A fotografia suja de duas crianças deixada sobre uma colchão coberto de terra endurecida. Um retrato de cabeça para baixo abandonado na parede de uma casa destruída pela enxurrada. Um coelho de pelúcia encontrado na margem do rio. A imensa parede de lama arrastou tudo pela frente e deixou para trás pedaços de memórias de famílias que desapareceram em segundos, além de um alerta sobre o impacto devastador do aquecimento global. Enquanto o Nepal registrava 680 mortos e mais de 3 mil desaparecidos depois do colapso da geleira, do deslizamento de terra e da consequente inundação de quarta-feira (26/8), o ministro das Relações Exteriores do país fazia um apelo ao mundo. "O Nepal emite menos de 0,01% dos gases do efeito estufa, mas nós, o povo nepalês, estamos entre as maiores vítimas da mudança climática. Apelamos à comunidade internacional para que se una na proteção dos ecossistemas do Himalaia", declarou Shisir Khanal, que conversou por telefone com o chanceler chinês, Wang Yi, sobre a catástrofe.
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Wang afirmou que a China compartilhou com o governo nepalês "informações cruciais, incluindo imagens da área do desastre, dados de satélite e hidrológicos, bem como alertas antecipados sobre lagos de barreira a montante". "A China e o Nepal estão unidos por montanhas e rios, compartilhando um destino comum", destacou. Ainda que a exata razão para o colapso não ter sido definida, a mudança climática causa o derretimento de geleiras em todo o mundo e desestabiliza a Cordilheira do Himalaia.
Geólogo da Universidade Graz (na Áustria), Jakob Steiner classificou como correta a decisão de Shisir Khanal. "Os nepaleses estão certos em apelar por uma aliança contra a mudança climática. Eventos como o da última quarta-feira somente poderão ser evitados se todos os países mudarem o comportamento. O Nepal, sozinho, não pode provocar essa transformação", disse ao Correio. "O recuo das geleiras causado pelo aquecimento global aumentou a probabilidade de tragédias como as de última quarta-feira tornarem a ocorrer, ao expor a rocha que cedeu."
Secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, Simon Stiell declarou que "o colapso repentino da geleira e a enxurrada súbita são um lembrete devastador de quão frágeis podem ser esses ambientes montanhosos". "Sabemos que o aquecimento global, provocado pela queima de quantidades colossais de carvão, petróleo e gás pela humanidade, está tornando tragédias como essa, e tantas outras em todo o mundo, muito mais prováveis, frequentes e graves, e que as comunidades vulneráveis são muitas vezes as mais afetadas", ressaltou o chefe de clima da ONU.
Entre os mais de 3 mil desaparecidos desde quarta-feira, estão 898 nepaleses que trabalhavam em projetos de uma usina hidrelétrica na fronteira entre China e Nepal. Muitos operários estariam presos em túneis escavados às margens de rios. O governo nepalês solicitou a ajuda de especialistas chineses e indianos para somar esforços nas tentativas de resgate dos operários. Neste sábado (29/8), socorristas bombeavam ar para dentro de uma das centrais hidrelétricas em obras.
Decomposição
O ministro Shisir Khanal também pediu que outros países enviem freezers para a conservação dos corpos. "Existe o risco de rápida decomposição, porque os cadáveres ficaram na água por um longo período", comentou. A emissora britânica BBC divulgou que sepultamentos ocorrem em distintas regiões do Nepal. "Decidiu-se enterrá-los sistematicamente em áreas governamentais, comunitárias ou florestais, para que os corpos e restos mortais possam ser entregues àqueles que vierem procurá-los mais tarde", anunciou um porta-voz do Ministério da Saúde. O chanceler nepalês estima que a reconstrução das áreas afetadas custará "vários bilhões de dólares".
A força da enxurrada de lama foi tamanha que sete corpos foram encontrados dezenas de quilômetros rio abaixo, no norte da Índia. "As pessoas querem recuperar os corpos de seus parentes, vivos ou mortos, mas não conseguimos encontrá-los (...) elas só veem a lama", disse Kawan Koirala, membro da Equipe de Resposta a Desastres no Nepal, em entrevista à agência France-Presse (AFP), ao admitir que as buscas prosseguem com dificuldade. "É muito traumático para mim também. É a primeira vez que vejo algo assim. Tem lama por toda parte. Já tivemos enchentes no Nepal antes, mas não como esta", acrescentou.
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A inundação atingiu vilarejos e deixou milhares de desabrigados à margem do rio. "Minha família, felizmente, está a salvo. Mas perdemos a nossa casa e tudo o que tínhamos foi devastado. Estamos tentando descobrir como reconstruir nossas vidas", afirmou ao Correio Sonu Adhikari. Ela contou que estava em Katmandu no momento da catástrofe e conseguiu ter notícias dos pais. "Eles conseguiram correr para fora de casa."
EU ACHO...
"É preciso divulgar essas histórias trágicas para que as pessoas se conscientizem de que isso pode acontecer novamente, inclusive em seus próprios países. O impacto para a população no Nepal é trágico (como ocorre em qualquer desastre desse tipo). As pessoas precisam entender que suas atitudes — incluindo o uso de recursos e a queima de combustíveis fósseis — têm consequências."
JAKOB STEINER, geólogo da Universidade Graz (na Áustria)
