ARTIGO

O que me faz feliz também me faz bem?

Cuidar de si, para uma pessoa negra, também é um gesto político. É romper com a lógica cruel que sempre nos quis funcionando, mas não inteiros

. -  (crédito: Alex Green/Pexels)
. - (crédito: Alex Green/Pexels)

Carlos Alberto Silva Junioradvogado, mestre em políticas públicas em saúde, integra a direção-executiva da Unegro Brasil

Disseram muitas vezes ao povo negro que sobreviver já era sorte. Que sorrir, apesar de tudo, já bastava. Que qualquer fresta de alívio podia ser chamada de felicidade. E, talvez, esteja aí uma das armadilhas mais profundas da vida: confundir o que anestesia com o que cura, confundir o que agrada com o que sustenta, confundir o brilho passageiro do açúcar com o alimento verdadeiro da alma.

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Há coisas que nos fazem felizes num primeiro instante. E como fazem. Acariciam carências antigas, preenchem silêncios, distraem dores, dão a impressão de que, enfim, algo em nós encontrou descanso. Mas nem tudo que adoça a boca fortalece o corpo. Nem tudo que acalma o coração por uma noite consegue protegê-lo pela manhã. E crescer também é receber esse golpe seco no peito: descobrir que aquilo que nos fazia sorrir, às vezes, também nos feria. Descobrir que há felicidades que não passam de sedução da falta.

Para pessoas negras, isso ganha uma camada ainda mais funda. Porque a nossa história foi atravessada pela negação sistemática do cuidado, do tempo, do descanso, da dignidade, do amor inteiro. Fizeram-nos acreditar, muitas vezes, que bastava sermos aceitos em migalhas. Que bastava sermos lembrados de vez em quando. Que bastava caber, ainda que apertados, em lugares que nunca foram pensados para nos acolher. E assim, não raro, aprendemos a chamar de felicidade o que era apenas trégua. Aprendemos a agradecer o pouco como se fosse plenitude. Aprendemos a celebrar o que nos alivia, mesmo quando aquilo também nos adoece.

Mas felicidade de verdade não pode ser aquilo que cobra da nossa saúde emocional um preço alto demais. Não pode ser aquilo que exige o silenciamento da nossa dignidade. Não pode ser aquilo que nos deixa eufóricos por fora e desmontados por dentro. A felicidade real não humilha, não diminui, não pede que a gente se traia para permanecer. A felicidade real não é a que apenas excita; é a que também sustenta. Não é a que só faz sorrir na superfície; é a que permite respirar em profundidade.

Talvez por isso, seja tão difícil amadurecer o conceito de felicidade. Porque, às vezes, o que mais nos agrada nasce justamente daquilo que ainda não curamos. Há felicidades que se alimentam das nossas ausências, dos nossos abandonos, da nossa fome de sermos vistos, escolhidos, amados. E é duro admitir isso. É duro olhar para a própria vida e perguntar: o que, em mim, é doçura verdadeira e o que é só açúcar em excesso? O que me nutre, e o que apenas me vicia em pequenas compensações? O que me fortalece, e o que me enfraquece com a voz mansa de quem parece me amar?

Cuidar de si, para uma pessoa negra, também é um gesto político. É romper com a lógica cruel que sempre nos quis funcionando, mas não inteiros; vivos, mas não plenos; produtivos, mas não felizes de verdade. É entender que autocuidado não é luxo, e que alegria não pode ser confundida com fuga. É aprender a desconfiar do que nos oferece prazer, mas rouba nossa paz. É ter coragem de recusar o "doce" que encanta por um instante, mas adoece a existência aos poucos.

A verdadeira felicidade talvez seja menos barulhenta do que imaginamos. Talvez ela não chegue sempre em forma de explosão, mas de assentamento. Talvez ela tenha mais a ver com paz do que com êxtase. Mais a ver com inteireza do que com intensidade. Mais a ver com poder de permanecer sendo quem se é, sem se quebrar para caber, sem se violentar para agradar, sem se oferecer em sacrifício para receber migalhas de afeto, reconhecimento ou pertencimento.

Ser feliz de verdade, para nós, é também poder descansar sem culpa. É ser amado sem precisar merecer o básico. É ser visto sem ser exotizado. É ocupar espaços sem agradecer pelo direito de estar ali. É rir sem que o riso esconda exaustão. É sentir prazer sem que ele venha de mãos dadas com autossabotagem. É descobrir, com a dignidade de quem reencontra a própria ancestralidade, que nem tudo que nos chama é destino, e nem tudo que nos alegra é lar.

No fim, a pergunta mais honesta talvez seja essa: aquilo que me faz feliz também me faz bem? Aquilo que me alimenta hoje preserva minha alma amanhã? Porque felicidade real não é apenas sentir-se vivo no instante; é conseguir continuar inteiro depois dele. E talvez o amor mais profundo que possamos aprender seja justamente esse: deixar de dar a nós mesmos o doce que adoece, para enfim oferecer o cuidado que cura.

 

 

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Por Opinião
postado em 16/05/2026 06:00
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