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21 de março exige ação concreta contra a desigualdade racial

O racismo no Brasil é estrutural: não depende apenas de atitudes individuais, mas se reproduz nas práticas institucionais e nos critérios informais que mantêm privilégios históricos para a elite branca

Ernandes MacárioEspecialista em educação integral, cidadania e inclusão social pela UFRPE, com MBA em gestão de negócios pela USP 

O Dia Internacional pela Eliminação da Discriminação Racial, celebrado no último 21 de março, não pode se resumir a gestos simbólicos. No Brasil, precisa ser um momento de cobrança real, especialmente quando observamos o mercado de trabalho. Somos o país com a maior população negra fora da África. Segundo o IBGE, pessoas pretas e pardas representam cerca de 56% dos brasileiros. Ainda assim, os indicadores revelam desigualdades profundas.

Dados recentes da PNAD Contínua mostram que a taxa de desemprego entre pessoas negras segue maior que a de pessoas brancas. Mesmo com a redução geral do desemprego, o desequilíbrio persiste. A renda média reforça o abismo: trabalhadores negros recebem, em média, pouco mais de 60% do rendimento dos brancos.

O quadro se agrava nas posições de liderança. Pesquisas indicam que menos de 10% das posições executivas em grandes empresas são ocupadas por pessoas negras. Nos conselhos de administração, o percentual é ainda menor. Ou seja, embora sejam maioria na população, seguem minoria nos espaços de decisão econômica.

Isso não é acaso: é herança de um processo histórico que o país nunca enfrentou de forma estruturada. A abolição da escravidão não veio acompanhada de políticas de inclusão ou reparação. O resultado foi a perpetuação de um ciclo de exclusão que atravessou gerações. O racismo, hoje, atua de modo mais sofisticado — nas barreiras sutis à ascensão profissional, nas redes limitadas de relacionamentos e na ausência de representatividade em posições estratégicas nas empresas de grande porte e nas instituições mais prestigiadas.

O racismo no Brasil é estrutural: não depende apenas de atitudes individuais, mas se reproduz nas práticas institucionais e nos critérios informais que mantêm privilégios históricos para a elite branca.

A aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, em 2010, foi um marco importante. Porém, mais de uma década depois, o desafio continua sendo transformar princípios em ação concreta. Sem metas, mecanismos de acompanhamento e transparência nos dados, a igualdade segue mais como discurso que como realidade.

O avanço recente das pautas ESG (sigla em inglês para as áreas de meio ambiente, social e governança) ampliou o debate sobre responsabilidade social e diversidade nas empresas. Segundo a Anbima, mais de 80% dos gestores já incorporam critérios ambientais, sociais e de governança em suas decisões. A inclusão racial entrou na agenda, mas ainda de forma tímida.

Criar comitês ou campanhas internas é um passo, não a chegada. É preciso definir metas mensuráveis para cargos de liderança, investir na formação de talentos negros e divulgar resultados com transparência. Estudos internacionais mostram que empresas com maior diversidade étnica em posições estratégicas apresentam melhor desempenho financeiro e maior capacidade de inovação. Promover inclusão, portanto, não é só uma exigência moral — é uma decisão inteligente do ponto de vista econômico.

Eliminar a discriminação racial no mercado de trabalho não significa criar privilégios, e sim corrigir distorções históricas que impedem o pleno desenvolvimento do país. Se mais da metade da população está sub-representada nos espaços de poder econômico, há um problema estrutural que precisa ser enfrentado com seriedade.

O 21 de março deve inspirar perguntas objetivas: quantos profissionais negros ocupam cargos de direção? Quantos estão nos conselhos? Quantos são preparados para posições estratégicas? Sem dados públicos e metas claras, não há transformação real.

O Brasil possui base constitucional, leis específicas e compromissos internacionais pela igualdade racial. O que falta é transformar essas diretrizes em prática contínua, monitorada e mensurável.

A desigualdade racial no mercado de trabalho não é apenas uma questão social — é um obstáculo ao desenvolvimento econômico e à maturidade institucional do país.

A história ensina que avanços não nascem da inércia, e sim da decisão. Outros 21 de março virão. Que sejam menos um dia de retórica e mais um marco de responsabilidade e ação, em direção a um Brasil onde talento e competência não tenham cor.

 

 

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