
O pronunciamento dos 174 milhões de eleitores inscritos, nesta terça-feira (3/11), nas eleições legislativas de meio de mandato, determinará os próximos dois anos de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Reprovado por dois terços dos norte-americanos, como mostram as pesquisas de opinião, o magnata do mercado imobiliário chega à metade do segundo — e último mandato — tendo pela frente o risco elevado de encenar, na despedida, o papel do "pato manco". É o nome que o jargão político do país cunhou para o governante que perde a maioria no Congresso: sem a opção legal de lutar por novo mandato em 2028, Trump contempla a possibilidade real de passar os próximos dois anos assistindo à oposição democrata dar as cartas em Washington.
Quase 50 milhões de cidadãos habilitados tinham comparecido às urnas ou enviado o voto pelo correio até o fim da semana passada. A maioria era formada por eleitores que se identificam oficialmente como adeptos do Partido Democrata. Somado ao roteiro descrito nos últimos meses pelas sondagens, o dado sobre o voto antecipado parecia confirmar uma tendência desfavorável ao presidente. Nos últimos dias de campanha, Trump e seus aliados acirraram os ataques, mas confrontam dados desfavoráveis naquilo que, historicamente, orienta os eleitores na hora do voto: o bolso. Com a inflação e o custo de vida em alta, puxados pelos combustíveis — um desdobramento da guerra iniciada por Trump contra o Irã, há oito meses —, pesquisadores e analistas discutem apenas o alcance da derrota à vista.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Impeachment
A vitória da oposição é dada como certa na Câmara dos Deputados, mas uma parcela considerável dos observadores considera real a possibilidade de uma virada também no Senado, o que deixaria o presidente ainda mais vulnerável, inclusive a um processo de impeachment. "Os democratas têm deixado claro que o seu objetivo é conter os avanços autoritários de Trump, e isso passa obrigatoriamente pelo processo de impeachment", disse ao Correio Roberto Uebel, coordenador do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (Nenam) da ESPM. "A dúvida que paira é se farão um processo que leve à destituição, o que precisaria de dois terços do Senado, ou se farão um processo longo, para desgastar ao máximo o governo e o Partido Republicano, haja vista as pretensões eleitorais para 2028."
Juliano Cortinhas, professor de relações internacionais da UnB, faz aposta semelhante, ainda que a oposição conquiste a maioria também no Senado. "Se os democratas vencerem nas duas casas, vão abrir o processo de impeachment, mas não vão remover Trump", avalia Cortinhas, que chama a atenção para o papel que poderia jogar, até a sucessão, o vice de Trump, JD Vance. "Valerá mais a pena, para a oposição, sangrar o presidente por mais dois anos, impedi-lo de alcançar vitórias na frente doméstica e, a partir daí, tentar construir uma candidatura forte para vencer em 2028."
"A Presidência não está em disputa, mas a força política de Trump está", analisa Ana Clara Turci, pesquisadora do Nenam/ESPM. Ela lembra que, com aprovação na casa de 32%, um recorde negativo histórico para ocupantes da Casa Branca, o presidente verá sua liderança corroída "inclusive dentro do Partido Republicano", onde aspirantes à presidência tenderão a afastar-se de um titular rejeitado pelos eleitores. "Ele ainda poderia recorrer às ordens executivas, como já vem fazendo, e manteria seu poder de veto", pondera, "mas os parlamentares começariam a pensar também nas eleições de 2028". No fim, diz a estudiosa, "o que está em jogo é a capacidade de Trump de continuar impondo sua agenda política nos próximos dois anos".
Guerra em xeque
Em meio a versões controversas sobre uma possível retomada dos ataques em larga escala ao Irã, como vem sendo defendido pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, os especialistas ouvidos pelo Correio tendem a considerar que uma condenação nas urnas pode empurrar Trump e o Partido Republicano para uma ênfase maior em temas como inflação e custo de vida, apontados nas pesquisas como os calcanhares de Aquiles do presidente na votação que se encerra amanhã.
"Em uma eventual vitória democrata nas duas casas, podemos ver Trump mudando o seu curso de ação com foco em questões internas, em detrimento de agendas externas", arrisca Roberto Uebel. "Trump ainda está testando o que e quanto pode fazer com o Irã", avalia Cortinhas, da UnB. "Não vejo que ele tenha um plano claro para a guerra, e acho que continuará sem ter, depois das eleições. Elas vão ter uma repercussão maior na política doméstica."
"Acredito que o principal impacto será na economia e no orçamento, especialmente porque o custo de vida é hoje uma das maiores preocupações dos norte-americanos", reforça a pesquisadora do Nenam/ESPM. "Se os democratas conquistarem a Câmara, como esperado, Trump terá mais dificuldade para aprovar suas propostas sobre impostos, gastos públicos e imigração, além de enfrentar uma fiscalização maior sobre as decisões do governo, e podemos esperar também mais disputas em torno das tarifas comerciais e do orçamento federal."
Cortinhas, da UnB, vê na esperada derrota eleitoral do presidente um efeito "mais simbólico do que prático". O objetivo buscado agora pela oposição democrata, diz, "é colocar um freio" na índole autocrática do presidente e, a partir disso, "tentar fazer a reviravolta daqui a dois anos", quando estará de novo em jogo a Casa Branca. "A eleição de amanhã é fundamental para preparar esse movimento."
Saiba Mais
Uma disputa concentrada
Nominalmente, trata-se de uma eleição nacional para a renovação do Congresso. Na prática, porém, os 174 milhões de eleitores norte-americanos estão convocados para um amontoado de eleições localizadas. No Senado, são 35 cadeiras em disputa em igual número de estados. Na Câmara, o cenário é ainda mais pulverizado: pelo sistema eleitoral do país, serão, na realidade, 435 eleições majoritárias em igual número de distritos.
Na prática, porém, o controle da Câmara estará realmente em jogo em um número restrito de disputas: 18, segundo estudo da consultoria Cook Political Report. Na legislatura que se encerra, o Partido Republicano, de Donald Trump, tem a maioria com 219 deputados, contra 214 do Partido Democrata. Em sua avaliação, a consultoria soma para a oposição 168 candidaturas "sólidas", 18 "prováveis" e 18 "possíveis" — no total, 222, quatro além da maioria de 218. Para os republicanos, estariam certas 164 cadeiras, com mais 14 "prováveis" e 17 "possíveis".
Nos 18 distritos julgados decisivos, estão em jogo 14 mandatos governistas e apenas quatro da oposição. Os observadores do cenário eleitoral selecionam alguns alvos principais de atenção, considerando a extensão dos fusos horários nos EUA. Em primeiro lugar, a porção norte da Costa Leste, onde as urnas serão fechadas em primeiro lugar, em particular em distritos da Virgínia e da Pensilvânia onde desafiantes democratas ameaçam candidatos republicanos à reeleição.
Com o passar das horas, no entanto, as atenções se voltarão para as regiões Sul e Meio-Oeste. Em 2022, na onda da vitória de Donald Trump para a Casa Branca, o Partido Democrata perdeu cadeiras em distritos onde mantinha hegemonia. Agora, o desgaste do governo federal, com a inflação em alta e a economia estagnada, insinuam uma "onda azul" — a cor da legenda de oposição.
As atenções se projetam, mais a oeste, para o Texas, estado onde o Partido Republicano tem sido hegemônico. Lá, a política de Trump de linha dura contra a imigração está custando votos entre a numerosa comunidade latina. Afora vagas preciosas na Câmara, esse sentimento de rejeição ao presidente pode dar aos democratas uma cadeira no Senado, a primeira no estado em quase quatro décadas. (SQ)
Esportes
Política