Antes marcadas para ocorrer até 22 de agosto de 2027, as eleições gerais da Espanha serão realizadas ainda este ano, após o primeiro-ministro Pedro Sánchez ceder à pressão e antecipar a votação. Fragilizado no Congresso, o chefe de governo tomou a decisão após derrotas impostas pelos legisladores ao Executivo, ao não aprovar dois decretos que buscavam enfrentar a crise de moradia. "Decidi convocar um Conselho de Ministras e Ministros extraordinário ainda nesta manhã para dissolver as Cortes Gerais e convocar eleições gerais" em 29 de novembro, declarou o líder socialista, durante mensagem de vídeo no Palácio de Moncloa, sede da Presidência do Governo, em Madri. "Devemos nos mobilizar e fazer com que o Parlamento nos conceda uma maioria muito mais ampla e progressista, com a qual possamos dobrar as elites."
- Por que a Espanha, que construía casas demais, vive hoje uma grave crise de moradia
- Estudantes tomam as ruas das principais cidades da França
Sánchez deposita a esperança de fortalecer a representatividade de seu partido no Congresso e assegurar a renovação do próprio mandato. "Para fazer mais, precisamos renovar e ampliar o apoio das pessoas", admitiu, ao reforçar os planos de levar adiante as reformas pendentes e diminuir os níveis de desigualdade social. A aposta é a de que a insatisfação popular promova uma reestruturação de parte do Legislativo e que o Congresso, redesenhado, se alinhe às políticas de Moncloa em relação à crise da moradia.
Dois dos sindicatos da Espanha — o Comisiones Obreras (CCOO) e a Unión General de Trabajadores (UGT) — acordaram uma greve geral, uma demanda do Sindicato de Inquilinos. O jornal El Mundo divulgou que a paralisação, de 24 horas, deve ocorrer antes de 13 de novembro.
A manobra do primeiro-ministro não está livre de risco. As sondagens de intenção de voto indicam que o Partido Popular (PP), de oposição, aparece à frente dos socialistas, mesmo que sem formar maioria absoluta. Com isso, o PP precisaria de alianças para garantir a governabilidade. Uma tarefa complicada: o partido de extrema-direita Vox, atualmente a terceira força política da Espanha, desponta como um dos atores-chave. "Os espanhóis decidirão. O que me motiva é servir ao meu país para deixar para trás esta fase sombria e iniciar uma nova, que reúna a todos os espanhóis", declarou Alberto Núñez Feijóo, líder do PP. O opositor prometeu não aumentar os impostos.
"Decisão lógica"
Professor de ciência política e diretor do Departamento de Ciências Sociais da Universidad Carlos III de Madrid, Pedro Riera disse ao Correio que considera a medida anunciada por Sánchez uma "decisão lógica". "Depois de muito tempo, fala-se, pela primeira vez, de um tema que pode ser benéfico para os interesses eleitorais do premiê. Além disso, o seu partido não conta com maioria parlamentar para aprovar leis", explicou. "Em qualquer situação, Sánchez precisaria convocar as eleições em julho de 2027. Aconteça o que acontecer, eleições teriam de ser convocadas, o mais tardar, até julho de 2027, e há o receio de que — ao chegar maio — o pouco poder territorial do premiê pudesse ser perdido, caso não convocasse uma eleição."
A Espanha enfrenta uma crise associada ao preço bastante elevado da moradia. "Com os decretos, o governo tenta solucionar o problema, nem que seja de maneira parcial ou temporal", comentou Riera. Os sindicatos e coletivos que protestam contra a majoração no valor dos aluguéis reagiram com indignação à rejeição da medida no Congresso. O último grande protesto, no sábado, mobilizou dezenas de milhares de pessoas em Madri e em outras cidades.
Desde 28 de setembro, manifestantes mantêm acampamento na Praça Puerto del Sol, no centro de Madri, para pressionar pelas reformas. "Agora começa uma campanha eleitoral que estará profundamente marcada pela moradia", disse Alicia del Río, porta-voz do Sindicato de Inquilinos. "Esta onda de indignação é imparável."
EU ACHO...
"A figura do primeiro-ministro Pedro Sánchez está combalida não necessariamente por antecipar as eleições. Depois de oito anos de governo e de muitos escândalos, trata-se de uma figura que, de modo geral, está desgastada."
PEDRO RIERA, professor associado de ciência política e diretor do Departamento de Ciências Sociais da Universidad Carlos III de Madrid
O SÍMBOLO DA REVOLTA
O despejo de uma idosa desencadeou uma série de protestos em Madri e em outras cidades espanholas. Maricarmen Abascal, 87 anos, torno-se símbolo das dificuldades de acesso à moradia no país. Ela foi forçada a deixar o apartamento em que viveu durante sete décadas, depois que o imóvel foi adquirido por uma empresa de investimento que pretendia aumentar o aluguel em 275%.
