
Faltam 48 dias para a abertura de um dos eventos mais aguardados do planeta, mas o clima no Brasil está longe da euforia que, por décadas, antecedeu cada Copa do Mundo. Em vez da contagem regressiva movida por expectativa, o noticiário recente combina lesões em série de atletas importantes e um desinteresse crescente do público. A fotografia do momento sugere desgaste. A história, porém, recomenda cautela antes de decretar indiferença definitiva.
Nesta semana, discussões táticas ou favoritismo ficaram de lado para dar vez às notícias sobre o departamento médico. O ponta Estêvão, uma das maiores promessas brasileiras, sofreu ruptura praticamente completa do músculo da coxa e corre sério risco de perder o torneio. Éder Militão também preocupa. No exterior, nomes relevantes igualmente caíram pelo caminho, como o alemão Gnabry, astro do Bayern. Lamine Yamal, outro candidato a protagonista, também entrou na lista de apreensões. Em um calendário cada vez mais congestionado, o corpo do atleta virou fronteira de risco permanente.
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O futebol moderno cobra caro. Clubes exigem rendimento máximo o ano inteiro. Seleções disputam datas espalhadas pelo calendário. Competições comerciais se multiplicam. O resultado é previsível: jogadores chegam ao principal torneio do mundo exaustos, lesionados ou no limite físico. A Copa segue como o ápice do esporte, mas não encontra seus protagonistas em plenitude com a frequência de outros tempos.
Ao mesmo tempo, chama atenção o distanciamento do torcedor brasileiro. Divulgada nesta semana, pesquisa Datafolha mostra que 54% dos entrevistados dizem não ter interesse em assistir aos jogos do Mundial dos EUA, México e Canadá. É o maior percentual da série histórica iniciada em 1994. Antes da Copa da Rússia, o índice era de 53%. Às vésperas do Catar, 51%. O desinteresse é ainda maior entre as mulheres, com 62%, contra 46% entre os homens. Além disso, três em cada 10 afirmam que não pretendem assistir às partidas.
As razões são múltiplas. O Brasil não conquista uma Copa há 24 anos. Há uma geração inteira que nunca viveu a experiência de ver a Seleção campeã. No intervalo, acumulam-se frustrações marcantes: o 7 a 1 diante da Alemanha, eliminações dolorosas para Croácia e Bélgica, enquanto a maior rival, a Argentina, voltou a disputar final e ergueu a taça. O mito da nossa superioridade natural se dissolveu.
Também pesa o afastamento institucional entre Seleção e povo. Durante anos, a cartolagem preferiu amistosos em mercados distantes, como Arábia Saudita, China e Japão, em vez de aproximar o time do torcedor em solo nacional. Soma-se a isso a ausência de um ídolo incontestável. Neymar jamais correspondeu integralmente à expectativa depositada sobre ele em Copas anteriores. O país produz excelentes jogadores, mas ainda busca um rosto capaz de sintetizar esperança coletiva, como Romário em 1994 ou Ronaldo em 2002.
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O próprio futebol doméstico enfrenta sinais de fadiga. Arbitragens contestadas, polêmicas recorrentes e sensação de critérios desiguais corroem a confiança do público. Com as redes sociais, a outrora paixão nacional tornou-se mais crítica, mais desconfiada e menos automática.
Ainda assim, convém relativizar o aparente esfriamento. O brasileiro costuma reencontrar a Copa quando a bola rola. Em 2014, muitos repetiam que não haveria ambiente para o torneio aqui no Brasil. Houve, e com mobilização gigantesca. A Copa tem um poder raro de reorganizar emoções coletivas, suspender rotinas e recolocar o futebol no centro da conversa nacional. Quando começar, daqui a um mês e meio, o país provavelmente lembrará por que esse torneio ocupa lugar tão singular em nossa memória. O interesse pode até adormecer, mas dificilmente desaparece.
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