ARTIGO

As antenas da consciência

Belos pelo que são, pelo que fazem, Caetano e Bethânia estão íntegros, vivos, respiram pelo nariz e permanecem atentos à "Gente pobre arrancando a vida com a mão"

. -  (crédito: @roncca/Divulgação)
. - (crédito: @roncca/Divulgação)

Ijalmar Nogueira jornalista 

Passado o estado de excitação da festa do Oscar retomo o frisson da premiação de Caetano e Bethânia pelo Grammy 2026 ao ouvir, de ponta a ponta, os dois CDs que sintetizam o repertório por eles apresentado na turnê de agosto de 2024 a março de 2025.    

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Estava curioso e apreensivo ao mesmo tempo. Temia uma possível repetição. Há bem pouco tempo (2015), Caetano Veloso e Gilberto Gil nos haviam brindado com Dois amigos, um século de música, também gravado ao vivo durante a turnê de mesmo nome. 

Que nada, são momentos distintos. A qualidade da gravação ao vivo, para muitos traz riscos, mas a mim as eventuais impurezas do som são plenamente compensadas pelo clima da apresentação viva dos artistas. Caetano e Bethânia ao vivo preserva o clima emocional dos shows e atende aos requisitos técnicos. Se assim não o fosse, provavelmente não teria sido selecionado pela Academia Nacional de Artes e Ciência da Gravação dos Estados Unidos.

Mas a audição de tantas músicas, de uma só vez, ao menos para nós (falo por mim) inevitavelmente evoca fatos e acontecimentos de um período conturbado, obscuro, violento, como o foi o período da ditadura militar, desdita sufocante não só no imaginário, mas também no cotidiano desses artistas, de seus contemporâneos de lida e de todos, como eu, que tínhamos em suas músicas e apresentações um alento de neles vermos e sentirmos a mesma sintonia da resistência e repúdio possíveis àquele estado de calamidade. 

Caetano, Bethânia, ao lado de Chico Buarque, Nara Leão, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Gal Costa, Edu Lobo, Torquato Neto, Roberto Carlos e todos da Jovem Guarda, entre outros, eram (e são) tratados por nós pelo primeiro nome numa intimidade de compartilhamento tácito e do mais profundo sentimento, muito além das afinidades que unem os irmãos em família. 

A voz deles era a nossa voz, a poesia das letras de suas canções alcançava nossas consciências desamparadas, e o sofrimento que a repressão lhes infligia doía em nós a ponto de chorarmos juntos, de sofrermos juntos a dor ultrajante da tortura, da solidão agônica do isolamento do exílio.

Caetano esteve lá, foi alvo direto e indireto das aflições da época: censurado, preso, exilado, antes de tudo ativo, participativo. Sob vaias, na célebre apresentação de É Proibido Proibir, durante o III Festival Internacional da Canção, em 1968, ele foi gigante no discurso que deixou a música de lado para lançar palavras como setas explosivas venenosas contra aquelas manifestações de uma plateia — naquele instante, naquele ambiente — hostil e reacionária: "Vocês não estão entendo nada, nada, nada, absolutamente nada!Quem teve a coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu!".

Hoje em dia, poucos se lembram da música vencedora daquele festival (Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque), mas muitos se lembram do discurso de Caetano Veloso, sobretudo da catarse que ele estabeleceu de imediato e que permaneceu como emblema do festival e da história da música popular brasileira. "Vocês são iguais sabem a quem? Vocês são iguais àqueles que foram ao Roda Viva e espancaram os atores!".

Nada mais visceral, nada mais atual. Era 1968, o "ano que não terminou" e trazia a esperança procedente dos movimentos jovens que sacudiam multidões, mundo afora, por mudanças e recrudesceram a repressão no Brasil. A ditadura só acabaria 17 anos depois daquele festival, mas permaneceu como marco incontestável do inconformismo a demonstração de que os artistas são as antenas da raça e do nosso inconsciente.

A direção musical e arranjos de Lucas Nunes, certamente traduzindo o desejo dos dois artistas, trouxe músicas daquele passado, que teve lá suas fases, para a atualidade. O show não poderia mesmo ser uma simples revisão. Público e artistas mudaram, e houve, no tempo decorrido, tantas inovações rítmicas, novos estilos, como também uma legião de novos cultuadores da MPB e de Caetano e Bethânia, em particular. 

O primeiro disco do cantor, desse gênero, Caetano e Chico juntos e ao vivo, gravado no teatro Castro Alves, em Salvador (1972), faz parte de uma saga de eventos memoráveis. O tempo de Caetano e Bethânia é outro, felizmente. No entanto, Alegria, Alegria ressurge íntegra, vigorosa e impregnada de modernidade. 

Caetano e Bethânia seguem ativíssimos. Os brasileiros, jovens e não jovens, têm hoje sólidos motivos para desacreditar de tudo, como ocorria com a geração de 1968. Na única composição inédita do álbum, ele diz: "Os da guerra acreditam/Que mandam na Terra", e Bethânia conserva a atitude que a conduziu ao elenco da peça "Arena conta Zumbi". Indiferente aos modismos, ela entra no palco com os cabelos soltos, sem pintura e, assim, toda ela no seu jeito decididamente pessoal, preenche todo o palco e captura as plateias com a voz e suas interpretações sempre personalíssimas.

Reencontrá-los neste Caetano e Bethânia começa pelo reviver e transcende o passado que os une, que os manteve inseridos no contexto de nossas vidas e nos remete a celebrações. Belos pelo que são, pelo que fazem, eles estão íntegros, vivos, respiram pelo nariz e permanecem atentos à "Gente pobre arrancando a vida com a mão". 

Nesse sentido, a edição do CD fica devendo informações, como, aliás, tem sido prática recorrente neste e em outros importantes registros da música brasileira. Daqui a bem pouco tempo, quando esse disco for objeto de interesse de pesquisadores, perguntas como "quem são os autores dessas músicas?" ficarão sem respostas. 

 

 

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Por Opinião
postado em 25/03/2026 06:00
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