
ORLANDO THOMÉ, consultor em estratégia
Dia 21 de dezembro de 2025 teve início o verão no Hemisfério Sul do planeta que se encerrará em 20 de março deste ano. É de conhecimento público que se trata do período em que nosso país, historicamente, passa por chuvas intensas, provocando desastres em diversas regiões. Nesta semana, estamos assistindo ao drama vivido em Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata de Minas Gerais. Até o momento que escrevo esta coluna, já foram contabilizados 55 óbitos e 13 desaparecimentos nos dois municípios. No mesmo período, na Baixada Fluminense, a contagem já passou de 2 mil pessoas atingidas, sendo 1 mil em Nova Iguaçu e 600 em São João de Meriti, onde houve um óbito de uma senhora de 85 anos.
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Há dois anos, nos meses de abril e maio, em pleno outono, tivemos as enchentes no Rio Grande do Sul que são consideradas o maior desastre natural da história do estado. Segundo relatório da Defesa Civil estadual de 20 de agosto de 2025, foram 478 municípios afetados, com 185 óbitos e 23 desaparecimentos em um universo de 2.398.255 pessoas atingidas.
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Em 11 de janeiro de 2011, a Região Serrana do estado do Rio de Janeiro foi alvo de uma tragédia quando a chuva deixou mais de 900 mortos, quase 100 desaparecidos e cerca de 35 mil pessoas que perderam suas casas ou tiveram que deixá-las por risco de deslizamento.
Esse acontecimento na serra fluminense teve uma consequência positiva no âmbito da gestão pública, com a criação, em 1º de julho daquele ano, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), cuja missão é monitorar áreas de risco no território nacional, emitir alertas antecipados de desastres naturais e desenvolver pesquisas para prevenir impactos de inundações e deslizamentos.
Outra medida relevante foi a iniciativa de se criar o Atlas Brasileiro de Desastres Naturais, fruto de uma cooperação técnica entre o Banco Mundial e a Universidade Federal de Santa Catarina, por meio do Centro de Estudos e Pesquisas em Engenharia e Defesa Civil. Sua primeira edição, publicada em 2012, traz dados relativos ao período entre 1991 e 2010. E, desde então, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec/MIDR) mantém o projeto atualizado, também por meio de parceria com o Ceped/UFSC. Atualmente o Atlas está em versão digital disponível no link https://atlasdigital.mdr.gov.br/. Lá, é possível consultar informações e dados por ano, por estado e por município.
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Outro importante reflexo tem sido o fortalecimento paulatino e sistemático de estruturação das Defesas Civis nos estados e municípios. Mesmo assim, ainda há muito a se fazer. Matéria publicada na edição de 6 de novembro de 2025 do Correio Braziliense traz dados divulgados pela Confederação Nacional dos Municípios: um levantamento realizado entre 2024 e 2025 com 2.871 prefeituras indicava que apenas 12% das cidades tinham estrutura exclusiva e adequada, com viaturas e equipamentos suficiente para atuar na prevenção, resposta e recuperação de desastres, sendo que mais de 70% das delas gastavam menos de R$ 50 mil mensais com defesa civil e 43% têm somente até três servidores na área.
Mesmo assim, é possível verificar um contínuo avanço em boa parte dos municípios na compreensão sobre a prioridade do trabalho de prevenção de eventos climáticos extremos recorrentes na realidade brasileira e mundial. Nesse sentido, o maior desafio é construir as chamadas cidades resilientes, que são aquelas capazes de enfrentar, resistir e se adaptar a choques e tensões — sejam eles climáticos, sociais ou econômicos — sem colapsar. Mais do que sobreviverem, elas aprendem com as crises e se transformam para melhor.
Uma cidade resiliente antecipa riscos, identifica vulnerabilidades e se prepara antes que o desastre aconteça; oferece resposta eficaz a emergências por meio de planos de contingência, sistemas de alerta e equipes treinadas; atua para uma recuperação rápida e sustentável, reconstruindo-se de forma mais segura e inteligente; promove a inclusão social e participação cidadã, envolvendo a população nas decisões e protegendo os mais vulneráveis; e busca a integração com a natureza, utilizando soluções como ampliação da cobertura arbórea e drenagem sustentável.
Ser resiliente é, portanto, uma forma de proteger vidas, economias e o futuro. Como apresentado acima, não nos faltam dados e informações, mas cabe aos gestores públicos e à sociedade em geral tomarem as decisões indispensáveis para garantir um futuro em que as notícias de mortes, desalojados e desaparecidos sejam substituídas pelo avanço dos resultados positivos decorrentes de políticas públicas que valorizem a prevenção.

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