ARTIGO

Até a água do DF vai escorrer pelo ralo do BRB? Salve a Serrinha do Paranoá!

Ao entregar como moeda de troca 716 hectares de Cerrado conservado, na Serrinha do Paranoá, na tentativa de salvar o BRB, o GDF está colocando em risco o futuro da população e do clima do DF

Serrinha do Paranoá: região é área de recarga de aquífero com mais de 100 nascentes mapeadas -  (crédito:  Material cedido ao correio)
Serrinha do Paranoá: região é área de recarga de aquífero com mais de 100 nascentes mapeadas - (crédito: Material cedido ao correio)
Isabel Schmidtprofessora do Departamento de Ecologia da UnB e integrante da Rede Biota Cerrado;  Lúcia Mendes presidente da Associação Preserva Serrinha

As fraudes do Banco Master e como elas afetam a saúde financeira do Banco Regional de Brasília (BRB) entraram no centro das notícias brasileiras. Associado a esse escândalo financeiro, o desvelamento de uma "turma" que atua como milícia, ameaça pessoas por suas atuações e atividades profissionais e investigativas nos deixa ainda mais estarrecidos.

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Mas há outras muitas vítimas dessa fraude bilionária e da gestão temerária do patrimônio público: todos os seres vivos que precisam de água. Sim, todos nós. Após menos de uma semana de análise da proposta estapafúrdia de usar bens públicos do Distrito Federal para garantir lastro a títulos fraudulentos comprados pelo BRB, a Câmara Legislativa aprovou o Projeto de Lei nº 2.175/2026. Colocaram nove imóveis públicos à disposição para serem negociados, vendidos e transformados em dinheiro para cobrir rombos milionários. Sim, bens dos contribuintes brasilienses entregues para cobrir roubos gerados por fraudes, corrupção, extorsão e outros crimes.

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Seria papel do Governo do Distrito Federal (GDF) e da Câmara Legislativa investigar e punir os responsáveis por esses crimes. Seria papel dos representantes da população defender interesses públicos, e não os seus interesses particulares.  Em vez disso, o GDF inseriu nesse projeto de lei 716 hectares de Cerrado conservado, na Serrinha do Paranoá, como moeda de troca para manter a sobrevida do BRB.

Será que isso importa? Pois bem, todos no DF conhecem o BRB, enquanto nem todos sabem onde é a Serrinha ou entendem por que o Cerrado é importante. Convidamos os leitores ao exercício de pensar de onde vem a água que bebem, se banham, com a qual cozinham.

A água que chega às nossas torneiras vem do Cerrado. É o Cerrado, com suas mais de 12 mil espécies de plantas, que permite que a água que só cai do céu durante a estação chuvosa corra límpida em nossos córregos, abasteça nossos lagos e reservatórios e mesmo nossos poços artesianos e pivôs na agricultura. São as raízes finas dos capins e as profundas árvores do Cerrado que permitem que a vida seja possível e climaticamente agradável no Planalto Central.

Ao entregar como moeda de troca 716 hectares de Cerrado conservado pela possibilidade de vender essas terras, como se não tivessem nada nelas, na tentativa de salvar um banco, o GDF está colocando em risco o futuro da população e do clima do DF. Trata-se de uma área quase três vezes maior que a RA XI (Cruzeiro), que abriga milhares de árvores, arbustos e capins de Cerrado que são casa de animais icônicos, como as araras tão festejadas quando vistas pela cidade. Abrigam trilhas de caminhada e mountain bike e são área de recarga de aquífero com mais de 100 nascentes mapeadas, com córregos que contribuem diretamente para que água de qualidade chegue à população do DF.

A cada hectare de Cerrado perdido, perdemos vidas que não são representadas nem valorizadas pelo atual governo e por boa parte dos deputados distritais. A cada hectare de Cerrado perdido, perdemos água que infiltraria e chegaria às nossas torneiras. A cada hectare de Cerrado perdido, perdemos a capacidade que o Cerrado tem de transpirar água e melhorar a umidade do ar que respiramos, inclusive no auge da estação seca.

Podemos nos permitir perder 716 vezes tudo isso? Podemos permitir que aqueles que foram eleitos para nos representar ameacem assim nosso presente e nosso futuro? Podemos deixar nossa água ir embora pelo ralo do BRB?

Problemas financeiros e corrupção não serão resolvidos gerando mais problemas ambientais. As crises ambientais e climáticas têm se tornado cada vez mais intensas e frequentes. Fingir que a Serrinha do Paranoá só tem valor como lastro de banco é tão ingênuo quanto achar que a água que usamos brota de nossas torneiras.

A população do DF não aceita entregar seu patrimônio para salvar um banco mal gerido e proteger corruptos! A população do DF valoriza sua água e seu Cerrado acima de governantes irresponsáveis e sem visão de futuro.

Salve a Serrinha do Paranoá! Salve o Cerrado, do qual dependemos para ter água e qualidade de vida, no DF e em todo país.

 

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Por Opinião
postado em 06/03/2026 06:00 / atualizado em 06/03/2026 09:35
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