ONU pede aliança sobre segurança da inteligência artificial
António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, defende uma coordenação internacional para debater os perigos da IA e fala em "corrida ao abismo". Canadá e Alemanha prometem desenvolver a nova tecnologia "a serviço da população"
António Guterres, secretário-geral da ONU: "O mundo não pode se dar ao luxo de uma corrida rumo ao abismo em matéria de segurança da IA" - (crédito: Pablo PORCIUNCULA / AFP)
No dia em que o papa Leão XIV expressou preocupação com o avanço dos algoritmos na tomada de decisões que caberiam ao ser humano, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, defendeu uma "coordenação global" para lidar com os riscos da inteligência artificial (IA) e advertiu sobre uma "corrida ao abismo". "O mundo enfrenta três ameaças existenciais: a IA fora de controle, a crise climática e o aprofundamento intolerável das desigualdades", disse o chefe da ONU. "Na próxima semana, líderes mundiais se reunirão na Assembleia Geral. Minha mensagem a eles: a cooperação internacional é mais importante do que nunca", alertou, em mensagem publicada na rede social X. Em outro momento, durante entrevista coletiva, o chefe da ONU admitiu que a ação em nível nacional é "essencial"; no entanto, considerou "indispensável" a aliança internacional. "A IA não respeita fronteiras e tampouco seus riscos", destacou.
"Os governos devem assumir suas responsabilidades. A primeira responsabilidade de qualquer governo é proteger seus cidadãos, inclusive contra as ameaças relacionadas à inteligência artificial", lembrou Guterres. O diplomata português acrescentou: "A inteligência artificial tem um potencial enorme para acelerar o desenvolvimento sustentável, melhorar o aprendizado, fortalecer os sistemas de saúde, impulsionar a resiliência climática e muito mais. Mas um número crescente daqueles que a desenvolvem está soando o alarme, advertindo que o avanço está ocorrendo mais rápido do que a nossa compreensão dos riscos". "O mundo não pode se dar ao luxo de uma corrida rumo ao abismo em matéria de segurança da IA", aconselhou Guterres, que terminará seu mandato em 107 dias.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
A diplomata equatoriano-libanesa Ivonne A-Baki, candidata a suceder Guterres, cobrou que a IA seja regulamentada da mesma maneira que o arsenal nuclear. "Estamos quase à beira de uma Terceira Guerra Mundial... E é a mais perigosa. Dessa vez não será somente o perigo nuclear, mas também a IA", declarou à agência France-Presse A-Baki, cujos laços estreitos com o presidente americano, Donald Trump, forjados durante várias etapas como embaixadora do Equador em Washington, poderiam ajudá-la a se destacar entre os oito candidatos a chefiar a ONU. "O presidente Trump e o presidente Xi Jinping (...) não deveriam competir. Deveriam cooperar."
Ética
Diante da preocupação mundial, os governos de Canadá e Alemanha comprometeram-se a colaborar no desenvolvimento de uma inteligência artificial "a serviço da população". Ministro de Inteligência Artificial do Canadá, Evan Solomon admitiu que nenhum país pode lidar, sozinho, com o tema e anunciou uma aliança com Berlim para "criar uma IA ética, de acordo com nossos valores". Por sua vez, Karsten Wildberger, ministro alemão da Digitalização, esclareceu que seu país e o Canadá almejam "transformar a pesquisa em produtos confiáveis" de IA, mantendo "compromisso com a democracia e os valores".
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que reuniria grandes atores do setor da IA para apoiar os esforços voltados a desacelerar o desenvolvimento dos modelos mais potentes.
Relatório do Fórum Econômico Mundial (WEF) e do Linkedin revela que a IA pode agravar as desigualdades de gênero no mercado de trabalho. "Os cargos que estão sendo afetados pela IA tendem a ser aqueles em que há uma concentração especial de mulheres", disse Saadia Zahidi, do comitê executivo do WEF. Empregos de escritório qualificados que atraíram muitas mulheres têm sido transformados pela IA.
Papa Leão XIV acena para fiéis ao chegar para a audiência geral, na Praça de São Pedro
(foto: Filippo Monteforte/AFP)
Papa faz alerta contra a dependência dos algoritmos
O papa Leão XIV voltou a fazer um alerta contra a tentação de delegar aos algoritmos decisões que competem exclusivamente à responsabilidade humana, em um contexto de crescente inquietação com os rumos da inteligência artificial (IA). O pontífice americano dedicou sua primeira encíclica, Magnifica Humanitas ("Magnífica humanidade"), publicada em maio, à IA, com um apelo para "desarmar" essa tecnologia para "impedir que domine o humano"."O desenvolvimento tecnológico, a difusão dos meios de comunicação de massa e das redes sociais, o recurso cada vez maior à inteligência artificial abrem novas possibilidades, ao derrubar barreiras e distâncias", declarou o pontífice durante a audiência geral semanal no Vaticano. "Por outro lado, as relações tendem a se tornar cada vez menos pessoais, cada vez mais virtuais, e corremos o risco de nos acostumarmos a delegar aos algoritmos decisões que competem apenas à consciência humana. (...) Velar para que as relações sociais tenham uma verdadeira consistência e uma profundidade pessoal é, nesse sentido, a contribuição que a comunidade cristã se propõe a oferecer."
Zuckerberg rejeita apelos
Mark Zuckerberg, CEO da Meta, rejeitou os apelos para suspender ou desacelerar o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA), por considerar que os mecanismos de mercado e o risco de ações judiciais constituem as melhores salvaguardas diante desta tecnologia. "As pessoas não vão querer usar agentes que estejam desalinhados com elas e que não façam o que elas pedem, então os laboratórios têm um forte incentivo natural para tornar seus modelos mais alinhados", escreveu Zuckerberg no X. O "alinhamento" é uma referência aos esforços para conseguir fazer com que os modelos se comportem exatamente como os humanos desejam. "Qualquer laboratório que não focar no alinhamento ficará para trás", acrescentou o CEO da Meta.