Visão do Correio

Emagrecendo com segurança

A busca pela perda de peso é uma motivação legítima, mas deve ser feita com responsabilidade

É inegável que as canetas emagrecedoras, até aqui, têm representado um avanço notável no combate à obesidade e à diabetes 2, problema de saúde pública em escala global -  (crédito: Freepik)
É inegável que as canetas emagrecedoras, até aqui, têm representado um avanço notável no combate à obesidade e à diabetes 2, problema de saúde pública em escala global - (crédito: Freepik)

A popularização das canetas emagrecedoras no Brasil é um fenômeno de duas faces. Por um lado, a chegada desses medicamentos é vista por especialistas como o início de uma nova era no combate à obesidade e à diabetes tipo 2. Por outro lado, os problemas derivados desse avanço da medicina — uso sem orientação médica, descaminho e comércio clandestino, para citar alguns — exigem uma fiscalização firme e uma atuação esclarecedora das autoridades regulatórias.

Os medicamentos à base de substâncias como semaglutida, liraglutida e dulaglutida — capazes de provocar a saciedade e o controle da glicose no organismo — representam uma ferramenta importante para um fenômeno avassalador no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, o número de adultos com diabetes aumentou 135% entre 2006 e 2024, passando de 5,5% para 12,9% da população. Significa dizer que mais de 16 milhões de brasileiros entre 15 e 64 anos contêm altas taxas de açúcar no sangue, com risco de desenvolver graves comorbidades provocadas por essa doença silenciosa.

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Ainda segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou, no intervalo de 18 anos, um crescimento significativo de outras condições de risco na população adulta: hipertensão, 31%; obesidade, 118%; e excesso de peso, 47%. Considerando fatores sociais e econômicos, como estilo de vida, sedentarismo e má alimentação, está formado um cenário desafiador para as autoridades sanitárias, a classe médica e a sociedade. É preciso agir prontamente para impedir que a saúde do brasileiro se deteriore cada vez mais, com impactos crescentes nos serviços públicos. É nesse contexto que deve ser compreendida e saudada a vinda de medicamentos como Mounjaro, Ozempic e similares.

A questão é que o uso desses remédios, com efeitos visíveis e em alguns casos impressionantes, traz um risco. O sucesso das canetas emagrecedoras tem provocado uma altíssima demanda na sociedade, e esse fenômeno se torna uma oportunidade para desvios, golpes e esquemas. São cada vez mais frequentes operações da Polícia Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para coibir o descaminho e o comércio irregular desses produtos.

Nos aeroportos brasileiros, surgem a cada dia novas modalidades de flagrantes de passageiros trazendo dezenas de ampolas e seringas para vender no mercado interno. Há ainda apreensão de carregamentos ilegais e desmonte de laboratórios clandestinos. Nesse conluio, há a participação de médicos. Não bastasse a atividade criminosa que veio à tona em paralelo às canetas emagrecedoras, observa-se outro fenômeno perigoso: o uso desses remédios por meras razões estéticas, sem o devido acompanhamento de um profissional de saúde.

Segundo a literatura médica, o tratamento é indicado para indivíduos com Índice de Massa Corpórea (IMC) acima de 30, ou para quem comprovadamente se encontra com diabetes tipo 2, hipertensão e outras ocorrências. Note-se, portanto, que é fundamental haver um aconselhamento médico antes de procurar o balcão da farmácia ou um site na internet.

A busca pela perda de peso é uma motivação legítima, mas deve ser feita com responsabilidade. São conhecidos e demandam observação rigorosa efeitos adversos como náusea, vômito, diarreia e constipação intestinal. Mais recentemente, a Anvisa anunciou que investiga o aumento de casos de pancreatite supostamente relacionados ao uso desses medicamentos — efeito colateral previsto na bula, ainda que de rara ocorrência.

É inegável que as canetas emagrecedoras, até aqui, têm representado um avanço notável no combate à obesidade e à diabetes 2, problema de saúde pública em escala global. Cabe aos consumidores, contudo, o uso consciente desse tratamento, sob risco de comprometer ainda mais a própria saúde. É fundamental, também, que as autoridades e a classe médica se mantenham atuantes contra criminosos e vigaristas que visam o lucro à custa da vida das pessoas.

 


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postado em 26/04/2026 06:09
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