
PAULA BELMONTE
Deputada distrital, segunda vice-presidente e Procuradora Especial da Mulher da Câmara Legislativa
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Há dores que a linguagem humana não conseguiu nomear. Quando se perde pai ou mãe, somos órfãos. Quando se perde o cônjuge, somos viúvos. Quando se perde um filho, não há palavra que nos defina. Porque ali não se perde apenas alguém que amamos. Perde-se um pedaço de si que não retorna, perde-se o futuro que habitava aquele filho, perde-se a vida que seria vivida junto. Fica a saudade do que foi e a saudade do que nunca poderá ser.
Hoje, meu coração se volta para as famílias de dois jovens brutalmente assassinados no DF: Rodrigo Castanheira e Leonardo Ferreira. Nenhuma família deveria atravessar a ruptura que a violência provoca quando interrompe uma vida jovem. A morte de um filho não é apenas uma perda. É a inversão da ordem da existência. Pais não deveriam sepultar filhos. Quando isso acontece, algo essencial se rompe dentro da família e também no tecido moral da sociedade.
Falo como mãe que conhece essa ausência. Meu filho Arthur partiu ainda pequeno. Desde então, aprendi que o luto de um filho não se limita à memória do que se viveu. Ele inclui o silêncio das etapas que não virão, das conversas que não acontecerão, do crescimento que não será acompanhado. E falo também como família, porque a perda de um filho atravessa todos. Irmãos perdem parte de sua própria história, avós perdem continuidade, tios e primos perdem presença. A vida cotidiana passa a conviver com uma ausência que não se integra completamente ao tempo.
Há uma impotência própria dessa experiência. Nenhuma explicação restitui, nenhuma justiça devolve, nenhum tempo apaga. O amor permanece, mas precisa aprender a existir sem a reciprocidade concreta que o sustentava. A vida passa a se reorganizar em torno de uma falta definitiva.
Por isso, ao manifestar minha solidariedade às famílias de Rodrigo e de Leonardo, não a faço de fora. Faço do lugar de quem sabe que essa dor não se supera, apenas se carrega. E sei também que, quando um jovem é morto, a perda não pertence apenas àquela casa. Ela revela uma falha coletiva na proteção de uma vida em formação.
A violência, porém, alcança a maternidade de formas distintas. Há mães que choram filhos assassinados. Há mães que choram filhos que se perderam para o crime, para o tráfico, para a desumanização que a própria violência produz. São dores diferentes e jamais equivalentes, porque nada se compara à interrupção de uma vida inocente. Mas ambas expõem, por caminhos distintos, o fracasso social em proteger trajetórias humanas ainda frágeis.
Quando um filho morre, uma família é devastada. Quando um filho se torna agente de violência, outra família também é atingida, porque perde aquele jovem para um percurso que destrói a si e aos outros. A violência rompe pertencimentos, interrompe futuros e multiplica lutos. No fim, ela sempre deixa mães chorando.
Cada criança e cada adolescente que se perde representa um futuro interrompido e uma responsabilidade coletiva não cumprida. Não se trata apenas de segurança pública. Trata-se de presença familiar, comunidade vigilante, vínculos, cuidado e políticas que sustentem trajetórias em formação. A perda de jovens expõe nossas ausências como sociedade.
Há famílias que, diante dessa devastação, transformam o sofrimento em compromisso com outras vidas. Não porque a dor diminui, mas porque o amor permanece ativo. Ressignificar é permitir que a memória continue produzindo cuidado no mundo. Foi essa travessia que também me transformou, após a perda do Arthur, e orientou minha dedicação à defesa de crianças e adolescentes.
A dor que me atravessou não me afastou da vida pública. Deu-me um sentido mais nítido de responsabilidade: trabalhar para que menos famílias conheçam a dor sem nome. Proteger crianças e adolescentes deixou de ser apenas uma pauta. Tornou-se missão.
Às famílias de Rodrigo e de Leonardo, deixo minha solidariedade mais profunda. Que encontrem, entre si, a força que só o amor familiar sustenta. Que se amparem mutuamente na travessia de cada dia. E que Deus sustente o que a condição humana não consegue sustentar.
Quando um filho é perdido para a morte ou para a violência, algo não falhou apenas naquela família. Falhamos todos nós. E é desse reconhecimento que pode nascer a decisão da sociedade de proteger seus filhos antes que seja tarde. Porque nenhuma mãe deveria carregar a dor sem nome. E nenhuma sociedade que se pretenda humana pode aceitar que seus filhos continuem sendo perdidos.

Opinião
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