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Oportunidade oculta nos números do Censo Escolar

Há, porém, boas notícias. A distorção idade-série no 3º ano do ensino médio caiu 61% em quatro anos. As matrículas em tempo integral quase dobraram desde 2020, alcançando 8,8 milhões

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infancia -  (crédito: Caio Gomez)
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» CLÁUDIA ROMANO Presidente do Semerj (Sindicato das Entidades Mantenedoras dos Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado do Rio de Janeiro), vice-presidente do Grupo Yduqs e presidente do Instituto Yduqs

O Brasil acaba de perder 1 milhão de alunos na educação básica em um único ano. Diante de uma manchete assim, a reação instintiva é o alarme. Mas o que os números do Censo Escolar 2025 realmente trazem é uma oportunidade oculta. E o que decidirmos fazer com ela pode mudar o futuro educacional do país.

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Dados preliminares divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que as matrículas na educação básica caíram de 47,1 milhões para 46 milhões, uma redução de 2,3%. No ensino médio, o recuo foi de 5,4%, com 419 mil jovens a menos — o menor patamar em todo o século 21. A demografia explica parte do fenômeno: a taxa de fecundidade recuou para 1,55 filho por mulher, bem abaixo da reposição. A população de zero a 3 anos encolheu 8,4% entre 2022 e 2025. Nascem menos crianças, e as ondas demográficas que antes enchiam as escolas agora recuam. Mas atribuir tudo à demografia é confortável demais.

O ensino médio, que atingiu pico histórico em 2004, com 9,16 milhões de estudantes, acumula perda de quase 2 milhões de matrículas em duas décadas. Trata-se de uma tendência estrutural, observada também em países como Coreia do Sul e Japão, além de grande parte da Europa. A diferença é que essas nações transformaram o declínio demográfico em estratégia: investiram mais por aluno, reorganizaram redes e modernizaram currículos.

São Paulo, estado mais populoso e mais rico, respondeu sozinho por 60% de toda a queda no ensino médio; foram 259 mil matrículas a menos. A rede pública perdeu 425 mil matrículas enquanto a privada cresceu. Quando o motor econômico do país lidera uma estatística assim, o sinal é inequívoco: há abandono, desinteresse e desconexão entre o que a escola oferece e o que o jovem precisa. Segundo o Inep, apenas Amapá, Distrito Federal e Pernambuco registraram crescimento no ensino médio.

Há, porém, boas notícias. A distorção idade-série no 3º ano do ensino médio caiu 61% em quatro anos. As matrículas em tempo integral quase dobraram desde 2020, alcançando 8,8 milhões. O ensino fundamental segue praticamente universal. O acesso à creche se aproxima da meta do PNE. São conquistas reais.

Aqui está o paradoxo que deveria orientar o debate: menos alunos pode ser, pela primeira vez, uma boa notícia. Por décadas, enfrentamos o desafio de absorver uma população jovem em rápida expansão. Agora, a transição demográfica nos oferece uma janela para mudar de paradigma — redirecionar recursos para qualidade: turmas menores, formação docente, tecnologia, acompanhamento individualizado. Finlândia e Coreia do Sul fizeram exatamente isso durante suas transições demográficas e colhem excelência há décadas. A diferença entre um país que envelhece com sabedoria educacional e um que envelhece com defasagem é a decisão política que se toma agora.

Se há uma etapa que sintetiza o desafio, essa etapa é o ensino médio. A perda de 419 mil matrículas não decorre apenas da demografia. Há abandono, desinteresse e desconexão entre escola e projeto de vida. Reconhecer isso é apenas o primeiro passo.

Todos os dias, nos nossos câmpus, acompanhamos mais de 800 mil estudantes de graduação e vemos o impacto do que acontece — ou deixa de acontecer — no ensino médio. Com o Propag, o Programa Juros pela Educação, e o Pé-de-Meia, governos e iniciativa privada têm instrumentos concretos para impulsionar o ensino médio técnico com ganhos fiscais e investimento inicial zero para os estados. Estamos trabalhando nessa frente porque acreditamos que podemos mudar o cenário para esses jovens.

O Censo 2025 é mais que estatística: é um chamado. E a janela demográfica, finita. Se não aproveitarmos para investir mais por aluno, valorizar professores e repensar o ensino médio, teremos desperdiçado uma oportunidade que não se repete.

Menos alunos pode ser o início de uma revolução silenciosa — ou mais um capítulo de desperdício. A diferença está nas escolhas que fizermos agora. A era da expansão quantitativa ficou para trás. O desafio que se impõe é mais sofisticado e decisivo: construir uma educação que valha a pena — para cada aluno na sala de aula e para os 419 mil que saíram dela.

 


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Por Opinião
postado em 12/03/2026 06:00
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