Visão do Correio

Mudanças climáticas exigem mais investimentos

A emergência climática impõe uma agenda transversal. Exige integração entre ciência e gestão pública. Investir em monitoramento contínuo, fortalecer a pesquisa e qualificar quadros técnicos municipais são medidas estratégicas

Socorristas carregam um corpo recuperado em meio aos escombros após um deslizamento de terra causado por fortes chuvas no bairro Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, estado de Minas Gerais, em 24 de fevereiro de 2026       -  (crédito: PABLO PORCIUNCULA / AFP)
Socorristas carregam um corpo recuperado em meio aos escombros após um deslizamento de terra causado por fortes chuvas no bairro Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, estado de Minas Gerais, em 24 de fevereiro de 2026 - (crédito: PABLO PORCIUNCULA / AFP)

As tragédias provocadas pelas chuvas que castigaram Juiz de Fora e municípios vizinhos não são mais exceção — tornaram-se parte de uma nova normalidade climática. Em entrevista ao CB. Poder, dos Diários Associados, o ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, foi direto ao ponto: é urgente preparar as cidades brasileiras para os efeitos cada vez mais intensos da emergência climática. Essa deve ser, inclusive, uma régua para o eleitor avaliar seus candidatos nas próximas eleições municipais. Não se trata apenas de promessas, mas de capacidade concreta de planejar, investir e prevenir.

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O ano de 2025 foi o terceiro mais quente já registrado no planeta. A temperatura média global atingiu 1,47°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900). No Brasil, o reflexo foi imediato: 336.656 pessoas impactadas diretamente por eventos extremos e prejuízos estimados em R$ 3,9 bilhões, segundo o relatório "Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil", elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O documento reúne dados de instituições internacionais, como o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, e confirma que o aquecimento global deixou de ser projeção para se tornar realidade cotidiana.

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No território nacional, o verão 2024/2025 foi o sexto mais quente desde 1961. Em novembro passado, oito unidades da federação enfrentaram seca em 100% de seus territórios. Ao mesmo tempo, o país registrou 1.493 eventos hidrológicos — entre secas intensas, alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra. A região Sudeste concentrou 43% dessas ocorrências. São números que revelam não apenas a força dos fenômenos, mas a fragilidade estrutural de grande parte dos municípios.

Hoje, 2.095 das 5.570 cidades brasileiras estão expostas a riscos geo-hidrológicos. Minas Gerais lidera o ranking: 306 de seus 853 municípios são suscetíveis a deslizamentos e inundações, colocando cerca de 1,5 milhão de pessoas em situação de vulnerabilidade. O aumento de 222% no número de desastres climáticos entre o início da década de 1990 e os primeiros anos de 2020 indica tendência inequívoca de agravamento.

Diante desse cenário, a liberação de R$ 6,196 milhões pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional para municípios atingidos é necessária, mas insuficiente como política estrutural. Recursos emergenciais aliviam o drama imediato; não substituem obras de drenagem, contenção de encostas, revisão de planos diretores, mapeamento de áreas de risco e sistemas de alerta eficientes.

O papel do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), ao emitir alertas de "Perigo" e "Grande Perigo" para regiões do Norte e Nordeste, é fundamental. Entretanto, alertas só salvam vidas quando combinados com planejamento urbano adequado, fiscalização do uso do solo e capacidade municipal de resposta.

A emergência climática impõe uma agenda transversal. Exige integração entre ciência e gestão pública. Investir em monitoramento contínuo, fortalecer a pesquisa e qualificar quadros técnicos municipais são medidas estratégicas. Não se trata de gasto, mas de seguro coletivo contra perdas humanas e econômicas.

A política urbana brasileira precisa incorporar definitivamente a variável climática. Cidades que expandem ocupações em encostas, margens de rios e áreas alagáveis estão, na prática, produzindo futuras tragédias. A revisão de códigos de obras, o incentivo à infraestrutura verde, a ampliação de áreas permeáveis e a modernização dos sistemas de drenagem devem compor uma agenda permanente.

Mais do que reagir a cada novo desastre, é preciso mudar a lógica da gestão pública. O eleitor, ao escolher prefeitos e vereadores, precisa considerar quem apresenta propostas viáveis para adaptação climática, quem valoriza a ciência e quem compreende que prevenção custa menos do que reconstrução. As mudanças climáticas não são tema abstrato ou ideológico. São realidade mensurável, expressa em números, vidas afetadas e bilhões de reais em prejuízos. O tempo da improvisação acabou. Planejar para o clima deixou de ser opção; tornou-se imperativo de responsabilidade pública e compromisso com as próximas gerações.

 


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postado em 28/02/2026 06:03
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