Artigo

O funeral da boneca

Com o avanço das incursões de Israel e Estados Unidos no Oriente Médio, cada vez mais crianças deverão trocar jogo de bola, queimada e esconde-esconde por funerais de bonecas encardidas

Cada vez mais crianças deverão trocar jogo de bola, queimada e esconde-esconde por funerais de bonecas encardida -  (crédito: BASHAR TALEB / AFP)
Cada vez mais crianças deverão trocar jogo de bola, queimada e esconde-esconde por funerais de bonecas encardida - (crédito: BASHAR TALEB / AFP)

Quando visitei o Museu do Levante de Varsóvia, na Polônia, o que mais me comoveu não foram os pijamas listrados, esse símbolo da despersonalização hedionda imposta aos judeus nos campos de concentração. Naquele memorial da resistência dos poloneses confinados em um gueto, o que mais me chamou a atenção foram os brinquedos. Bonecas, ursos, soldadinhos. Uma lufada de inocência em um local de sombra e dor.

Na semana passada, um vídeo divulgado no perfil @ghaith_of_gaza (checado e validado por softwares que analisam o uso de inteligência artificial) me fez lembar desse museu, onde estive há quase 10 anos. Nas imagens, quatro crianças com não mais de 3 anos fazem o funeral de uma boneca encardida, da cor dos escombros de uma Faixa de Gaza arruinada pelos ataques que já duram dois anos e meio.

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Os pequenos ajeitam a boneca em uma maca improvisada. Primeiro estão rindo e dançando. Mas, quando começam a carregar o "corpo", ficam sérias. Reproduzem a dor que veem nos adultos no ritual diário dos funerais — até o fim de março, 72 mil palestinos haviam morrido em Gaza.

Não há, no vídeo, qualquer elemento dramático, no sentido convencional. Não há som de choro, nem de sirene, nem de bomba. São apenas quatro crianças brincando de encenar a realidade delas — como quando as nossas crianças brincam de dar aula ou de fazer comidinha. É a normalidade da cena que perturba. A denúncia, mais do que qualquer estatística, dos horrores da guerra.

Brincar é a linguagem universal das crianças, pela qual desenvolvem a cognição, a linguagem e as habilidades sociais. E sempre darão um jeito de fazer isso, mesmo quando a imbecilidade dos adultos ameaça roubar delas o mundo da fantasia.

No artigo Children and play in the Holocaust (Crianças e brincadeiras no Holocausto), June Factor, pesquisadora da Escola de Estudos Históricos e Filosóficos da Universidade de Melbourne, na Austrália, relata que, confinadas em campos de extermínio, crianças judias inventaram uma brincadeira chamada câmara de gás. Consistia em jogar pedras em um buraco, enquanto reproduziam sons de pessoas morrendo.

Em Auschwitz-Birkenau, gostavam de se desafiar, como qualquer criança, e faziam isso dizendo "duvido que você tenha coragem de tocar na cerca elétrica". A violência estava tão enraizada no cotidiano que um tipo de brincadeira era vedar os olhos de um dos participantes, que receberia, em seguida, um duro golpe no rosto. Ganhava quem conseguia adivinhar qual amiguinho o espancou.

Histórias assim nunca deveriam ter acontecido, mas, uma vez tenham manchado a trajetória humana, jamais poderiam se repetir. Porém, com o avanço das incursões de Israel e Estados Unidos no Oriente Médio, cada vez mais crianças deverão trocar jogo de bola, queimada e esconde-esconde por funerais de bonecas encardidas.

 

 

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postado em 06/04/2026 06:05 / atualizado em 06/04/2026 06:54
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