forcas para palestinos
    Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, mostra local onde são construídas forcas para palestinos Foto: X/Reprodução
  • Loui Abu Ridi (D) compartilha refeição com familiares em Qusra
    Loui Abu Ridi (D) compartilha refeição noturna com familiares, em sua residência sitiada, na cidade de Qusra Foto: Ilia Yefimovich/AFP
  • Google Discover Icon
postado em 21/08/2026 05:00
x