
O turismo de negócios no Brasil vive uma efervescência impulsionada pelo mercado corporativo internacional, registrando recordes históricos de faturamento neste ano. No acumulado de janeiro a setembro, o setor movimentou R$ 11,07 bilhões — alta de 7,41% na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo levantamento da Associação Brasileira de Agências de Viagens Corporativas (Abracorp), validado pelo Ministério do Turismo.
Por trás desse desempenho, o salto de mais de 70% na chegada de visitantes vindos da China tem sido um dos principais catalisadores para impulsionar negociações de novos voos diretos entre os dois países e direcionar investimentos em infraestrutura, destaca o ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, em entrevista ao Correio.
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"Estamos avançando de forma consistente na negociação com mercados estratégicos e de altíssimo potencial, como a China, buscando restabelecer e inaugurar voos diretos que facilitem a chegada de investidores, executivos e delegações comerciais ao solo brasileiro", afirma. Segundo ele, a pasta tem adotado estratégias de descentralização de eventos focados em mercados. A seguir, os principais trechos da entrevista:
O turismo de negócios bateu o recorde de R$ 11,07 bilhões de faturamento entre janeiro e setembro, conforme dados da Abracorp. Qual a participação do público estrangeiro e, especialmente, dos turistas chineses nesse resultado?
Os números confirmam a importância vital desse segmento para a economia nacional, atuando como um poderoso motor da geração de empregos, do aumento da renda e da atração de investimentos. Esse desempenho é uma demonstração de que o Brasil está no radar dos grandes eventos globais. A diversidade dos nossos visitantes mostra que o interesse pelo país transcende fronteiras. Temos a Argentina como maior emissora histórica, seguida por Chile, Estados Unidos, Uruguai, Paraguai, França e Portugal. Paralelamente, temos tido uma forte alta na chegada de chineses: de janeiro a setembro, foram mais de 135 mil turistas do país, uma alta superior a 70% em relação ao mesmo período do ano anterior. Trata-se de executivos, investidores e delegações comerciais que viajam com foco em negócios e apresentam elevado poder de gasto.
O que o ministério tem feito para garantir conexões diretas com polos distantes como a China?
Trabalhamos especialmente na ampliação da conectividade aérea, compreendendo que nenhum polo — corporativo ou de lazer — se consolida sem rotas frequentes e competitivas. Estamos avançando de forma consistente na negociação com mercados estratégicos e de altíssimo potencial, como a China, buscando restabelecer e inaugurar voos diretos que facilitem a chegada de investidores, executivos e delegações comerciais ao solo brasileiro. Paralelamente, reforçamos a integração regional, com destaque para o acordo de liberalização aérea na América do Sul.
Como o ministério tem trabalhado com a aviação comercial para expandir rotas e manter esse ritmo de crescimento no turismo?
O transporte aéreo é a espinha dorsal do turismo de negócios, especialmente quando pensamos em atrair investidores para polos do interior. Em parceria com o Ministério de Portos e Aeroportos e as concessionárias, temos atuado para estruturar regionalmente a infraestrutura de terminais e atrair novas frequências de companhias aéreas. O turismo corporativo necessita de previsibilidade e malha frequente. A nossa meta é garantir que o avanço do turismo de negócios não fique retido apenas nas grandes capitais, mas chegue com força às cidades médias que despontam como polos do agronegócio, da indústria e de serviços.
O tíquete médio do turista de negócios é superior ao do visitante convencional. Como o senhor avalia a permanência e o perfil desse viajante corporativo nos destinos brasileiros?
Historicamente, conforme levantamentos de entidades setoriais, profissionais em viagens a negócios costumam permanecer, em média, de três a cinco dias na localidade. Trata-se de uma estadia dinâmica, pautada pela agenda de eventos e reuniões, mas também aberta ao conceito "bleisure", que é a extensão da viagem de negócios para momentos de lazer e descanso. O impacto desse tipo de turismo na economia local é extremamente expressivo, até porque os viajantes corporativos consomem serviços de hotelaria de alto padrão, gastronomia diversificada e transporte qualificado. Além de manter a ocupação hoteleira aquecida, o turismo de negócios dinamiza pequenos negócios locais, estimula a contratação de mão de obra temporária especializada e gera receitas fundamentais aos municípios anfitriões. Viajantes vindos de mercados de longa distância, como China, Estados Unidos e Europa, têm renda mais elevada e realizam viagens mais extensas, o que, naturalmente, eleva o gasto médio total no destino.
O faturamento recorde do setor ainda se concentrou bastante nas regiões Sudeste e Sul. Como a pasta atua para descentralizar a recepção de feiras e congressos corporativos?
