
André Fufuca — ministro do Esporte; Fábio Araújo — secretário Nacional do Paradesporto
O Brasil já provou ao mundo sua força no paradesporto. Graças ao planejamento cuidadoso nas últimas edições dos Jogos Paralímpicos em Milão-Cortina 2026, consolidamos nosso lugar entre as grandes potências, com recordes, medalha e novos talentos surgindo a cada ciclo. Esse é um patrimônio do país. Mas, enquanto o alto rendimento avança, ainda não somos, na mesma proporção, uma potência em esporte para reabilitação. Essa diferença revela um enorme espaço que precisa ser ocupado por meio de uma política pública estruturada com planejamento e ação coordenada.
O Brasil é a única potência paralímpica, entre as 20 maiores, cuja formação de atletas não está diretamente ligada aos centros de reabilitação de pessoas com deficiência. Esse dado histórico é central para entender a nossa situação. Enquanto muitos países estruturaram o paradesporto a partir de centros de reabilitação e programas militares, no Brasil a trajetória foi inversa: a alta performance chegou antes da integração plena entre saúde, educação e esporte no território.
- Leia também: Neymar está nas cordas
Ao mesmo tempo em que o nosso esporte paralímpico de alto rendimento desenvolveu-se e passou a disputar as primeiras posições em competições internacionais, a realidade cotidiana das pessoas com deficiência ainda é marcada por barreiras de acesso a práticas esportivas com finalidade de reabilitação, saúde e inclusão. O trânsito e a violência urbana produzem, ano após ano, milhares de pessoas com deficiência, enquanto as deficiências congênitas e os diagnósticos de Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) crescem de forma consistente.
O caminho que estamos construindo passa por levar a prática esportiva para dentro dos Centros Especializados em Reabilitação (CERs) do SUS e conectá-la, de forma orgânica, a entidades de prática paradesportiva para que possamos garantir a continuidade da formação de atletas campeões e, acima de tudo, garantir o direito do acesso a práticas esportivas para as pessoas com deficiência.
Foi com esse compromisso que demos um passo histórico. O Ministério do Esporte lançou, neste mês, o Programa Vencer pelo Esporte, que estrutura uma política pública capaz de integrar cuidado, inclusão e desenvolvimento esportivo. Firmamos um acordo que permite a atuação direta do Ministério do Esporte no Contrato de Gestão do Ministério da Educação (MEC) com o Instituto Santos Dumont. Na prática, isso significa que o esporte agora está inserido na Rede de Cuidados da Pessoa com Deficiência do SUS como política pública integrada entre educação, saúde e esporte, baseada em dados científicos, realizada com planejamento, monitoramento e com objetivo claro: mudar a realidade do esporte para a pessoa com deficiência e, consequentemente, iniciar um movimento de transformação da sociedade. Essa é uma mudança de paradigma.
- Leia também: Trump, Fifa e a promessa de Copa inclusiva
Temos atualmente 342 Centros Especializados de Reabilitação, distribuídos por todas as regiões do país. Trata-se de uma infraestrutura robusta. No entanto, apenas cerca de 12% dessas unidades utilizam o esporte de forma estruturada. Esse dado revela o tamanho da oportunidade que temos diante de nós e também a urgência de agir.
O acordo de cooperação técnica entre os ministérios do Esporte e da Saúde fortalece o cuidado intersetorial e amplia o uso do esporte e da atividade física na reabilitação, inclusive para pessoas com TEA. A iniciativa inclui formação de profissionais, produção de conhecimento, definição de indicadores e apoio a programas já em curso em todo o país.
A partir de agora, esporte, saúde e educação atuam de forma integrada em um projeto comum, com o Instituto Santos Dumont como polo de formação, inovação e acompanhamento. Não se trata mais de discurso e, sim, de política pública concreta, com impacto direto na vida das pessoas.
Quando o esporte entra na reabilitação, ele não transforma apenas indicadores de saúde. Ele transforma trajetórias, amplia horizontes e muda a forma como a sociedade enxerga a pessoa com deficiência. Esse é o Brasil que queremos construir: um país que reconhece o esporte como ferramenta de inclusão, dignidade e oportunidade. Temos todas as condições de dar esse salto. E começamos. Porque o esporte, no Brasil, não é apenas competição. É também recomeço.
Saiba Mais

Opinião
Opinião
Opinião