Christiany Fonseca — cientista política e doutora em sociologia pela Ufscar
O primeiro reflexo do Brasil polarizado diante da intervenção dos Estados Unidos na Venezuela não foi geopolítico. Foi tribal. As torcidas que hoje organizam o debate político entre bolsonarismo e esquerda correram para interpretar o que acontecia no país vizinho como extensão da própria guerra doméstica. Para uma parte, a ação americana virou cruzada moral contra um ditador. Para outra, qualquer crítica ao chavismo passou a ser tratada como submissão automática ao imperialismo. É a cegueira típica das torcidas. Não se olha o tabuleiro regional, não se analisa o precedente internacional, apenas se reage a partir do próprio espelho político. Nesse ambiente, o mundo real desaparece.
- Leia também: Geopolítica da paz pela força
Esse ambiente polarizado começa a se converter, de forma explícita, em instrumento eleitoral para as eleições de 2026. A crise venezuelana passa a ser colada ao governo Lula como rótulo político, reativando o discurso de que o presidente seria conivente com ditaduras e que o Brasil estaria a caminho de se tornar uma "nova Venezuela". Ao mesmo tempo, presidenciáveis de direita e extrema direita já sinalizam alinhamento elogioso à postura de Trump, exaltando a ação americana como demonstração de força e decisão, sem qualquer problematização sobre soberania.
Feita essa constatação sobre o Brasil, é preciso olhar para os fatos. Não há relativização possível sobre o que representou o regime de Maduro. A Venezuela foi submetida a um governo autoritário, marcado por perseguição política sistemática, repressão, captura das instituições e colapso econômico profundo. A miséria não foi acidente, mas consequência direta de um modelo de poder concentrado em uma elite burocrática enquanto milhões de venezuelanos eram empurrados para fora do país. A rejeição social a Maduro é compreensível.
O ponto crítico surge depois. A captura de Maduro foi justificada pelo discurso do combate ao narcotráfico, mas as falas iniciais de Trump deixaram claro que a democracia não era o eixo da ação. O foco foi material. Controle, influência e acesso ao petróleo venezuelano. Direitos humanos e crime organizado funcionaram como moldura moral, subordinando a soberania venezuelana a interesses estratégicos.
É nesse ponto que o episódio venezuelano dialoga diretamente com o Brasil. O país acabava de recompor, no último ano, uma relação com os Estados Unidos marcada por tarifas, ameaças comerciais e constrangimentos diplomáticos, tensionamentos que, em determinado momento, tiveram como pano de fundo o discurso de defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro e um suposto alinhamento político-ideológico.
E é nesse contexto que o discurso do presidente Lula deve ser lido. Ao condenar a ação, afirmar a violação da soberania e do direito internacional e defender o multilateralismo sem citar nominalmente Trump ou os Estados Unidos, o presidente fez uma escolha deliberada. Optou por criticar o método sem escalar o conflito. Foi pragmatismo, não concessão.
Em um cenário de precedentes perigosos, a contenção foi estratégia, não silêncio. Até porque o risco contemporâneo não se expressa apenas por tanques ou intervenções diretas. Instrumentos silenciosos, porém eficazes, já foram utilizados no passado recente, inclusive contra o Brasil, que passou a incomodar os Estados Unidos por seus movimentos no tabuleiro internacional, pela ampliação do protagonismo no Brics, pelo debate sobre a redução da centralidade do dólar e pelo peso estratégico de seus minérios.
O posicionamento do presidente, tido como blasé, não agradou às duas principais torcidas do tabuleiro político brasileiro. A direita instrumentalizou a fala de Lula para reforçar a caricatura de que ele seria conivente com regimes autoritários, enquanto a esquerda reagiu com frustração por esperar um confronto mais direto com Trump.
- Leia também: Mais um episódio da "geopolítica de um homem só"
A Venezuela, vista do Brasil, revela menos sobre Caracas e mais sobre nossas próprias limitações. Expõe como a polarização interna converte a geopolítica em torcida, transforma métodos de força em aplauso ou rejeição automática e bloqueia a compreensão do que está em jogo. Ao naturalizar a violação de regras em nome de discursos morais convenientes, legitima-se um precedente que ultrapassa governos e ideologias. Quando isso ocorre, o problema deixa de ser um governante específico e passa a ser o próprio funcionamento do sistema internacional. E esse risco não escolhe lado nem poupa quem hoje acredita estar protegido.
Saiba Mais