Temos atuado de forma decisiva e planejada no sentido de consolidar essa realidade e descentralizar o fluxo de eventos corporativos, por meio do fortalecimento e da modernização da infraestrutura voltada à recepção de grandes encontros. Atualmente, temos quase 30 contratos de repasse com estados e municípios que totalizam a aplicação de mais de R$ 100 milhões na construção e na reforma de centros de convenções. Alguns exemplos são o Centro de Eventos Oscar Niemeyer, em Maringá (PR), e o Centro de Convenções Senador Nilo Coelho, em Petrolina (PE), cidades que despontam como motores econômicos regionais.
Além das obras físicas, quais instrumentos de crédito e desburocratização foram acionados para sustentar o avanço hoteleiro e de serviços?
Adotamos a Ficha Digital de Hóspedes, mecanismo que agiliza o check-in dos clientes e reduz custos operacionais. Também atuamos no fomento financeiro ao setor produtivo por meio do Fundo Geral de Turismo (Fungetur), que conta com mais de R$ 1 bilhão para financiamentos a empreendedores turísticos de todo o país. Estendemos o Fungetur aos MEIs inscritos no CadÚnico e no Cadastur. Eles contam com apoio do Sebrae na elaboração das propostas e não precisam apresentar garantias, graças à cobertura do Fundo de Garantia de Operações (FGO).
Com os resultados acumulados até setembro, qual é a expectativa da pasta para o fechamento do ano?
Nossa expectativa é a consolidação de marcas históricas inéditas. O turismo corporativo segue aquecido no último trimestre com feiras e balanços anuais, e agora se soma à alta temporada de fim de ano e verão, quando o litoral e o ecoturismo recebem forte fluxo de visitantes nacionais e estrangeiros. Essa combinação entre a força contínua dos negócios e o pico do lazer vai injetar recursos vitais na economia, beneficiando desde o pequeno prestador de serviço cadastrado no Cadastur até as grandes cadeias produtivas do setor.
O ministério possui estudos em andamento para traçar um raio-X mais detalhado sobre quem é esse viajante de negócios e como ele se comporta nos destinos nacionais?
Sim. Esses e outros dados detalhados sobre o perfil, a faixa etária, a origem e a motivação do público corporativo serão mapeados em profundidade na Pesquisa Nacional de Demanda Turística, um levantamento amplo que está sendo executado neste ano pelo Ministério do Turismo em 50 cidades estratégicas espalhadas por todas as cinco regiões do país. O levantamento fornecerá um profundo diagnóstico das características de quem viaja pelo Brasil, inclusive a trabalho e em eventos corporativos. Com esse estudo em mãos, teremos informações científicas essenciais para embasar e direcionar nossos esforços de promoção internacional, além de orientar a aplicação de recursos públicos em infraestrutura de acordo com as demandas reais e atuais do setor.
Esse recorde no faturamento e no fluxo de turistas de negócios está se refletindo no mercado de trabalho?
Importante ressaltar que esse resultado não ocorre de forma isolada, mas se insere em um contexto amplo de sucessivos recordes do Brasil no turismo, combinando a alta na chegada de visitantes internacionais com o aumento expressivo de brasileiros viajando pelo país, com importantes reflexos na geração de empregos — que é uma prioridade central do governo Lula. O turismo brasileiro alcançou, hoje, o maior estoque total de empregos da sua história, ultrapassando a marca de mais de 2,42 milhões de pessoas ocupadas diretamente no setor. Esse contingente equivale a 5% de toda a força de trabalho ativa no país, demonstrando que o segmento de negócios atua como um vertiginoso motor de renda, estabilidade e oportunidade de trabalho para a população brasileira em todas as regiões.
Quais as principais portas de entrada desses visitantes no Brasil e onde eles mais consomem?
Quanto às principais portas de entrada do fluxo internacional no país, há um forte destaque para São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Bahia e Pernambuco — estados que combinam hubs aéreos modernos e estruturados com uma importante infraestrutura rodoviária de fronteira. O volume financeiro que ingressa no Brasil por meio do turismo internacional tem crescido em ritmo superior ao próprio aumento do número de chegadas, o que confirma que o visitante estrangeiro vem realizando gastos mais elevados ao longo da sua permanência. Esse público tem ampliado a procura por novas experiências, destinando mais recursos para a hotelaria diferenciada, gastronomia regional de alto padrão e passeios voltados ao ecoturismo. Esse movimento faz com que o dinheiro não fique represado apenas nos serviços essenciais de transporte e hospedagem, mas irrigue a economia local de ponta a ponta, beneficiando diretamente pequenas empresas, artesãos, condutores e guias de turismo regionais.
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