OPINIÃO

Quem é você no Gólgota? Uma reflexão sobre os ladrões crucificados

Dois homens, duas oportunidades e dois destinos: a cruz central não mudou apenas a história, mas expôs o que havia no coração de quem estava ao lado de Jesus nos últimos diálogos no calvário

Nosso encontro de sábado costuma ser sobre esportes, mas em tempos de Páscoa, peço uma pausa para reflexão. Meditei nesta semana sobre Jesus e os dois ladrões ou malfeitores crucificados à direita e à esquerda do Mestre. O cânon bíblico não cita o nome deles. Considerado apócrifo, o Evangelho de Nicodemos os chama de "Dimas" (o bom ladrão) e "Gestas" (mau).

Jesus estava centralizado entre eles porque era a posição destinada ao maior de todos os criminosos. Cristo havia sido acusado — e condenado — de blasfêmia contra Deus ao se apresentar como filho, Rei dos Judeus; e por conspiração contra César.

Pilatos não via fundamento nas denúncias. Terceirizou o problema. Enviou a questão a Herodes. Em seguida, mandou açoitá-lo. Por fim, propôs soltar Jesus ou Barrabás. Lavou as mãos na escolha popular e autorizou a crucificação de Cristo.

Aqui vale uma reflexão sobre os perfis e os posicionamentos dos ladrões. Um se arrepende após diálogo crucial com Jesus — e alcança a salvação. O outro incorpora o ambiente hostil de quem testemunhava a cena e tripudia do inocente até a morte. O capítulo 27 do evangelho de Mateus e o 23 de Lucas detalham um dos momentos mais tensos na história do cristianismo.

É interessante comparar as características dos ladrões. Um deles, chamado por alguns de "Gestas", é rebelde, irredutível até o último suspiro. Morre atirando. Antes, desafia: "Você não é o Messias? Então salve a você mesmo e a nós também", ironizou.

Focado e sensível ao cenário no Gólgota, o outro condenado, cujo nome seria "Dimas", observava e adverte "Gestas": "Você não teme a Deus? Você está sob a mesma condenação que ele (Jesus). A nossa é justa, e por isso estamos recebendo o castigo que merecemos por causa do que fizemos; mas ele (Jesus), não", sentencia. Além de rejeitar Jesus, o malfeitor indomável não o reconhece como Salvador. Egocêntrico, só pensa em si. Não enxerga um plano maior voltado para a humanidade. Ao pedir um ato de super-herói da parte de Jesus, inclui nas entrelinhas a vontade própria de pegar carona no aguardado milagre e escapar dali, ou seja, safar-se da maneira dele. Não via a morte e a ressurreição de Cristo como o plano perfeito de salvação.

Enquanto isso, o perfil do outro condenado aceitava a metamorfose. Além de alertar "Gestas" sobre a relevância daquele momento, "Dimas" abriu o coração. Estabeleceu conexão direta e sincera com Jesus. Fez uma escolha e deixou lições importantes.

Há duas interpretações para a palavra ladrão no grego. Uma delas é "kleples", milicianos independentes que viviam nas montanhas durante o domínio otomano, frequentemente agindo como bandidos ou rebeldes. Judas Iscariotes era considerado um deles. A outra é "lestai", referência a um ladrão cruel, cujo modelo é Barrabás.

"Dimas", o malfeitor do diálogo com Jesus, tinha o perfil violento. Era considerado um sujeito com o caráter deformado, terrível. Mesmo assim, mostra sensibilidade na cruz ao ouvir Jesus dizer: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

Tocado por aquelas palavras, entende o senso de urgência e aceita a transformação. Crê e apela a Jesus: "Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino". A resposta à súplica do malfeitor é imediata. Cristo banca: "Eu afirmo que isto é verdade: hoje você estará comigo no Paraíso". Em uma analogia com o futebol, "Dimas" é salvo nos acréscimos do jogo da vida!

Encerro com uma pergunta: Quem é você no Gólgota, no cenaário da crucificação de Jesus? "Gestas", irredutível até a morte; ou "Dimas", o arrependido perdoado, salvo mediante a fé, a graça e por entender com quem estava falando? Dois homens, duas oportunidades, dois destinos. Feliz Páscoa!

 


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