
Damares Alves — senadora da República
No filme A conspiração (The Contender, de 2000), uma senadora indicada para a vice-presidência dos Estados Unidos enfrenta uma sabatina brutal. Durante o processo, seus adversários não discutem sua competência técnica, sua trajetória pública ou suas propostas para o país. O alvo passa a ser, de forma covarde, a sua vida privada. Diante de mentiras e de uma moderna "caça às bruxas", ela faz uma escolha que choca muitos: o silêncio. Não por ser culpada, mas por se recusar a aceitar a ideia de que fofocas, boatos e difamações valham mais do que toda a sua história de serviço ao povo.
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Essa ficção, infelizmente, ecoa de forma dolorosa na realidade brasileira. Aqui, a mulher que ousa entrar na política enfrenta um desafio duplo e exaustivo: provar sua capacidade técnica diariamente em um ambiente hostil e, ao mesmo tempo, resistir a ataques pessoais rasteiros que raramente, ou quase nunca, atingem os homens.
Na semana deste 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, precisamos encarar essa ferida de frente. A data é, sem dúvida, um momento de celebração das nossas conquistas, mas deve ser, acima de tudo, um dia de profunda reflexão. Ao entrar na vida pública, a mulher descobre rapidamente que existem regras não escritas muito cruéis. Se ela for firme em suas convicções, é taxada de autoritária ou desequilibrada. Se for conciliadora, é chamada de fraca. Se cuida da sua aparência, dizem que é fútil; se não o faz, é acusada de ser desleixada. É um labirinto perverso onde qualquer escolha se transforma em armadilha.
Isso não é vitimismo. É uma constatação da realidade, um problema tão estrutural que o Brasil precisou tipificar essa conduta criminalmente. Falo da Lei nº 14.192, de 2021, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher. A lei deixou claro que é crime assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas e detentoras de mandato. Ter que criar uma legislação federal para garantir o óbvio — o respeito no espaço de poder — mostra o quanto o nosso ambiente político ainda precisa ser curado.
Os ataques são implacáveis. São sussurros nos corredores, insinuações sobre roupas, perguntas condescendentes sobre "quem escreveu aquele discurso" ou cobranças sobre como ela concilia a família e o trabalho. Perguntas que jamais seriam feitas a um homem na mesma posição. É a máquina de destruição de reputações operando na potência máxima contra quem ousa fazer uma política mais limpa e humana.
E o que torna a caminhada mais espinhosa é que, muitas vezes, os golpes mais duros vêm de falsos aliados. São figuras que sorriem para a foto, mas nos bastidores agem para sabotar e isolar a liderança feminina. Em muitos casos, usam a mulher apenas para cumprir cotas eleitorais, deixando-a na retaguarda, sem estrutura financeira, sem voz nas decisões e sem rede de defesa quando os ataques começam.
A sociedade exige que a mulher seja absolutamente "impecável" para ser respeitada. Enquanto acompanhamos políticos homens que sobrevivem a escândalos reais, vemos mulheres competentes tendo carreiras destruídas por boatos infundados.
Como reagir a esse massacre público? Responder a cada mentira drena a energia vital que deveria ser gasta trabalhando por quem mais precisa: as crianças, os idosos, as pessoas com deficiência, as famílias vulneráveis. Por outro lado, o silêncio permite que a mentira vire verdade na boca da opinião pública. Não há resposta fácil. Há apenas a necessidade de muita oração, convicção no propósito que Deus nos deu e uma base de apoio familiar muito sólida para não adoecer.
A lealdade na política costuma ser uma via de mão única. Exige-se fidelidade absoluta das mulheres aos seus grupos, mas, na hora da crise, elas são deixadas sozinhas. Quando um grupo político permite o linchamento moral de uma aliada sem defendê-la, envia um recado perigoso a todas as outras: "Vocês estão por conta própria".
Apesar de todo esse sistema desenhado para nos fazer desistir, as mulheres persistem. Nós entramos e permanecemos na política porque vemos corações onde muitos só enxergam planilhas e orçamentos. Trazemos o olhar do cuidado. Estamos criando um novo jeito de fazer política, com transparência e entrega de resultados, equilibrando a firmeza necessária para o debate com a humanidade indispensável para acolher o povo.
O ambiente político brasileiro não pode continuar sendo um moedor de mulheres. Não somos cotas nem enfeites de palanque. Somos lideranças plenas.
Cada mulher que resiste hoje pavimenta uma estrada mais segura para que as meninas de hoje sejam as prefeitas, governadoras e presidentes de amanhã, sem precisarem passar pelo fogo que nós passamos.
No fim das contas, a dúvida nunca foi se as mulheres são fortes o suficiente para suportar o peso da política. A verdadeira questão é se a política brasileira será, um dia, madura e ética o suficiente para merecer as mulheres.

Opinião
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