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Ruptura, poder e escolhas: Brasil pode aproveitar as lições do Canadá?

O mundo de uma ordem internacional baseada em regras e bens comuns, que muito beneficiou ao Canadá (e a tantos outros países), se transformou em um sistema de crescente rivalidade entre as grandes potências

Mark Carney e Chrystia Freeland travaram uma competição acirrada pela liderança -  (crédito: Getty Images)
Mark Carney e Chrystia Freeland travaram uma competição acirrada pela liderança - (crédito: Getty Images)

GUNTHER RUDZIT e LEONARDO TREVISAN, professores de relações internacionais da ESPM

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No encontro de Davos deste ano, o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi uma aula de realismo e visão de estadista. E, pode ser inspiração para muita gente. Carney foi ao ponto que mais interessa: estamos no meio de uma ruptura, e não de uma transição, ou seja, não se deve ter ilusões. E completou, esqueça que o mundo será parecido com o que foi até bem pouco tempo atrás. A Velha Ordem não voltará e não devemos ficar lamentando isso. Motivo: nostalgia não é estratégia.

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O mundo de uma ordem internacional baseada em regras e bens comuns, que muito beneficiou ao Canadá (e a tantos outros países), se transformou em um sistema de crescente rivalidade entre as grandes potências. Nele, as mais poderosas perseguem seus interesses usando a integração econômica como coerção. E faz um alerta essencial: melhor que as potências médias atuem em conjunto, pois, se você não tiver lugar nesta mesa, você será o menu.

Diante desta nova realidade, Carney notou que muitos governos estão buscando autonomia estratégica em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias de suprimento. Ninguém duvida que um mundo "de fortalezas" será mais pobre, frágil e menos sustentável. Por isso, diversificar é a melhor proteção contra toda incerteza. Além de facilitar, óbvio, a administração dos riscos. 

O Canadá, que tanto acumulou benefícios por sua localização geográfica e históricas alianças, se vê agora na urgência de mudar sua dependência em relação aos EUA. Para isso, Ottawa buscará uma política de "geometria variável", a partir de coalizões múltiplas, para diferentes temas, baseadas em valores diversos e interesses complementares. A parceria estratégica com a China assinada no início deste ano, é a concretização desta estratégia. Vale lembrar que antes de chegar a Davos, o líder canadense parou em Pequim, para três dias de intensa atividade diplomática. 

Carney insiste que este é o caminho adotado por Alexander Stubb, presidente da Finlândia, que o definiu como "realismo baseado em valores". Nesta lógica, as potências médias exercem um "pragmatismo explícito", sem abandonar os valores fundamentais da Carta das Nações Unidas e o respeito aos direitos humanos. Quem tem a instável fronteira de 1.340 quilômetros com a ambiciosa Rússia, sabe muito bem do que está falando. 

Em termos de comércio, a pluralidade de parcerias é fundamental. Assim, o Canadá buscará ser a ponte entre a Parceria Trans Pacífico e a União Europeia, especialmente em minerais críticos. Carney busca desenvolver um "clube de compradores", ancorado no G7. O alvo é claro:  acoplados com outras democracias, não seriam forçados a escolher - obrigatoriamente - entre duas hegemonias e hiper-escalas, referência clara a EUA e China. Portanto, não é um multilateralismo ingênuo. Também não é dependência absoluta de instituições.  É construção de ativas coalizões que funcionam, tema a tema, com parceiros que compartilham posições comuns. É só e apenas usar "ações conjuntas" para dissuadir a desmedida ambição do vizinho muito valentão...

Para o primeiro-ministro canadense, esta postura é a segunda opção que as potências médias têm hoje. A primeira é se subordinar à rivalidade entre as grandes potências, competindo sempre em uma posição de desvantagem. Exercer mútua cooperação entre potências médias criaria uma terceira via com forte impacto sistêmico. 

As lições vindas do Canadá arrefecem a dura mensagem, bem real, de que a Velha Ordem apenas acabou.  E, criticar direta ,ou indiretamente, os EUA não alterará o novo cenário. Imaginar os BRICS como escudo é só desconhecer os muito diferentes interesses de cada um de seus integrantes. Não perceber os limites do acordo UE-Mercosul é confiar demais que os europeus serão aliados em vez de parceiros comerciais. Sem contar a judicialização postergante de qualquer certeza acordada e assinada. Pensar em termos de uma visão como a de Carney é buscar alternativas realistas, sem abandono de valores que são base da diplomacia brasileira.

Octavio Paz, poeta e diplomata mexicano, Nobel de Literatura, dizia que, talvez, o mais sério drama de seu país era que ele estava "muito longe de Deus e muito perto dos EUA".  Também, talvez, Carney tenha apenas atualizado o alerta do autor de "O labirinto da solidão".  

 


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postado em 11/02/2026 06:00
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