
GUNTHER RUDZIT e LEONARDO TREVISAN, professores de relações internacionais da ESPM
No encontro de Davos deste ano, o discurso do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi uma aula de realismo e visão de estadista. E, pode ser inspiração para muita gente. Carney foi ao ponto que mais interessa: estamos no meio de uma ruptura, e não de uma transição, ou seja, não se deve ter ilusões. E completou, esqueça que o mundo será parecido com o que foi até bem pouco tempo atrás. A Velha Ordem não voltará e não devemos ficar lamentando isso. Motivo: nostalgia não é estratégia.
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O mundo de uma ordem internacional baseada em regras e bens comuns, que muito beneficiou ao Canadá (e a tantos outros países), se transformou em um sistema de crescente rivalidade entre as grandes potências. Nele, as mais poderosas perseguem seus interesses usando a integração econômica como coerção. E faz um alerta essencial: melhor que as potências médias atuem em conjunto, pois, se você não tiver lugar nesta mesa, você será o menu.
Diante desta nova realidade, Carney notou que muitos governos estão buscando autonomia estratégica em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias de suprimento. Ninguém duvida que um mundo "de fortalezas" será mais pobre, frágil e menos sustentável. Por isso, diversificar é a melhor proteção contra toda incerteza. Além de facilitar, óbvio, a administração dos riscos.
O Canadá, que tanto acumulou benefícios por sua localização geográfica e históricas alianças, se vê agora na urgência de mudar sua dependência em relação aos EUA. Para isso, Ottawa buscará uma política de "geometria variável", a partir de coalizões múltiplas, para diferentes temas, baseadas em valores diversos e interesses complementares. A parceria estratégica com a China assinada no início deste ano, é a concretização desta estratégia. Vale lembrar que antes de chegar a Davos, o líder canadense parou em Pequim, para três dias de intensa atividade diplomática.
Carney insiste que este é o caminho adotado por Alexander Stubb, presidente da Finlândia, que o definiu como "realismo baseado em valores". Nesta lógica, as potências médias exercem um "pragmatismo explícito", sem abandonar os valores fundamentais da Carta das Nações Unidas e o respeito aos direitos humanos. Quem tem a instável fronteira de 1.340 quilômetros com a ambiciosa Rússia, sabe muito bem do que está falando.
Em termos de comércio, a pluralidade de parcerias é fundamental. Assim, o Canadá buscará ser a ponte entre a Parceria Trans Pacífico e a União Europeia, especialmente em minerais críticos. Carney busca desenvolver um "clube de compradores", ancorado no G7. O alvo é claro: acoplados com outras democracias, não seriam forçados a escolher - obrigatoriamente - entre duas hegemonias e hiper-escalas, referência clara a EUA e China. Portanto, não é um multilateralismo ingênuo. Também não é dependência absoluta de instituições. É construção de ativas coalizões que funcionam, tema a tema, com parceiros que compartilham posições comuns. É só e apenas usar "ações conjuntas" para dissuadir a desmedida ambição do vizinho muito valentão...
Para o primeiro-ministro canadense, esta postura é a segunda opção que as potências médias têm hoje. A primeira é se subordinar à rivalidade entre as grandes potências, competindo sempre em uma posição de desvantagem. Exercer mútua cooperação entre potências médias criaria uma terceira via com forte impacto sistêmico.
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As lições vindas do Canadá arrefecem a dura mensagem, bem real, de que a Velha Ordem apenas acabou. E, criticar direta ,ou indiretamente, os EUA não alterará o novo cenário. Imaginar os BRICS como escudo é só desconhecer os muito diferentes interesses de cada um de seus integrantes. Não perceber os limites do acordo UE-Mercosul é confiar demais que os europeus serão aliados em vez de parceiros comerciais. Sem contar a judicialização postergante de qualquer certeza acordada e assinada. Pensar em termos de uma visão como a de Carney é buscar alternativas realistas, sem abandono de valores que são base da diplomacia brasileira.
Octavio Paz, poeta e diplomata mexicano, Nobel de Literatura, dizia que, talvez, o mais sério drama de seu país era que ele estava "muito longe de Deus e muito perto dos EUA". Também, talvez, Carney tenha apenas atualizado o alerta do autor de "O labirinto da solidão".

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