
Alfredo Cotait Neto — presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e da Associação Comercial de São Paulo (ACSP)
O tema do endividamento voltou à pauta — com recordes negativos e históricos — por conta da preocupação eleitoral. Mas, a dificuldade para pagar as contas não vem de hoje. Nunca houve tantos brasileiros com dívidas. Os mais recentes levantamentos apontam que são — no mínimo — dois terços da população. Para o Datafolha, 67% dos entrevistados disseram ter dívidas. A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) traz um dado ainda mais alarmante: 80% das pessoas revelaram endividamento, um recorde na série histórica feita desde 2010. É uma "pandemia financeira", uma situação de catástrofe, que terá impactos severos na economia e nas relações sociais.
Uma breve reflexão nos mostra as principais razões que levaram a isso, nos últimos anos. A primeira delas é o fácil acesso ao crédito, com bancos digitais oferecendo cartões de crédito e empréstimo por meio do celular, de forma fácil e prática. Some-se a isso os juros altos praticados hoje no país. Na sequência, a proliferação de jogos de apostas, as chamadas bets, também facilmente acessados por um clique.
Resultado: a completa degradação do poder de compra do cidadão, que passou a ter sua renda gravemente comprometida a ponto de não conseguir pagar contas de consumo, como água e luz, gás. Na pesquisa Datafolha, 28% responderam que têm débitos com esse tipo de conta, itens sem os quais não se pode viver.
Uma outra descoberta das pesquisas: 78% dos brasileiros inadimplentes têm renda de até dois salários mínimos. Os mais endividados são justamente os que já tinham menor margem para consumo. Um retrato da desigualdade social, escancarado para o poder público. Pior: dados do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) revelam que 86% dos brasileiros endividados são reincidentes. É a bola de neve que nunca acaba…
O setor do associativismo defende e promove a educação financeira como um dos caminhos para reverter essa situação. Uma educação que seja feita também nas escolas, com as crianças, para que tenha efetividade no futuro. Sem a base, seremos para sempre o país do cheque especial e do rotativo.
Mas, o poder público tem responsabilidade enorme nas causas e — por óbvio — na missão de encerrar esse ciclo. De início, fazendo uma boa gestão dos recursos públicos, o que não ocorre atualmente no Brasil. Pelo contrário. Os desmandos se sucedem dia a dia. Vivemos em um país sem segurança jurídica, sem planejamento para gerações. Só se pensa em eleições. A reputação e a credibilidade de um país são os termômetros para investimentos e progresso. É isso que se precisa buscar. Programas que otimizem o pagamento de dívidas, se feitos de forma isolada, são apenas remédios temporários, que não resolvem o problema crônico do endividamento.
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O governo precisa estabelecer um gerenciamento responsável do orçamento federal, de forma que os investimentos aumentem e a economia gire de forma a incluir, e não a excluir os cidadãos. Quem tem dívidas não compra. Apenas paga juros, entre os mais altos do mundo. O Brasil convive com uma taxa básica de juros, a Selic, fixada em 14,50% ao ano pelo Banco Central em abril de 2026, mas os juros praticados no crédito rotativo do cartão chegam a superar 400% ao ano, segundo dados do Banco Central.
Esse abismo entre a taxa oficial e o que efetivamente recai sobre o consumidor endividado revela a disfunção estrutural do sistema financeiro nacional e aprofunda a armadilha da inadimplência. O trabalhador que recorre ao crédito para pagar o básico não encontra saída: refinancia dívidas a taxas predatórias, compromete renda futura e retira do mercado exatamente o consumidor que a economia precisa para girar.
Em ano eleitoral, o alerta precisa ser ainda maior. A ampliação de gastos de forma desordenada e a flexibilização de regras fiscais, quando motivadas exclusivamente por resultados nas urnas, produzem consequências que se manifestam anos depois, com juros ainda mais altos, inflação corroendo o poder de compra e menos espaço para investimento público.
O objetivo dos gestores públicos deveria ser o acesso responsável ao crédito, com capacidades de compra e consumo, mas com pagamento de contas em dia. Isso é gestão de risco e proteção financeira ao cidadão. É nisso que o governo precisa focar para solucionar esse momento tão grave, doente sob aspecto econômico. Sobrevivemos à pandemia da covid, nosso alerta é que estamos em outra pandemia, econômica. Como passaremos por ela?
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