Estados Unidos

Ala progressista ganha força e desafia liderança democrata nos EUA

Figuras progressistas do Partido Democrata expõem fraturas no partido e tentam consolidar espaço, de olho nas eleições de meio de mandato. A deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o candidato ao Senado Abdul El-Sayed surgem como favoritos

A 79 dias das eleições legislativas de meio de mandato, uma onda da esquerda se aproveita da desconexão da liderança do Partido Democrata com sua base. Nas primárias internas da legenda, na última quarta-feira, os candidatos progressistas dividiram espaço com a ala mais ao centro, que conta com o apoio da cúpula democrata. As primárias são consideradas um termômetro para a disputa presidencial de 7 de novembro de 2028. Em Minnesota, a candidata de esquerda Peggy Flanagan derrotou, com 59% dos votos, a moderada Angie Craig e será a postulante a ocupar a vaga da senadora Tina Smith. Em 4 de agosto passado, o também progressista Abdul El-Sayed, 41 anos, venceu Haley Stevens, candidata do establishment do partido, e disputará o Senado pelo estado do Michigan. Caso vença, será o primeiro senador muçulmano e anti-Israel da história do Capitólio.

Filho de egípcios, El Sayed se desponta como possível nome para retomar o controle da Casa Branca para os democratas. O triunfo apertado nas primárias se explica pelo apoio do senador Bernie Sanders e da deputada Alexandria Ocasio-Cortez, outra figura expoente que se impõe como um forte nome para a corrida presidencial. Em Wisconsin, o centrista David Crowley ganhou da deputada estadual esquerdista Francesa Hong, nas primárias para a disputa pelo governo do estado. Apesar do revés, os progressistas têm avançado e colocado em questionamento a posição da liderança, assim como as chances de vitória em 2028. A fragmentação partidária ficou evidente na campanha de Flanagan. Ela se contrapôs abertamente à cúpula democrata em temas como saúde pública e salário mínimo. 

Michael M. Santiago/Getty Images/AFP - Zohran Mamdani, prefeito de Nova York: ascensão meteórica

A eventual conquista da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, em 3 de novembro, é considerada um jogo de sobrevivência política e de estratégia para os democratas, pensando em 2028. O domínio de ambas casas dificultaria a governabilidade do republicano Donald Trump, que contaria apenas com a Suprema Corte dos Estados Unidos. O impulso da ala progressista ganhou força com a eleição de Zohran Mamdani para a Prefeitura de Nova York, em 4 de novembro de 2025. 

Alex Wroblewski/AFP - A deputada Alexandria Ocasio-Cortez: cotada para a Casa Branca

Professor do Departamento de Governo e Política da Universidade de Maryland, o cientista político David Karol reconhece que existem divisões internas entre os democratas que eram muito menos evidentes durante o governo de Barack Obama (2009-2017). "A atual facção da esquerda, que inclui os Socialistas Democratas da América (DSA, pela sigla em inglês) e outros grupos 'progressistas', vem ganhando terreno nos Estados Unidos", afirmou ao Correio. Ele explicou que essa ascensão tem ocorrido de forma gradual, desde a primeira campanha presidencial de Bernie Sanders, em 2016. "Apesar de terem conquistado avanços notáveis este ano, eles não representam uma ameaça imediata aos líderes do partido na Câmara e no Senado. Esse aumento do faccionalismo pode complicar o trabalho dos líderes, mas, embora essa facção seja recente, as divisões entre os democratas não são", disse o estudioso. 

Sem dificuldades

De acordo com Karol, a maioria dos progressistas que venceram as primárias internas democratas e conquistaram a candidatura para as eleições de meio de mandato concorrerão em estados ou distritos tradicionalmente democratas. "Eles não terão dificuldades para vencer, mesmo que isso signifique desagradar a alguns moderados. A exceção é Abdul El-Sayed, pois Michigan tem se revelado um estado 'roxo' (onde os eleitores estão divididos igualmente entre democratas e republicanos. Mesmo assim, El-Sayed é o favorito, simplesmente porque será um bom ano para os democratas em nível nacional", avaliou.

Outro nome da ala esquerda que teria possibilidades de vitória seria Francesca Hong. "Se ela tivesse ganho a primária para governador, seria mais uma candidata democrata em um estado indeciso. No entanto, Francesca perdeu. Em parte, porque os democratas temiam que ela perdesse a disputa pelo comando de Wisconsin", acrescentou Karol. 

Para Costas Panagopoulos, professor de ciência política da Notheastern University (em Boston), as chances de um candidato democrata progressista vencer as eleições legislativas dependerá de muitos fatores, incluindo quem são seus oponentes e em que eles acreditam. "Os eleitores ainda farão cálculos sobre quais visões dos candidatos se aproximam da realidade de suas cidades, mesmo quando confrontados duas alternativas de extremos opostos", disse ao Correio. 

Panagoulos considera prematuro pensar seriamente em candidatos à Presidência dos Estados Unidos e acredita ser necessário esperar até que "a poeira das eleições de meio de mandato se assente". "Por saberem quão crucial seria conquistar a maioria no Senado federal, os democratas que concorrerão em disputas acirradas para a casa são, provavelmente, os mais importantes para a capacidade do partido de resistir à agenda do presidente Donald Trump."

Eu acho...

Arquivo pessoal - David Karol, professor do Departamento de Governoe Política da Universidade de Maryland

"A principal candidata presidencial entre os progressistas é Alexandria Ocasio-Cortez. Há possibilidades menos conhecidas que podem entrar na disputa, especialmente se ela não se candidatar, incluindo Ro Khanna e Chris Van Hollen. Se considerarmos as 'estrelas' das primárias, eu incluiria Abdul El-Sayed, que pode se tornar o primeiro senador muçulmano, e Brad Lander, que será um novo membro do Congresso por Nova York. Judeu, é muito crítico de Israel."

David Karol, professor do Departamento de Governoe Política da Universidade de Maryland

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